Olhar Direto

Terça-feira, 21 de novembro de 2017

Opinião

No tempo do finca finca

Autor: Eduardo Póvoas

04 Jul 2017 - 13:43

Li esta semana uma reportagem sensacional sobre um dos locais que marcaram a minha infância e juventude, o Cine Bandeirantes.
Ali passei horas inesquecíveis. O escritor Aníbal Alencastro narrou com impressionante precisão o que foi o cinema xodó dos cuiabanos.
Como era bom o ambiente da cidade em que vivo.  As rodas de “tabufo” com figurinhas, de jogadores de futebol, e de animais, na porta da Papelaria União, ou nos bancos da praça Alencastro, dividia a gurizada em “turmas”, a do Baú (temida por todas as outras), a do Porto, a do Bosque, a do Campo D´Ourique etc.
Tabufo, para quem não sabe, era colocar as figurinhas suas e as do adversário no banco e na “mão grande” pega-las e sair correndo. O autor dessa façanha tinha que estar com a canela bem “afiada”, pois caso contrário, era alcançado pela outra turma e a surra inevitável!
E a “guerra” de mamona? Dividiam-se em duas turmas, cada um com sua funda, (na minha época chamava-se funda mesmo) hoje a criançada conhece por estilingue. Um dos locais preferidos era um casarão abandonado na avenida Getúlio Vargas em frente ao hotel Amazon(antigo Santa Rosa) ou o terreno baldio, na mesma avenida onde hoje funciona a Microlins. Deus protegia tanto os protagonistas dessa “guerra”, que dificilmente um levava uma pelotada de mamona no olho.
Final de semana chegando, e todos esperavam pela missa das sete da manhã aos domingos, na Igreja da Boa Morte. No fundo no fundo, não era por causa da missa, e sim pelo futebol após a missa que disputaríamos no campinho da casa paroquial. Frei Quirino reunia a gurizada, e quem não assistisse à aula de catecismo, ficava proibido de jogar. Durante as aulas podia se ouvir o bater das asas de uma mosca, porem após o término, poucos conseguiam repetir um só assunto lá enfocado. O pensamento era um só: estrear a bola nova comprada na sapataria Trindade, com nosso próprio suor, vendendo jornais, frutas e garrafas.
Após o jogo, subindo a rua Cândido Mariano, uma parada no bar do Sinfrônio era “lei”. Com a boca avermelhada de tanto chupar picolé de groselha, corríamos para casa a fim de tomar um banho e às treze horas, quase todos estavam na porta do Cine Teatro Cuiabá, trocando gibi, comprando um chicletes e ao som de “Theme from a summer place” (Tema de um lugar de verão),
as luzes da sala de projeção iam se apagando, os “lanterninhas” colocando-se em posições estratégicas para impedir namoricos mais extravagantes, e na tela aparecendo no Canal 100 de Carlos Niemeyer as notícias e os jogos de semanas passadas, única maneira, de nós cuiabanos, vermos os gols dos campeonatos paulista e carioca. Ninguém ia embora após o filme, pois uma das coisas que a gurizada mais gostava era o seriado (tipo novela), que começaria imediatamente após. Vi um bocado deles, porem dois faziam minha preferência, a Adaga de Salomão e Zorro. Desde essa época o Sargento Garcia tentava prender o Zorro. Não conseguiu até hoje!
Isto era minha querida cidade. Ninguém chamava as Lavras do Sutil de Ilha da Banana. Ninguém era cretino!
“Filmes” deste tipo, que rolam vira e mexe em minha mente, trazem muitas saudades da infância que vivi.
Use sua mente e busque no “baú” da sua vida, momentos inesquecíveis vividos por você, seus amigos e sua família. Ative a chama de saudade do seu coração. Vale a pena!

*Eduardo Póvoas-Pós graduado pela UFRJ.
 
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