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Terça-feira, 23 de outubro de 2018

Opinião

Aberta a campanha eleitoral,O PT já religou a maquina de falsificar a História

Autor: ​Julio Cezar Rodrigues

10 Ago 2018 - 08:00

Recontar a história sob a ótica marxista é estratégia antiga dos partidos de matriz revolucionária. Fazer essa afirmação já é lugar comum. O PT assumiu o poder com um discurso moderado de proteção à propriedade privada e respeito às leis e à constituição (carta ao povo brasileiro de 2002). Com o controle do orçamento da União na mão (cifras que ultrapassam a casa dos trilhões de reais) reinventou a máquina pública para atender aos interesses do partido, seus asseclas e perpetuar-se no poder por pelo menos vinte anos. O velho esquema com empreiteiras, licitações e estatais foi azeitado e institucionalizado com um nível de “profissionalismo” jamais visto na história da corrupção nacional. A coisa atingiu tal grau de complexidade que exigiu de uma determinada empreiteira a implantação na estrutura administrariva da sociedade empresária de um chamado “setor de operações estruturadas”, órgão interno mascarado para dissimimular o pagamento de milhões de reais em propinas que voltavam aos políticos do PT e aliados.

Infelizmente, a descoberta do esquema do mensalão no primeira mandato do presidiário de Curitiba não foi suficiente (incompetência absoluta da oposição) em abortar, no início, o que viria a ser o maior edifício de corrupção já erguido pelos arquitetos do crime do colarinho branco nesta Nação. Muito pelo contrário, a passagem incólume pelo mensalão (alguns companheiros tiveram que ir para a cadeia, mas nada que comprometesse o objetivo final do grupo) criou a “casca” que os deixaram mais seguros em continuar a aperfeiçoar o projeto elaborado lá na década de 60 e que tramitou em duas frentes: a luta armada e o gramscismo nas universidades, mídia e setores da igreja católica para a construção da hegemonia.

Esta última estratégia foi a vencedora e colhemos seus efeitos até hoje. Em última análise, é ela que explica a inação e apatia de grande parte do povo brasileiro diante de um cenário tão real e cristalino de todos os eventos acima narrados, ao ponto de pelo menos trinta por cento do eleitorado ainda querer depositar crédito ao grande mentor e líder dessa organização que assaltou o país deixando-o à beira da falência econômica e moral.

Quando criou a sua teoria para explicar o movimento da história como uma “luta de classes”, Marx acendeu o pavio daquilo que seria, na prática, a mais horrenda forma de organização dos grupos humanos: o comunismo. Ao substituírem qualquer ordem metafísica pela ideologia ficaram absolutamente livres moralmente para executarem qualquer coisa sob o céu. Ninguém no mundo matou mais comunistas do que Lênin, Stálin e Mao Tsé-Tung. Eles superaram, nisso, todas as ditaduras de direita somadas. Esse fato explica, em parte, o sucesso da estratégia gramscista para assumir o poder sem a ditadura do proletariado e usando a própria democracia para tanto. É por isso que se ouve comunistas como Manuela D’ávila, por exemplo, gritar tanto por democracia e liberdade (enquanto o estatuto do seu partido prescreve com todas as letras que o partido “tem como objetivo superior o comunismo”). A verdade não pode ser explicitada.

Para Marx, o proletariado deveria assumir o controle dos meios de produção coletivisando a economia. Ora, o proletariado teve suas condições de vida melhoradas pelo próprio capitalismo e não perdeu as noções de religião, família e patriotismo, valores conservadores que a esquerda procurou destruir de todas as formas. Daí a dificuldade de universalização do comunismo e a necessidade de esmagar o povo nos regimes que o implantaram.

Ciente desse cenário devastador, uma “nova esquerda” surge a partir da década de 60 e procura um novo proletariado. Quem? Aqueles a quem Marx denominava de lumpemproletariado, os quais eram, nas palavras do próprio, extraída da sua obra “O Capital”: “Finalmente, o mais profundo sedimento da superpopulação relativa habita a esfera do pauperismo. Abstraindo vagabundos, delinqüentes, prostitutas, em suma, o lumpemproletariado propriamente dito (...)”. A nova esquerda, cujo expoente pode ser considerado Herbert Marcuse, fez uma releitura do marxismo tradicional e verificou ser ele inaplicável às modernas sociedades capitalistas. O tradicional proletariado marxista não estava disposto a encampar nenhuma revolução socialista. Nesse sentido, os agentes de transformação deveriam ser os “outsiders”, os que estavam “fora das benesses” (para ele os trabalhadores eram alienados pela burguesia e haviam perdido a capacidade de indignação com o sistema), como as minorias étnicas ou os que simplesmente rejeitavam, como estudantes e os apolíticos intelectuais “beatniks” (simpatizantes de um estilo de vida antimaterialista). Marcuse acreditava que seriam através dessas pessoas, mesmo que inconscientemente, partiria a contestação ao sistema capitalista e a “ordem autoritária”.

Se o leitor captar alguma semelhança em como nossa esquerda utiliza as chamadas minorias (homossexuais, indígenas, quilombolas, sem terra, sem teto, miseráveis etc) como massas de manobras para o discurso de descontrução da ordem vigente, não é mera coincidência. Não se enganem: todos os movimentos políticos são primeiramente gestados por uma intelectualidade, que os forma e dá a consistência argumentativa e que se transforma em uma narrativa que vai ser levada, via inúmeros canais, à sociedade.

Quando você tem o conhecimento mínimo de como ser formaram essas ideias, é possível detectar como as movimentações realizadas no mundo dos fenômenos fazem parte do contexto e estão alicerçadas em uma doutrina elaborada ao longo do tempo, que se transforma e se adapta às novas realidades.

Veja-se, a título de exemplo, o novo vídeo do PT que está divulgado nas redes sociais (só o primeiro deles). Trata-se de uma paródia mal feita e grosseiramente copiada da séria “o mecanismo” exibido pela netflix. O PT passa a chamar de “o sistema” o “mecanismo” que eles mesmos construíram, perderam o controle, foram traídos pelos próprios aliados (aliás como é comum no movimento revolucionário), culminando com perda do poder e a entrega da nação ao ex-aliado. Não satisfeitos, sabotam a atual gestão, impedindo qualquer tentativa de reforma. Chega a ser cômico se não fosse trájico, até que ponto chega a desfaçatez, a desonestidade intelectual e o desprezo pelo estado de direito que esses agentes políticos patrocinam.

Falsificam a história, constroem narrativas inverossímeis, pregam aquilo que não praticam, desprezam a coisa pública e manobram com incautos e miseráveis para sustentarem seus ídolos de barro. O “PT colocou os pobres no orçamento” vaticinam. Usarão essa frase como um mantra nessa campanha política com uma candidatura “fake” do presidiário. Os pobres e miseráveis do lulismo continuam pobres e miseráveis agora. Por quê? Simplemente porque governo nenhum cria riqueza. No máximo, redistribui, o que, por definição é destruição de riqueza. Mas o governo Lula/Dilma fez pior. Financiou o bolsa-família via endividamento. Na época da bonança das commodities e auge de popularidade não fez as reformas necessárias para um crescimento sustentável, apenas explorou com populismo uma “bolha” de crescimento econômico que estourou no Governo Dilma e ... o dinheiro acabou. Simples assim.

E ainda é pior. Levantamento realizado pelo atual governo nos programas sociais está descobrindo bilhões de reais em benefícios sendo pagos irregularmente pela União. Ora, mas qual o problema? Para que lisura no trato de recursos oriundos dos alienados capitalistas opressores?

No vídeo fake, o narrador inicia dizendo que “quando o sistema se junta para tomar o poder, sobra para nós aqui embaixo... quem vai contra eles não perdoam, perseguem, acusam, prendem...” Usar universais abstratos (sistema, eles, elites etc) faz parte da novilíngua petista de construção da narrativa que os isenta da parcela de responsabilidade pelo estado de coisas. Somente pessoas que desconhecem totalmente como funciona o pensamento revolucionário espanta-se com tamanho atentado à lógica e ao bom senso. O discurso do PT não é dirigido aos que raciocinam. É proselitismo para incautos causando uma cegueira coletiva. Quem não se lembra do vídeo do PT na campanha de 2014 onde uma suposta independência do Banco Central faria sumir a comida da mesa dos mais pobres?

Felizmento, uma luz no fim do túnel parece lançar seus tímidos feixes de fótons nas retinas de algumas mentes que podem erguer a voz contra essa hegemonia de pensamento mascarada sob o discurso do “politicamente correto”. Parte da sociedade e alguns intelectuais tem procurado divulgar o pensamento conservador com a coragem moral necessária para contrapor um discurso de esquerda. É pouco, mas é um começo.

O Professor Olavo de Carvalho foi uma voz quase isolada no início dos anos noventa denunciando a estratégia gramscista implantada no Brasil desde a década de 60. O Professor documentou em diversas obras como o Brasil seria levado ao estado atual quando a esquerda petista assumisse o poder, uma vez o Brasil estava sufocado por correntes partidárias à esquerda do espectro político (o próprio se vangloriu de que na última eleição presidencial só haviam candidatos de esquerda).

Por incrível que pareça, é a esquerda que dizia o que era o pensamento conservador e que a política do PSDB era o neo-liberalismo. Assim, palavras como conservadorismo e liberalismo econômico foram associadas a fascismo, nazismo, autoritarismo e toda classe de “ismos” para desacreditar qualquer interlocutor que ousasse analisar a realidade sob outra ótica que não fosse a do partido.

Termino com o trecho da obra “Os Demônios” de Dostoiévski (extraído do artigo de Olavo de Carvalho publicado no O Globo de 22/12/2001). Nessa passagem, um revolucionário diz a outro: “Você sabia que já somos tremendamente poderosos? Preste atenção. Já fiz a soma de todos eles. Um professor que, com as crianças, ri do Deus delas, é alguém que está do nosso lado. O advogado que defende o assassino educado porque ele é mais culto que suas vítimas... é um de nós. O promotor que, num julgamento, treme de medo de não parecer progressista o bastante, é nosso, nosso... Você sabe quantos deles vamos conquistar aos pouquinhos, por meio de pequenas ideias prontas?”.

Assim, Deus nos ajude!
 

Julio Cezar Rodrigues é economista e advogado (rodriguesadv193@gmail.com)
 
 
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