Olhar Direto

Terça-feira, 23 de outubro de 2018

Opinião

Willy Wonka e a Fantástica Fábrica de Eleições

Autor: Eustáquio Rodrigues Filho

02 Ago 2018 - 08:00

A crise chegou até as fábricas de chocolate de Willy Wonka e ele decidiu investir em outro negócio: política no Brasil. Muito mais fácil de lidar, infinitamente mais lucrativa e totalmente isenta de impostos e com enormes garantias contra o rigor da lei.

Seu primeiro ato foi criar um partido. Forjou diversas assinaturas, comprou outras tantas e conseguiu o número mínimo para criar o PTSDBMNRSTU. O significado da sigla pouco importa porque nenhum partido faz jus ao que o seu nome demonstra: temos partidos com democrático no nome que pouco se importa com o povo, partidos republicanos que envergonhariam qualquer república e partidos trabalhistas e de trabalhadores que vivem no luxo.

O segundo ato foi fazer propostas indecentes a diversos políticos eleitos, prometendo dinheiro, cargos, viagens, licitações e estatais para que os infiéis trocassem de partido, a fim de que seu partido, o PTSDBMNRSTU, tivesse sua gorda cota no fundo partidário (uma vergonha genuinamente brasileira) e bons minutos no horário político eleitoral.

Em seguida, o genial Willy Wonka mandou preparar seus Oompas Loompas para se espalharem pelo país para concorrer aos mais diversos cargos. Mandou renovar o guarda-roupa deles, fez neles cirurgias plásticas com algumas cabeleireiras e manicures experts em bioplastias para torna-los menos feios e os ensinou a falar algumas frases básicas, tais como "Vote em mim", "Rumo à vitória", "Cumpanheiro", "Sou inocente" e "A justiça vai esclarecer tudo". Nada muito complicado, pois como esses candidatos eram fracos de cabeça, não era muito prudente ensinar-lhes a falar coisas muito complexas. E a eleição aqui não demanda muitas ideias.

Com os candidatos espalhados pelo país, Willy Wonka contratou agências de propaganda para ensiná-los, aliás, ensiná-los não, a aperfeiçoá-los na arte de mentir, de enganar, de ludibriar e inventar as promessas mais estapafúrdias do planeta. Mandou-os assistir a todos os quadros de "O Brasil que eu quero" para que pudessem basear suas falsas promessas naquilo que o povo reclamava.

E assim tínhamos Oompas Loompas candidatos a governador, a deputado federal, a deputado estadual, senador e até a presidente da República, pois Willy queria fechar o pacote completo no seu investimento, cujo retorno era garantido. Na campanha eleitoral havia candidato a governador dizendo que ia aumentar o salário mínimo, candidato a deputado estadual dizendo que ia construir escolas e mudar o sistema de ensino, candidato a deputado federal afirmando que ia criar guardas municipais em todos os municípios do país, candidato ao senado dizendo que ia concretizar acordos bilaterais com os países vizinhos e candidato a presidente dizendo que ia trazer neve para o nordeste. As promessas feitas pouco importavam, porque normalmente os candidatos nunca cumpriam o que prometiam e o povo nunca entendia exatamente o que era prometido ou qual a área de competência de cada candidato.

Chegando próximo às eleições Willy Wonka deu sua investida final. Vendeu suas últimas fábricas de chocolate, pegou todo o dinheiro e mandou seus cabos eleitorais comprarem o maior número de votos possível. Não saiu barato, mas valeu cada centavo investido.

Após as eleições, Willy começou a contabilizar seus novos funcionários e a elencar quais cargos seus valorosos Oompas Loompas ocupariam: havia conseguido eleger o presidente, 4 governadores, 12 senadores, 62 deputados federais e 220 deputados estaduais.

Grosso modo conseguiria recuperar todo seu investimento em 1 ano e os 3 anos seguintes seriam de puro lucro.  Com certeza quadruplicaria o dinheiro investido ou até o fim daquela legislatura ou até o país ir para o buraco. O que acontecesse primeiro.

Em todo caso, já estava flertando com dois países que pareciam tão promissores quanto o Brasil na equação "eleições x corrupção x lucro exorbitante": Venezuela e Cuba. Mas isso já é uma outra história.
 

Eustáquio Rodrigues Filho é Servidor Público e Escritor. Autor do livro "Um instante para sempre".
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