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Segunda-feira, 29 de maio de 2017

Opinião

Há três anos morria Júlio Birré: um boêmio equilibrado

Autor: *Wilson Pires de Andrade

08 Abr 2017 - 10:34

Divulgação

  

Seus documentos, por favor. A voz imperiosa do popular Júlio Ramos de Morais (Julinho Birre); era fato corriqueiro. E esboçava o seu posicionamento quando alguém tentava entrevistá-lo. “É preciso uma apresentação, para depois soltar a língua”, dizia em tom jocoso.

Fundador e proprietário do Bar e Restaurante Kavú, Júlio Ramos de Morais é várzeagrandense, nascido em 14 de Agosto de 1937. Sobre Várzea Grande de antigamente, ele dizia com ar de deboche: “era simplesmente sem asfalto”.

Ele sempre foi pontual em seus compromissos. Júlio Ramos de Morais, mais conhecido como Júlio Birré, proprietário do antigo Bar e Restaurante Kavú, que era ultimamente localizado, na Rua Nossa Senhora do Carmo, nº 129, no Centro de Várzea Grande. Jeito simples, e sempre disposto a conversa (“com os amigos, é claro”), Júlio Ramos é Várzea-grandense de nascimento e da infância recorda a falta de infraestrutura do município. “Aqui no centro não tinha asfalto”.

Cursou até a primeira série. Depois teve que abandonar os estudos para trabalhar. O primeiro emprego foi em um Bar, como recorda de João Pinto, na Av. Couto Magalhães. Depois foi trabalhar com seu cunhado, no famoso Bar da época o “Balança, mas não cai”, do senhor Athaíde Gomes da Silva (Athaíde Balança). Com 20 anos, Julio Birre decidiu arrendar o Clube Esportivo Operário. O presidente na Época – lembra, era Rubens dos Santos. Essa trajetória foi de 1958 até 1964.
 

OS BARES

Após ser arrendatário do Clube Esportivo Operário, Júlio Birre montou um bar, na Couto Magalhães. Só voltava a arrendar o Operário em tempos de Carnaval. Nessa corrida, a criação do Restaurante Kavú, diz – começou na residência de dona Graci, esposa do finado Joãozito. O significado de Kavú, conforme Birre é “tempo bom”. “É uma palavra indígena”, complementa. Em 1974, devido a já exigência do mercado Várzea-grandense, Júlio Ramos de Morais criava o Jufat Bar. Nessa mesma época, casou-se com Francisca de Souza Gomes. “Eu tinha 35 anos”. Desse relacionamento Birré tem uma filha, chamada Sandra.

Tradicional ponto de encontro de várias personalidades, inclusive políticos, o Restaurante Kavú, foi parada obrigatória para quem desejava saborear, em primeiro plano, a famosa galinha com arroz, além da peixada. Ali, Júlio Birre mantinha alguns pontos pitorescos. Como por exemplo, o muro que circundava o estabelecimento. “Os freqüentadores escolhiam uma parte para pintar a propaganda de suas empresas”. O mais interessante nisso tudo é que cada local tinha seu preço, era de acordo com a localização do muro.

Outro fato corriqueiro no Restaurante Kavú eram as apostas políticas. Em época de eleições, os freqüentadores assíduos do Restaurante Kavú não hesitavam, após um gole e outra cerveja, em apostar neste ou naquele candidato. Muitos eram os apostadores, entre eles, conforme Birré eram: João Federal, Ary Campos, Juarez Toledo Pizza, Joaldo, Rubens dos Santos, Miltinho (seu garçom), entre muitos outros.

As apostas eram feitas em cheques. “O dinheiro ficava depositado em banco, rendendo. O ganhador levava tudo. Quer dizer, menos 10 por cento da comissão do Bar”. Acontece que o Birré sempre foi o juiz das apostas.

Júlio Birré talvez foi, o maior colecionador de discos de Vinil da boêmia, época marcante da música popular brasileira. De Vicente Celestino, passando por Altemar Dutra, Carmem Costa, Núbia Lafaiete, Cauby Peixoto, Silvinho, Nelson Gonçalves, até Roberto Carlos (Velha Guarda) era possível ouvir saboreando uma suculenta galinha com arroz, ao lado de uma loira gelada, no Restaurante Kavú. Dessa coleção de discos de Vinil, dizem, que há aproximadamente 780 Lps. “Sempre, dizia, não vendo e nem empresto, pois já perdi muitos discos com essa brincadeira”.

Outro fato jocoso e tradicional do Restaurante Kavú era a famosa caderneta em poder de Júlio Birré, já amarelada pelo tempo. As páginas da referida caderneta registravam velhas contas a pagar de personalidades ilustres como jogadores de futebol, radialistas, políticos, etc.

Em seus últimos dias do Restaurante, essas personalidades não mais compareciam no recinto, nem para acertar o antigo débito. Tanto é, que quando entrava um cliente amigo, Júlio já ia disparando, em voz alta e bom som “acertando”. Há contas de 1977 e também cheques sem fundos. Em forma de brincadeira, Birré dizia que agora não tem mais o “marcando”.

Questionado uma vez sobre política Várzea-grandense, Júlio adiantou que nunca quis participar disputando cargos. “Já foram feitas várias reuniões de políticos no Bar e Restaurante. Todos são fregueses. Há inclusive fofocas, mas após a bebedeira, tudo ficava na mesa do Bar”, dizia Júlio Ramos de Morais, o conhecido, falado e famoso Júlio Birré.

Júlio Birré lutava incansavelmente contra o Mal de Alzheimer, uma doença incurável acompanhada de graves transtornos as vítimas.

Júlio Ramos de Moraes morreu no dia 9 de abril de 2014, em Várzea Grande. Júlio Birré e o Kavú ficarão vivos para sempre na história de Várzea Grande.


*Wilson Pires de Andrade é Jornalista em Mato Grosso.

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