Olhar Direto

Domingo, 19 de novembro de 2017

Opinião

Conceitos para entender o mundo político

Autor: Julio Cezar Rodrigues

31 Out 2017 - 15:35

Em uma busca elementar pela internet ou livros básicos de filosofia encontraremos que um “conceito” pode ser entendido como uma representação mental e linguística de um objeto concreto ou abstrato. Significa para a mente o próprio objeto no processo de identificação, classificação e descrição do mesmo. Para Aristóteles (384 a.C/322 a.C), o conceito era comparado ao “eidos” e de acordo com a lógica aristotélica, um conceito é a forma mais básica de pensamento (em conjunto com o juízo e o raciocínio), sendo a representação intelectual abstrata de um objeto.[1]
 
Trocando em miúdos, o conceito vai determinar o que o objeto em questão é ou significa. Assim, se vamos falar sobre “gatos”, mas possuímos conceitos diferentes sobre este objeto de análise, certamente o diálogo restará prejudicado. Extrapole então para objetos abstratos e mais complexos, tais como “política”, “democracia”, “estado”, “socialismo”, “nazismo”, “fascismo”, “conservadorismo”, “liberalismo”, “neo-liberalismo”, “libertarianismo”, “anarquismo”, “capitalismo”, “revolução”, “marxismo”, “iluminismo”, “gramscismo”, “ética”, “moral”, “direita”, “esquerda”, “ideologia”...
 
Em geral, a mídia ou articulistas, ao utilizarem termos como os acimas exemplificados, não os contextualizam ou os conceituam de maneira apropriada. Nesse sentido, é comum encontrarmos estas palavras sendo utilizadas erroneamente ou equivocadamente, muitas vezes com má-fé. Se o leitor prestar atenção aos textos publicados pela grande mídia, observará frases como essa: “o atual governo, de direita ultraconservadora...”; “o PSDB é um partido de direita...”; “ o PT defende a democracia...”; “o candidato, Bolsonaro, ultraconservador...”; “o impedimento de Dilma foi ‘golpe’ contra a democracia...”; “fulano é fascista, ciclano é nazista, beltrano conservador...” e por aí vai...
 
Filosofia, ciência política, sociologia e história são algumas áreas do conhecimento que trabalham com estes temas. Conhecer os conceitos básicos é fundamental para identificar se o mensageiro está sendo honesto ou desonesto intelectualmente. O conceito também não é uma verdade pronta e acabada, todavia, é o mínimo que você precisa saber no processo cognitivo de formação do seu conhecimento acerca do tema de que se fala ou daquilo que você fala. Os exemplos que citei no parágrafo anterior, embora simplistas, desafiam conceitos já pacificados pelos principais pensadores da ciência política e filosofia. Dito de outra forma, não reflete a verdade entre o caso concreto e a teoria.
 
A situação tende a piorar conforme proliferam as novas mídias de comunicação. O aprofundamento dos temas tem ficado em segundo plano, a partir do momento em que, principalmente os mais jovens, consomem informações superficiais produzidas em vídeos curtos ou textos simplificados. É possível explicar a diferença entre marxismo e liberalismo em duas páginas? Sim, possível até é, contudo, será impossível levar ao leitor todo o conjunto de significados que estas duas palavras possuem no contexto histórico em que surgiram. Em artigo recente, discorri sobre “esquerda” e “direita” em três páginas. Obviamente que não foi possível explanar todo o complexo que envolve um espectro ideológico desta natureza, considerando que existem inúmeras “esquerdas” e outras tantas “direitas” incompatíveis entre si. Mesmo assim, quem ignorava tais conceitos, pode apreender pelo menos a ideia central que gravita em torno desses universais abstratos.
 
Os exemplos poderiam estender-se ao infinito, contudo fiquemos com um que é normal. O Deputado pelo PSOL, Jean Wyllys e demais representantes da extrema-esquerda, costumam referir-se aos seus desafetos políticos, notadamente o “arqui-inimigo de todos eles, Deputado Jair Bolsonaro, como fascistas ou conservadores. Uma análise crítica conceitual honesta mostraria que o fascismo (Itália) e o nazismo (Alemanha), como formas de organizações políticas estariam mais alinhadas ao modelo socialista/comunista, inclusive sendo este o proposto pelo partido do Deputado (construção de uma sociedade socialista)[2] muito mais que seu inverso.

Fascismo e nazismo foram modelos de ESTADO TOTALITÁRIO, tal como as experiências de SOCIALISMO/COMUNISMO levadas à cabo na Rússia. Embora naqueles a propriedade privada tenha sido mantida, em boa medida era apenas ilusória, haja vista que o ditador de plantão, de forma unilateral promovia desapropriações e estatizações. Além disso, como muito bem identificou Mises[3], era o governo quem decidia o que deveria ser produzido, em qual quantidade, por quais métodos, e a quem tais produtos seriam distribuídos, bem como quais preços seriam cobrados, quais salários seriam pagos, e quais dividendos ou outras rendas seriam permitidos ao proprietário privado nominal receber. De outro lado, conservadorismo e liberalismo são visões de mundo que defendem o estado mínimo. Vida, propriedade privada e liberdade são fundamentos inegociáveis destes modelos.

Perceba leitor que os objetos em discussão (no caso fascismo, nazismo e comunismo) não são conceituados como um processo de identificação, classificação e descrição, mas, simplesmente como forma de estigmatização de um oponente e não aquilo que é. Assim, o emissor aposta na ignorância do receptor para lançar a mensagem destituída do ser verdadeiro conteúdo.

Outro exemplo que mostra o poder da propaganda ideológica na formação de ideias erradas ou contraditórias. A esquerda nunca esquece de lembrar ao mundo a mensagem do nazi-fascismo como governos cruéis e desumanos, o que é a expressão da verdade. Contudo, as experiências comunistas foram, no mínimo, iguais em matéria de crueldade em estado puro e violação de direitos humanos. Não obstante a essa constatação fática, a sociedade rechaça qualquer manifestação de cunho nazi-fascista (acertadamente), tolerando (inexplicavelmente) símbolos, líderes e governos comunistas do passado e do presente. Veja-se, o glamour ainda existente entre os incautos sobre a figura de Che Guevara, Fidel Castro, Stalin, Lênin, Mao TseTung e Pol Pot, entre outros[4].

Interessante ainda, para finalizar, explorar um pouco mais sobre esta “sobrevivência ética” do comunismo em comparação aos outros regimes totalitários, milenaristas e genocidas que provocaram, juntos, mais de cem milhões de mortos no século XX, a conclusão do historiador francês Alain Besançon (1932), um ex-membro do partido comunista françês, citado por Flávio Gordon, para quem “o comunismo consegue ser pior que o nazismo, pois, ao contrário deste, soube como ninguém tingir o seu mal específico com as cores do bem; disfarçar a amoralidade (ou nova moralidade) revolucionária sob o vocabulário da ‘moral burguesa’ ordinaria (justiça, igualdade, liberdade etc); parasitar e perverter o senso de caridade e o amor ao próximo. É assim, aliás, que sobrevive até hoje: INDUZINDO AS BOAS ALMAR A TRANSIGIR COM O MAL, CONQUANTO ESTEJA ELE A SERVIÇO DO FIM REVOLUCIONÁRIO, o “summum bonum” (do latim, o bem maior) da sociedader perfeita – aquela em que, segundo os profetas, o homem será livre para ‘caçar de manhã, pescar na parte da tarde, cuidar o gado ao anoitecer, fazer críticas após as refeições’”.

O leitor compreende agora porque nossos “valentes guerrilheiros” petistas, quando pegos em crimes comuns do colarinho branco, levantam os punhos para cima e são tratados como verdadeiros heróis pelas ordes do partido? Quem não se recorda do gesto de José Genuíno e José Dirceu levantando o braço para o alto com  o punho cerrado quando se entregaram à Polícia Federal em novembro de 2013? Tudo tem um sentido. Se você não compreender o pensamento revolucionário de esquerda, será iludido pelo discurso da ideologia. Em época de democracia, os comunistas dirão que o comunismo está morto. Cuidado, esta visão de mundo está tão viva quanto sempre esteve! Sempre é bom lembrar um trecho do artigo 1º do Estatuto do PC do B, o qual assevera com todas as letras que o partido “tem como objetivo SUPERIOR O COMUNISMO. Afirmando A SUPERIORIDADE DO SOCIALISMO SOBRE O CAPITALISMO (...)”.

Em momento de aproximação de um novo pleito eleitoral, mais do nunca as palavras serão lançadas em total descompasso com seu verdadeiro conceito. Confundir é um ardil típico do agente político populista, demagógico e medíocre. São muitos entre nós!
Fiquemos atentos!!

 
Julio Cezar Rodrigues é economista e advogado (rodriguesadv193@gmail.com)

[1]Disponívelem https://www.significados.com.br/conceito(acessado em 27/10/2017).
[2] Estatuto do PSOL: Art. 50 - O Partido SOCIALISMO E LIBERDADE desenvolverá ações com o objetivo de organizar e construir, junto com os trabalhadores do campo e da cidade, de todos os setores explorados, excluídos e oprimidos, bem como os estudantes, os pequenos produtores rurais e urbanos, a clareza acerca da necessidade histórica da CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE SOCIALISTA, com ampla democracia para os trabalhadores, que assegure a liberdade de expressão política cultural, artística, racial, sexual e religiosa, tal como está expressado no programa partidário. Disponível em http://www.tse.jus.br (acessado em 27/10/2017).
 
[3] Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881/1973) foi economista teórico judeu de nacionalidade austríaca e, posteriormente, americana, que foi membro da Escola Austríaca de pensamento econômico. (www.mises.org.br).
 
[4] Aos interessados, recomendo a obra “O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO”,que apresenta o saldo estarrecedor de mais de sete décadas de história de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportações de populações inteiras para regiões sem a mínima condição de sobrevivência, expurgos assassinos liquidando o menor esboço de oposição, fome e miséria provocadas que dizimaram indistintamente milhões de pessoas, enfim, a aniquilação de homens, mulheres, crianças, soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção e esperança. Disponível em https://sumateologica.files.wordpress.com/2009/09/o-livro-negro-do-comunismo-crimes-terror-e-repressao.pdf (acessado em 27/10/2017).
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