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Opinião

História da vida de pessoas que moravam em uma quadra na rua Barão de Melgaço

Autor: VANILDES MARIA DE SOUZA

11 Jan 2019 - 08:00

Estas são lembranças d os tempos vividos entre os anos de 1955 a 1965 na rua Barão nesta única quadra . Os fatos aqui relatados se passam somente nessa única quadra ou tem relação com algum morador da referida quadra,  uma vez que não havia muitos automóveis na época e as pessoas transitavam de uma maneira geral quase sempre a pé. Iam para os seus empregos ou para suas escolas sempre a pé. Então uma das diversões preferidas dos moradores era ficar sentados à porta ou na janela olhando as pessoas que iam e vinham.

Nos anos de 1950 e começo dos anos sessenta, a Rua Barão de Melgaço era uma das mais importantes de Cuiabá. Tornou-se ainda mais movimentada  depois da inauguração da Ponte Nova, pois , por ela passavam pessoas ilustres que visitavam a cidade, indo em direção ao aeroporto.

A Rua Barão é muito extensa. Por isso vou me restringir apenas ao trecho que ia do Campo D'Ourique(Praça  Moreira Cabral) à Avenida Ponce.  

 As crianças  gostavam de ver  a saída das alunas do Colégio Coração de Jesus. Elas desciam a BARÃO fazendo a maior algazarra com a felicidade de estarem indo para casa após um dia estafante  de aprendizagem.

Imagine uma simples quadra, cujos habitantes tinham muita relevância naquela Cuiabá, dos  anos finais da década de cinquenta e começo dos anos sessenta.

Ali residiam um desembargador, um secretário de Estado, um sapateiro, um ou dois comerciantes, uma intelectual, três fazendeiros, um motorista de taxi, portanto pessoas que pertenciam a várias classes sociais e conviviam como se as tais diferenças de  classes não existissem, dentro da maior harmonia.

As crianças brincavam muito na rua. Brincavam de roda, passa anel, pegador, passa meu bom barqueiro e muitas outras.

Uma das vantagens de morar na rua Barão de Melgaço era poder ver todos os visitantes ilustres, pois essa rua era o caminho do aeroporto. Por lá passaram Carlos Lacerda, Juscelino Kubitscheke outros.

Um certo governador tinha uma amiga muito bonita nessa quadra. Ele a visitava constantemente e a casa era conhecida como coqueirinho.

Na década de sessenta outro governador gostava de passear de carro com suas crianças.

Um dos fazendeiros era o Sr. Mariano Ramos. Tinha uma família grande. As crianças ficavam em Cuiabá  na companhia‎ das tias, para estudar e o casal passava quase o ano todo cuidando das fazendas no Pantanal.  Na rua Barão    eles  tinham uma casa grande e bonita com pisos branco e preto e janelas com balaústres.

Dona Maria Dimpina era a intelectual da rua. Tinha uma pronúncia clara. Diziam que quando ela fazia um discurso na porta da casa, escutava-se na praça da Matriz. Muito culta e também muito religiosa. Era casada com o Sr.Firmo Duarte. Pais do muito querido da população cuiabana: o Padre Firmo.

Havia um sapateiro que tinha vários filhos, entre quais uma professora muito dedicada. Ela reunia em volta de uma mesa todos os alunos com dificuldades. E todos aprendiam. Tamanha dedicação. Seu pai, o sapateiro gostava de uma conversa com os vizinhos nas calçadas. e a política era o seu assunto predileto.

O Desembargador morava em uma casa  que na época era chamado de bangalô. Tinha um grande quintal e a família costumava tomar o café da manhã num jardim. Tinham sempre a companhia de um macaquinho, que fora abandonado por um circo. Esse macaquinho era muito arteiro. Todos os dias, ele roubava açúcar do açucareiro. Um certo dia ele tentava pegar o açúcar, mas o gato da casa lhe enfrentava e ele voltava cabisbaixo. O que fez ele? Foi até o varal onde havia uma toalha molhada, pegou-a e jogou-a na carta do gato. enquanto isso pegou o almejado açúcar.

As plantas da casa na sua maioria eram compostas de sala alcova(quarto) cozinha e banheiro. Os moradores faziam as subdivisões, conforme as necessidades.Com exceção do bangalô, havia três  outras casas grandes. Uma delas pertencia a D. Tomires . Essa casa era parecida com casa de fazenda. Tinha um grande jardim do lado, com chafariz . Dentro havia uma enorme varanda para a qual davam as portas dos quartos. E na frente duas grandes salas. a família era enorme. Além dos que moravam com ela havia os filhos e netos que vinham da fazenda para estudar em Cuiabá.

D. Pequenina era professora e alfabetizava adultos numa grande sala em sua casa. Alguns primos meus que moravam no sitio e ao mudarem para Cuiabá foram alfabetizados por essa gentil senhora.

As casas tinham as paredes laterais emendadas umas nas outras. chamava-se parede e meia. Não havia um corredor do lado, separando numa casa da outra. Nos dias de hoje diríamos que vivíamos em uma comunidade. A prosa na calçada rolava solta todos os fins de tarde e começo das noites e os assuntos eram desde as medidas d o governo até o que estava acontecendo com um ou outro vizinho . O secretário da Educação esforçava-se para nos explicar o plano trienal do ministro Celso Furtado do Governo João Goulart.

Nessa quadra havia   um Centro Operárario. Ali eram realizados alguns cursos para os operários e reuniões políticas. Carlos Lacerda, político carioca e opositor de João Goulart esteve em visita nesse Centro Operário

Nos sábados o Centro Operário realizava bailes muito movimentados. O interessante que a rua em frente ficava lotada de pessoas sapeando o baile. Eram chamados de sapos. tudo corria na santa paz.

O lazer ficava por conta dos passeios no Jardim. Os mais velhos sentavam-se nos bancos, os jovens davam várias voltas ou namorando ou apenas flertando. As crianças brincavam com a Preta. O jardim tinha um ambiente gostoso e era frequentado por pessoas de todos os  cantos da cidade. Como a rua do Coxim (hoje Isaque Póvoas) não tinha asfalto, as moças dos bairros mais distantes costumavam vir com um sapato e o escondia no alto da rua, calçando outro de salto para passear no jardim. Conta-se que uma determinada moça por malvadeza escondia o sapato da outra por ciúme do namorado.

Já havia também o Cine Teatro Cuiabá trazendo com um certo atraso os filmes americanos mais comentados. Antes da exibição sempre víamos o futebol no Canal 9.A televisão ainda não havia chegado. As pessoas que viajavam para São Paulo ou Rio de Janeiro já conheciam.

Onde hoje é a praça Rachid Jaudy, sempre havia um parque de diversões instalado. Com várias barracas como a do Coelho e Roda Gigante. Um sistema de altoafalante era utilizado para que as pessoas ofertassem músicas aos seus queridos. Tocava-se muito "Abra a porta ou a Janela, venha ver quem é que eu sou / sou aquele desprezado...As canções India e Beijinho Doce eram muito executadas.

A praça Moreira Cabral era tembém chamada Campo d'Ourique.Era o lugar preferido para o jogo de futebol dos guris e também local onde os circos de renome na época, tais como o Circo Garcia, se estabeleciam.Além dos palhaços, contorcionistas, bailarinos o circo trazia para a comunidade uma atração essencial para a cultura da época: eram os dramas. Gênero teatral muito apreciado, uma vez que a comunidade não contava com um teatro.

O saudoso jornalista Alves de Oliveira,  além de excelente cronista da Rádio Voz D'Oeste, tinha um programa para as crianças. Era no sábado à tarde e chamava-se Clube dos Pororocas. Ali as crianças acompanhadas de uma pequena banda cantavam ou dançavam.

Os jovens da rua estudavam as primeiras séries no Grupo Escolar Barão de Melgaço ou no Asilo Santa Rita e os cursos ginasiais eram feitos no ginásio Coração de Jesus, Ginásio Brasil ou Colégio Estadual de Mato Grosso. Para entrar no ginásio passava-se pelo exame de admissão. havia bons professores na época.

Professor Gastão Muller dava aula de história e costumava dizer que vivíamos isolados, não sentíamos porque estávamos em comunidade. Professora  Aída de matemática e Professor João Crisóstomo. Professora Josefina  também de história. Professora Dunga faz parte da história de Cuiabá, através da sua atuação no magistério, na música, folclore e muitas atividades culturais. Havia uma professora chamada d. Pequenina que alfabetizava jovens e adultos no salão de sua casa.

Aos poucos a rua Barão foi se modernizando, recebendo um novo calçamento e algumas cas modernas. Luiz Hadad construiu um sobrado novo  e Edmundo tenuta construiu uma linda casa com projeto moderno executado pelo professor Márdio. Professor Márdio dava aulas de desenho, era autodidate e responsável pela construçao de vários imóveis modernos na cidade. Da sua pranchete saíram vários projetos de imóveis construídos em Cuiabá.

A década de sessenta  foi terminando e Cuiabá foi se modernizando. Como cidade acolhedora, recebeu de braços abertos  os sulistas que foram carinhosamente chamados "paus rodados". Uma nova cultura foi chegando, contudo Cuiabá nunca perdeu nem perderá suas tradições tais como o bolo de arroz, o siriri, a sua história, o seu sotaque. Hoje uma cidade politicamente e culturamente  integrada no cenário nacional. E é por tudo isso que ela se torna em 2019 uma cidade tricentenária.


Campinas, 19 de novembro de 2018 é VANILDES MARIA DE SOUZA (Diretora de Escola Estadual, em Campinas, Aposentada)
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