Olhar Direto

Quinta-feira, 27 de julho de 2017

Opinião

Terra de ouro, mas pouco amada

Autor: Graci Ourives de Miranda

04 Jul 2017 - 14:13

Mato Grosso, com uma população de trabalhadores e habitantes responsáveis, reconhecida habilmente pelo ex-presidente americano Theodore Roosevelt, quando esteve no interior do Brasil, final de 1913 e início de 1914, percebeu e questionou o fato de, entre a população interiorana, não existir ‘representante do governo’. Em sua maioria, os habitantes locais tinham suas existências ‘ignorada pelas autoridades governamentais. ’ A estimativa eram que as terras eram concedidas somente para alguns detentores de privilégios.

Lamentavelmente, os verdadeiros trabalhadores braçais, juntamente com seus familiares, estes que lavravam à terra de sol a sol para uma pequena lavoura de subsistência exemplo: (banana, cana, mandioca, abacaxi e outras frutas). Os produtos eram livres de agrotóxico. Estas pessoas tinham cotidianamente uma vida pautada pelo respeito ao ecossistema, então sobreviviam daquilo que a natureza lhes oferecia.

Contudo, cruelmente corriam riscos de ser expulsas ‘magnatas’ inescrupulosas “que vieram mais, tarde, mas trazendo documentos legalmente perfeitos”, (Coutinho, 1969). O objetivo de manter-se na terra, e serem detentores de uma propriedade estava aquém da realidade com que os trabalhadores sonhavam. Há que se notar que historicamente os moradores do interior habitavam o sertão, representavam somente  uma muralha de defesa, para o ‘instruído’, como ponto de referência representando ‘terras bem guardadas’.

Assim para que outros de grandes centros não viessem a ocupar aquele espaço.

Basta visitar o interior do Estado, ou ater-se aos meios de comunicação para reconhecer quem são os grandes proprietários e latifundiários. Normalmente os grandes proprietários e latifundiários são políticos.  Isto representa que a justiça está articulando o fim do ‘cipoal’ dos poderosos que tinham a intenção de continuar praticando o ‘coronelismo’.  Parece-nos que famílias perdem suas propriedades, por não conhecer seus direitos em tempo hábil. O nível de analfabetismo no interior do Estado sempre foi assustador. Isto já garantia ao mandatário local vantagens para legalização das terras devolutas, os sem leitura, sem instrução, seria impossível conhecer os artigos da nossa Constituição.  Assim, somente restava aos humildes trabalhador obedecer e obedecer, deixando espaço para o mandatário. ‘ quem podia, mandava; quem tinha juízo, obedecia’! Enquanto os latifundiários sempre tiveram o poder, isto porque dominavam a máquina  municipal, facilitando a legalização da documentação,  ainda  controlavam as terras e tentava controlar os menos favorecidos.

Fica evidente que o Estado    possui riquezas naturais, e é exportador de produtos diversos.  Nos escritos do padre Manuel da Nobrega, no período de 1588, foi relatado que o “Rio Paraguai era na verdade o rio dos índios.” Há rios piscosos em abundância, excelentes terras produtivas tanto para plantio de grãos como para diversificadas culturas. Porém, as terras produtivas estão em poder de uma diminuta ‘elite’ ou seja, mandatários políticos.

Historicamente, devemos nos questionar: quem foi: o “rei da soja” e, quem foi o “rei do gado”?

O Bispo Biennès (1987) descreve com detalhes que “o povo lavrador era tremendamente sofrido, brutalizado e despejado.” Daí, notava-se que os comerciantes não respeitavam as vendas originais, então isto já representava conflitos e, consequentemente perdas de vidas.  Por densas florestas ceifaram vidas, como exemplo: a freira Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2015, estava com 73 anos, foi defensora das grandes espécies arbóreas, e tinha ações voltadas para os direitos socioambientais. E, o seringueiro e líder Francisco Alves Mendes ‘Chico Mendes’, também foi morto em 22 de dezembro de 1988, no Xapuri-Acre, pela “lei do berro e do ferro”.

Entendemos que esse domínio que se inicia com o latifúndio carrega nas costas a morte de grandes líderes. Imaginamos quantos anônimos estão desaparecidos?

Recorri ao etnólogo Claude Lévi-Strauss (2007) “fiel apenas à própria narrativa, senhor de suas histórias e paisagens, aquém de todo pensamento e além de toda sociedade.” E ainda “O mundo começou sem o homem e se concluirá sem ele.”

Notamos que alguns políticos que foram eleitos não reconhecem e nem procuram manter o ecossistema, pois as maravilhas que a natureza oferece deviam e devem ser respeitadas. Porém detectamos que os dados sempre apontam os níveis elevados de desmatamentos, citamos como exemplo a cidade de Colniza, terra com florestas densas, onde ocorre elevado índice de desmatamento, e em abril de 2017, nove pessoas que trabalhavam no campo na Gleba Taquaruçu do Norte, na zona rural do Município de Colniza (1.055 km da capital) foram brutalmente assassinadas, no interior ocorreram conflitos seguidos de morte por domínio de riquezas naturais.

E alguns homens públicos nem sequer honram os votos receberam. Nem tampouco manifestem com veemência sobre implantação de projetos de políticas públicas

A questão do abandono da população ocorreu tanto nos municípios quanto na capital.  As casas de apoio que proliferam na cidade e os carros que vêm dos munícipios para capital principalmente para o Hospital Júlio Muller, todos os dias são um atestado de incompetência, do gerenciamento do dinheiro público.  Notar-se-á que existe a questão da degradante administração de alguns gestores, esse fato está comprovado quando nos deparamos com diversas obras paralisadas.

Estas parecem evidenciar a prática de corrupção em várias instâncias do poder. Isto comprova que alguns políticos, além de não honrarem as chancelas, também não honram as indumentárias. Estabeleceram somente no discurso. Antes de ocuparem o cargo circulavam, entre a população. Nós os mantemos com os impostos que pagamos, enquanto na saúde, segurança e educação e no meio ambiente se instala a bancarrota.

Ainda enfrentamos os problemas referentes às drogas, onde nos defrontamos com um cenário devastador, de vidas humanas, a dependência química, haja vista nos pontos de ônibus e nas diversas praças, e no ‘Morro da Luz’ onde ocorrem diversos assaltos. Quanto ao Centro Histórico da Capital o cenário é mais desolador: muitos jovens atrelados à dependência do crack. Foi observado que as mulheres estão sendo aliciadas para o uso do ilícito. O Estado em muitos momentos demonstra apatia e insensibilidade sobre o problema. É evidente que a Constituição não esta sendo respeitada, porque todos têm direito à saúde de qualidade. Estão somente limpando o Morro da Luz e cadê os hospitais para os dos dependentes químicos?

Eficiência, sensatez, equilíbrio e produção profissional tem nos apresentado a Polícia Federal dedica-se exaustivamente e apresenta-nos resultados: as ‘operações’ avançam notadamente, como visibilidade zela pelo cidadão. A responsabilidade de todas as instituições em relação ao progresso deverá ser coletiva.

Toda sociedade tem parcela de responsabilidade com o descaso que está ocorrendo ao nosso redor. É uma questão de reflexão e participação bem como união tanto de Igreja, Estado e sociedade. Alguns políticos se fartaram de benesses e se acomodaram. Para provocação: por que nós quem somos eleitores e que os instalamos nas instituições e muito confortavelmente, não nos unimos a fim de cobrar nossos direitos?

Os eleitos são legisladores e mantém todos os direitos bem como de passagem, diárias, café e mais ainda polpudos salários, não exigimos nada? Portanto, de certa forma deve e deveriam apresentar projetos de melhoria de bem-estar da população.

O cidadão que depende do Estado e município demonstra estar decepcionado. Mas de fato, se existiu um fracasso interno em algumas instituições, temos que rever nossas posturas e sair da acomodação e cobrar aquilo que lhe é de direito, já que eles não os reconhecem. Existe dúvida de que a partir do momento em que a sociedade começar a manifestar-se e unir-se as ‘autoridades’ irão melhor o bem-estar da população?

O Brasil perde muito tempo julgando ‘gestores’ que por nossa culpa estão no poder dilapidando o patrimônio público.  Todas as obras deveriam ser retomadas pelos políticos que iniciaram e por falta de fiscalização da população, lá estão algumas carcaças. É Necessário por parte da sociedade que ela seja mais crítica e fiscalizadora para exercer um trabalho de base sobre o respeito ao cidadão. Não corromper e nem se deixar corromper. Eles se fartam de benefícios, e nós que perdemos por não ter sabido escolher representante digno de confiança. Temos inclusive que pagar segurança privada em nossos bairros.  Mais um exemplo de descaso como cidadão.

Sentimos força e esperanças nos Três Poderes. Aguardamos a celeridade no processo de recuperação da população menos favorecida. Assim teremos uma sociedade mais igualitária e com mais justiça.

Graci Ourives de Miranda é Professora e Escritora.
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