Olhar Direto

Domingo, 19 de novembro de 2017

Opinião

Cuiabá para os cuiabanos

Autor: Wilson Carlos Fuáh

20 Abr 2017 - 16:11

Só para ilustrar e não querendo ser professor para neófitos em cultura cuiabana, vamos relatar o que é o Siriri e o Cururu, de um modo mais simples e de acordo com as nossas vivências e observações pessoais: 

O Siriri é dançado e cantado por homens e mulheres, sendo também bastante apreciado pelas crianças, era festa de terreiro que varava noite e ia até o dia clarear, tendo em suas cantigas versos com palavreados dos cantos simples e repetitivos, fácil para decorar. Já  a animada dança tinha a sua formação em roda, depois passava pela formação em fileiras, onde os dançarinos batia as palmas das mãos entre os componentes das fileiras opostas e cantando em voz alta seguia em ritmo alegres e vibrantes, cantada em ritmos frenéticos,  e a vestimentas de pano simples, mas bem coloridas (antigamente era usada a própria roupa da festa).

Já os instrumentos na sua forma mais rude são compostos de: Viola de Cocho, Ganzá e um Mocho (banco de madeira com quatro pernas e revestido de couro de boi ou veado) e os cantadores com ritmos fortes, seguia na mesma toada dos componentes da dança, só que o ritmo é mais rápido do que as cantigas do Cururu, e iam  formando quadras com cantiga em versos sobre amores, a natureza, os costumes regionais e fatos políticos.

Por outro lado, o Cururu é composto de músicas e danças executadas apenas por homens em forma de roda, não há participação de mulheres ou crianças, onde os tocadores de Viola de Cocho balança de um lado para outro, dentro da roda, folgando dentro da roda em passos iguais, (sem encostar uns nos outros), e assentando ora o pé esquerdo, ora o pé direito e finalmente batendo os dois pés em forma de dança até quase a ajoelhar-se, e durante a dança as violas quase chegam a tocar uma viola na outra.

A concentração dos cururueiros, dos grupos de cantiga e a própria dança era realizada no terreiro próximo a casa da festa, é o lugar onde os cantadores soltavam suas vozes fortes que chegava até a engrossar as veias do pescoço. Eram toadas tradicionais e os refrões eram feitos de improvisações criativas dos cantadores, com temas de amor, religião e causos inventados na hora.

Tanto o Siriri como o Cururu, faz parte das danças tradicionais dos Ribeirinhos e dos Pantaneiros, e fazem parte da tradição das pessoas humildes que reúnem nas fazendas e lugarejos realizando grandes festas populares e religiosas. Sempre após as rezas aos Santos Festeiros, começa o momento mais alto da festa, com as apresentações das danças de siriri e cantigas dos cururueiros varando a noite e a alegria regada com uma boa pinga (com raiz de bugre e nó de cachorro) e essa alegria da festa entrava pelas matas adentro quebrando o silêncio da noite, o som das vozes forte dos cururueiros era ouvida a longa distância e acordava a vizinhança, e era festa até o dia clarear.      

Tudo que se relaciona com a cultura cuiabana, está intimamente ligado às cidades que têm história comum com a cuiabanidade: Várzea Grande;  Santo Antonio do Leveger; Barão de Melgaço; Nossa Senhora do Livramento; Poconé;  Cáceres; Rosário Oeste; Diamantino e outras. Essas cidades mais antigas têm a mesma formação cultural de Cuiabá,  toda a culinária e costumes são praticamente iguais. A cultura das danças de Siriri e cantigas de Cururu estão espalhadas nas  redondezas dessas cidades, fazem parte das festas das fazendas e lugarejos, onde se formavam grupos que preservavam nos seus conhecimentos pessoais e eram passados de pai para filho, que vai desde a confecção das Violas de Cochos, Ganzás, Mocho. Preservando também o jeito de cantar e dançar;  impressionante  é que essa cultura já demanda dois séculos e meio, e apesar dos meios de comunicações precários (em épocas passadas) essa cultura foi preservada por todas essas cidades circunvizinhas de Cuiabá. 

Na administração do cuiabaníssimo Roberto França,  o Poder Municipal instituiu o Festival de Cururu e Siriri de Cuiabá, e incluindo-o no calendário turístico da cidade, profissionalizando a apresentação como mega show, disponibilizando estruturas como: palco, equipamentos de som, arquibancadas e bancando recursos para vestimentas, transportes e compra de insumo para confecção de instrumentos, mas infelizmente acabou.

Cabe a nós cuiabanos, que amamos esta terra mãe, a obrigação de preservamos essa cultura linda que é genuinamente nossa, e não deixar que falsos formuladores de programas culturais que ensaiam a tomar conta de Cuiabá, possam um dia acabar com o Cururu e o Siriri em nome de modismo passageiro como: Sertanejo Universitário.

É muito importante que todas as forças políticas de Cuiabá, unam-se em torno de  um grande projeto para perpetuar a cultura do Cururu e Siriri, é uma cultura que veio lá das raízes dos nossos ancestrais e que com sua  força própria chegou até os nossos dias, fazendo com que esse Ícone da nossa cultura, possa  estar  para sempre entre nós cuiabanos. 

*Economista Wilson Carlos Fuáh é especialista em  Recursos Humanos e Relações Sociais e Políticas. Fale com o Autor: wilsonfua@gmail.com          
Sitevip Internet