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Brasil perde a taça, mas ganha a Copa fora de campo com recorde de turistas; veja balanço

R7

15 Jul 2014 - 09:35

A Copa do Mundo deixa legados no Brasil, que vai colher frutos no turismo e na economia regional no entorno dos novos estádios, além de usufruir da infraestrutura, como obras de mobilidade. Apesar do vexame da seleção brasileira em campo, o País bateu recorde de turistas — recebemos a visita de mais de 1 milhão de estrangeiros de 202 países e 3 milhões de brasileiros viajaram dentro do Brasil — e os estádios das 12 cidades-sede atraíram quase 3,5 milhões de torcedores. A imprensa estrangeira aplaudiu a organização e a chamada “síndrome de vira-lata” — senso comum que desvaloriza o que é nacional e favorece o que é estrangeiro — caiu por terra.

Entretanto, turistas daqui e de fora reclamaram do alto custo — de ingressos a estadia e passagens aéreas. Foram vistos protestos e atos de vandalismo, mas em menor escala do que o esperado, com brasileiros nas cidades-sede se contagiando com a bola em campo e a festa dos turistas nas ruas. Por outro lado, nem todas as obras prometidas para o evento foram concluídas e devem ser cobradas, segundo aponta o especialista em mobilidade urbana Luiz Vicente de Mello Filho, da Universidade Mackenzie. Do lado negativo da balança, também estão operários mortos em obras tocadas às pressas para o Mundial.

Erros e acertos devem ser usados nos próximos dois anos, quando os preparativos para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro ganharão força.

Professor de gestão ambiental com foco em mobilidade urbana e meio ambiente, Mello Filho avalia que o Brasil atendeu às expectativas na área de transporte, mas que agora é preciso ficar em cima do que ainda não foi entregue. Para ele, os turistas não sentiram dificuldades na locomoção, principalmente para chegar aos estádios, mas o especialista alerta.

— Não podemos deixar de cobrar a construção do monotrilho em São Paulo, ampliação dos aeroportos em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, metrô de Salvador, ampliação da mobilidade por meio dos ônibus em Manaus, Recife, Brasília e Porto Alegre.

Uma média diária de 485 mil passageiros (superior ao volume de passageiros no Natal e Carnaval de 2014) passou pelos 21 aeroportos nas 12 cidades-sede, que registraram 7,46% de atrasos de voos — índice menor que o padrão internacional (15%). Segundo o governo federal, a Copa aumentou em 52% a capacidade aeroportuária do País, o que representa 67 milhões de passageiros por ano.

Foi também preciso fazer ajustes, como decretar feriado e estender o rodízio de carros, o que aconteceu em São Paulo nos dias de jogos. O mesmo se viu no Rio de Janeiro, quando no primeiro jogo em dia útil, houve superlotação do metrô — com turistas indo ao Maracanã e cariocas voltando para a casa em razão do feriado a partir das 12h.

Preços salgados e estádios

O Brasil teve sete anos para se preparar desde que anunciou que sediaria a Copa. Foram investidos R$ 29 bilhões e os protestos nas ruas criticaram o valor, cobrando investimentos em hospitais e escolas.

Três estádios foram construídos e nove reformulados. Segundo o economista Milton Pignatari, a decisão de levantar novas arenas em áreas da periferia pode levar a uma reorganização urbana e distribuição de verba, além de dar espaço a times pequenos que podem ter acesso a um estádio com boa estrutura.

— A longo prazo, os estádios se pagam com as entradas e foi muito importante colocar os novos em regiões periféricas, como em Itaquera [zona leste de São Paulo]. O governo poderia usar o Pacaembu, por exemplo, mas fez um novo estádio. Isso representou uma modernização de toda a região, as torcidas que visitarão o local vão deixar dinheiro por ali. O transporte teve que melhorar, o comércio e o acesso mais fácil ao estádio para quem mora ali.

Quem também investiu alto para estar aqui foram os turistas. Passagens aéreas, hospedagem, alimentação, ingressos, táxi, tudo custou muito. O engenheiro Carlos Tizon, morador de São Paulo, foi a três jogos com a mulher (Brasília, Fortaleza e Belo Horizonte) e gastou cerca de R$ 7.000 em cada um. Ele disse estar satisfeito com a estrutura do evento, apesar do alto valor que desembolsou.

— A segurança me surpreendeu nos estádios, o policiamento foi efetivo.

Muitos estrangeiros vieram ao País sem ingresso e sem hospedagem certa. Foi o que fez o alemão Mateus Sleissner, que veio com a mulher e dois filhos, e gastou cerca de 2.000 euros (cerca de R$ 6.000) para cada um por dez dias no Brasil. A alternativa foi ver o jogo na Fan Fest, no vale do Anhangabaú (SP). Ele conversou com o R7 no dia em que a seleção alemã eliminou o Brasil por 7x1.

— Eu não consegui chegar perto do meu time, dos estádios, mas estamos muito felizes com o Brasil. A Copa está sendo muito boa.

Os argentinos que vieram em peso ao Brasil — eram 70 mil só na final no Rio de Janeiro — lançaram mão de uma viagem econômica para acompanhar de perto a sua seleção. A Prefeitura do Rio abriu o Terreirão do Samba e a praça da Apoteose para o estacionamento de trailers e a grande maioria dos torcedores, sem ingressos, acompanhou o jogo em telões na praia de Copacabana, zona sul do Rio.

A hospitalidade do brasileiro contribuiu para que o evento desse certo, enquanto a falta de placas bilíngues nas cidades foi criticada. A visibilidade que o Brasil ganhou no exterior é outro legado da Copa. Michel Tuma, presidente da Federação Nacional de Turismo, diz acreditar que a rede de hotéis e toda a estrutura oferecida foi um diferencial.

— Vamos esperar para ver quem volta, mas sabemos que o Brasil foi bem divulgado lá fora e que os turistas que passaram por aqui ficaram satisfeitos. Isso pode significar um aumento de pessoas visitando o País.

Levantamento feito pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e divulgado pelo Ministério do Turismo mostrou que 83% dos turistas internacionais consideraram que a visita ao Brasil atendeu plenamente ou superou as expectativas. Além disso, 95% desses turistas têm a intenção de voltar ao País, segundo os 6.637 turistas ouvidos.

Obras, mortes e protestos

Em junho de 2012, foi registrada a primeira morte em obras da Copa do Mundo. José Afonso de Oliveira Rodrigues, de 21 anos, despencou de uma altura de 30 m no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Ao todo, 11 mortes foram registradas, sendo as últimas duas na queda do viaduto em Belo Horizonte no dia 3 deste mês. Para Mello Filho, a pressa contribuiu para os acidentes.

— Não tenho receio em dizer que as mortes ocorreram pela pressa nas obras. O Brasil anunciou em 2007 que sediaria a Copa e as obras começaram efetivamente em 2012.

As mortes foram denunciadas em protestos. Em 12 de junho, dia de abertura da Copa em São Paulo, uma manifestação terminou em confronto com a polícia. Duas jornalistas ficaram feridas e, ao longo do dia, diversas estações do metrô ficaram fechadas. O grupo ‘Se não tiver direitos, não vai ter Copa’ chegou a realizar outros atos pela cidade, mas o movimento enfraqueceu ao longo da competição.

Em outra fatalidade, o jornalista e cronista esportivo argentino, Jorge Luis López, que veio ao Brasil cobrir a Copa do Mundo, morreu em um acidente de carro em Guarulhos (SP), quando o táxi em que estava foi atingido por um carro em fuga.

O Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro informou que, no domingo (13), no encerramento do Mundial, três jornalistas se feriram durante protesto na praça Saens Peña.

Ao mesmo tempo em que desmantelou uma quadrilha de cambistas — 11 pessoas tiveram prisão preventiva decretada, incluindo um executivo ligado à Fifa —, a Polícia do Rio recebeu críticas da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e da Anistia Internacional após prender ao menos 17 ativistas na véspera da Copa (prisão temporária de cinco dias). O chefe de Polícia Civil, Fernando Veloso, afirmou que eles pretendiam praticar atos violentos.

Cerca de 200 manifestações ocorreram no País, com a participação de 50 mil pessoas. Em 18 delas, houve atos de vandalismo e violência, segundo a Sesge (Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos).
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