Olhar Direto

Sábado, 16 de dezembro de 2017

Opinião

A crescente desvalorização da inteligência

Autor: Julio Cezar Rodrigues

27 Nov 2017 - 15:50

Qualquer indivíduo sabe que habita em seu interior forças que, não filtradas pela razão e a inteligência, levá-lo-ão à condição animalesca. Esse controle das paixões e sensibilidades primitivas caracteriza a ética culta e civilizada. Trata-se, portanto, de uma “construção” que vem sendo edificada desde o nascimento da filosofia na Grécia antiga. Aristóteles (384 a. C / 322 a. C) legou uma sabedoria ética fundada na prudência, na temperança, ou seja, na manutenção do equilíbrio entre os excessos contrários. O vício como sendo o excesso de virtude.

Para fins de argumento, apoio-me em Mário Ferreira dos Santos (1.907/1.968), um dos maiores filósofos do Brasil. Para se ter uma ideia de sua capacidade intelectual, em menos de quinze anos publicou uma Enciclopedia de Ciências Filosóficas e Sociais que abrange 45 volumes, de caráter teorético e parte histórico-críticos. Como um filosofo cristão, dificilmente será apresentado aos alunos de universidades públicas, os quais são, usando-se de uma expressão truística, iniciados apenas com autores de pensamento revolucionário.

Em uma obra curta, escrita em caráter de “manifesto”, intitulada “Invasão Vertical dos Bárbaros”[1] e publicada em 1.967, Mário Ferreira dos Santos denuncia a invasão verticalizada de ideias e comportamentos que penetram pela cultura, “solapando seus fundamentos e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultural, como aconteceu no fim do Império Romano, e como começa a acontecer agora entre nós”.

Perceba leitor que o filósofo fez esta denúncia há quarenta anos. Ou seja, quando assistimos à degradação moral nos dias atuais, tendo sua expressão mais latente na banalização da vida (mais de cinquenta mil homicídios anuais) e na “glamourização” do inculto, da desinteligência, do “malandro”, do físico em detrimento do intelectual, enfim, das sensibilidades primárias e animalescas em detrimento de valores elevados, mister se faz necessário parar e refletir sobre que tipo de sociedade estamos a construir.

Nas palavras do autor citado: “se conhecemos o que faz corromper as coisas e apomos, de modo eficiente, o que equilibre a destruição, com elementos conservativos, a corrupção final pode ser desviada para mais distante”. O pensamento revolucionário, introduzido, defendido e cultuado pela nossa esquerda política é uma das estratégias da “invasão bárbara” e o fazem lutando contra a inteligência usando a própria inteligência. A coisa toda é sedimentada aos poucos. O absurdo, quando homeopaticamente revelado, muda de estágios. De negado peremptoriamente, passa a ser “discutido” e enquadrado como “politicamente correto”. A partir desse ponto, defender uma visão contrária é rotulada como “preconceituosa”, “burguesa”, “conservadora” etc (o leitor, inteligente como é, conhece os demais adjetivos).

Assim, estamos nós perdidos nesta imensa Nação com enorme potencial em todas as áreas, ainda perdendo tempo com discussões infrutíferas sobre modelos de organização da sociedade. De um lado, grupos políticos ainda presos a ideiais revolucionários (socialismo/marxismo/comunismo/escola de frankfurt/gramscismo) que não deixam o País avançar e crescer economicamente com o único arranjo possível: o modo de produção capitalista. Este precisa de liberdade e um Estado que proteja os direitos naturais do homem (gênero).

Como não conseguem e não podem oferecer uma alternativa ao arranjo capitalista, essas vozes trabalham no chamado processo de “mudança cultural” que na realidade não passam de “pseudomorfoses”[2]. É assim que você olha para o cenário atual e sente uma indignação profunda de que algo não pode estar certo. A exposição do “queermuseu” do Banco Santander  não pode ser arte; a corrupção que assola e corrói a República; a violência que o prende dentro de casa; a música de baixa qualidade; os programas televisivos embrutecidos pelo mau gosto; os representantes da vida política destituídos de qualquer sinal de honra e patriotismo; a disseminação do mau gosto; um sistema de educação pública e privada falidos filosoficamente; os credos primitivos; movimentos socias desestabilizadores ... enfim, a desvalorização da inteligência.

Se você é um dos muitos brasileiros que sente dificuldades para compreender o momento histórico em que vivemos, saiba que não está sozinho. São muitas as forças que agem e nem sempre é possível separarmos as partes para realizar juízos analíticos. Atenção, não somos um “barco à deriva” como muitos pensam. Existem “inteligências” que sabem muito bem o que pretendem. Na análise de Mário Ferreira dos Santos, há intelectuais comprometidos com essa manobra, que buscam aumentar ainda mais a confusão. Prestem atenção no que dizem os formadores de opinião das mais diferentes matizes políticas. Analise! Tente achar a conformação entre o discurso (retórica) e os fenômenos reais de que falam. Verifique se há coerência, lógica, se não agride a inteligência.

Finalizo esta reflexão com as palavras do filósofo de que trata este texto e que servem de material filosófico para pensarmos sobre o mundo que habitamos: “tudo isso faz parte de um plano secreto, cujo intuito fundamental é criar um estado de confusão, de trevas, para nelas abismarem os inadvertidos, de modo que a juventude confusa, por entre ideias confusas, se transforme em massa de manobra dos interessados em subverter nossa cultura e instaurar a época do novo escravagismo, do homem-número, do homem-máquina, do homem-instrumento, do homem-troço, do homem-automatizado, do homem-cibernético, do homem que renuncia a sua inteligência e a sua criação para tornar-se uma coisa entre coisas, uma peça de um jogo trágico ao sabor dos interesses dos novos cesariocratas que pretendem dominar o mundo”.

Que saibamos utilizar esse diferencial que a natureza nos dotou, a inteligência, para buscar a sabedoria necessária à afirmação da verdade!

 
Julio Cezar Rodrigues é economista e advogado (rodriguesadv193@gmail.com)
 
 
[1] SANTOS, Mário Ferreira dos. Invasão Vertical do Bárbaros. Editora É Realizações.2012.
[2] Palavra utilizada por Mário Ferreira dos Santos para expressar as formações aparentemente cultas e civilizadas, mas cujo conteúdo, na verdad, é bárbaro, e bárbara também a sua causa eficiente.
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