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Sábado, 21 de outubro de 2017

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Governo pretende “higienizar” Ilha da Banana sem gerar uma nova "Cracolândia"

Da Redação - Arthur Santos da Silva

11 Jun 2017 - 12:08

Foto: Rogério Florentino Pereira/Olhar Direto

Governo pretende “higienizar” Ilha da Banana sem gerar uma nova
O governo de Mato Grosso, representado pelo secretário de Cidades Wilson Santos (PSDB), deixou claro a política empregada no ato de demolição da Ilha da Banana, no Largo do Rosário, centro de Cuiabá. As diretrizes são inequívocas: “higienizar” e “reestruturar”. O problema surge no fato de que pessoas habitam a área. A solução, imposta pelo mesmo governo, parece simples: evitar uma nova Cracolândia.
 
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A Ilha da Banana compreende um conjunto de 15 imóveis e está localizada ao lado do Morro da Luz. Sua desocupação foi dita como necessária para a construção do Veículo Leve Sobre Trilhos, modelo de transporte escolhido para a Copa do Mundo de 2014.  Aproximadamente R$ 1,066 bilhão foi pago e o modal ainda não funciona.
 
Mesmo com o atraso de três anos para a conclusão do VLT, a Secretária de Cidades iniciou neste domingo (11) a demolição da Ilha. Homens e Mulheres em situação de rua que habitam o local foram obrigados a obedecer um processo de  “dispersão”.

 

“Estes imóveis foram ocupados por populações de rua, pessoas vulneráveis socialmente, problemas psíquicos, dependentes químicos, depressivos. Há uma comunidade em Cuiabá de quinhentas a seiscentas pessoas que compõe a chamada população de rua. Parte dessa população está abrigada aqui”, explicou Wilson Santos, que acompanhou o início dos trabalhos.
 
Este processo de dispersão foi empregado sem embates aparentes. Policiais militares acompanharam a retirada de aproximadamente 50 pessoas. A preocupação maior foi com a fluência do procedimento.
 
“Não queremos que aqui se repita o que aconteceu na Cracolândia , em São Paulo, recentemente. Queremos cumprir a missão. Queremos higienizar este território. Queremos demolir os imóveis. Retirar os entulhos de maneira adequada, fazendo a destinação final como a lei estabelece”, salientou Santos.
 


O procedimento adotado em Mato Grosso poderia gerar problemas para a imagem do Estado. Recentemente a região conhecida como Cracolândia, na cidade de São Paulo, foi alvo de uma operação policial, com agentes da Força Tática e da Tropa de Choque da Polícia Militar, para retirada de usuários. O método utilizado pelo prefeito João Dória Júnior (PSDB) foi extremamente criticado.
 
Em Cuiabá, o discurso político de Wilson Santos foi combatido por algumas das pessoas obrigadas a deixar o Largo do Rosário. Um dos que esboçaram completo descontentamento foi Magrão. “Não queremos viver na rua. Mas ninguém vem até aqui para oferecer um trabalho, um lugar melhor para viver. Agora nós vamos para o Morro da Luz, para o Centro. O que querem mesmo é nos matar”, disso com a raiva aparente de quem perde a própria moradia.
 
O peso das palavras dá razão ao Estado. Uma recomendação do Ministério Público Federal havia buscado pela suspensão da demolição dos imóveis. O argumento do órgão Ministerial dizia que a área é patrimônio cultural, merecendo proteção. A Defensoria Público de Mato Grosso também tentou, judicialmente, impedir a ação do governo. Porém, a juíza Adair Julieta da Silva autorizou ainda neste domingo (11) a destruição.
 
Especialistas discordam do método empregado. Morgana Moreira Moura, presidente do Conselho Regional de Psicologia, acompanhou o processo iniciado na manhã deste domingo. “A nossa preocupação é que nós estamos aqui desde as 07h00 e não tinha ninguém da assistência. E aí a preocupação é sobre a dispersão do pessoal. Se a gente for olhar para a política municipal, não temos leitos suficientes. Isso é feito junto com parceria de comunidades terapêuticas. Não foi feito primeiro um trabalho de sensibilização e acolhimento”.
 
Uma das pessoas que acompanharam o ato do governo foi Eliete Borges, pesquisadora na área de educação. “Esse espaço tem uma comunidade que já chegou a ter 60 pessoas. Essa comunidade tem uma organização própria. Ela se organiza por laços, até mesmo de parentesco e é uma comunidade praticamente auto-suficiente. As pessoas sofreram já várias ações de repressão e tentativa de retirada delas daqui e elas resistem. Eles resistirão, provavelmente. Meu ponto de vista, isso aqui era para ser acionado até mesmo o conselho da ONU. Porque, violação de direitos, está se tentando fazer uma higienização. Algo totalmente racista, segregador e oportunista”.
 
Mesmo com a preocupação de alguns especialistas, a demolição seguirá.  Ernesto Negrete é o coordenador do processo. ”Hoje está planejado tirar 15% da estrutura, a que não tem morador. A gente só vai poder entrar caso o pessoal saia. Se a prefeitura conseguir remover o pessoal, estimo pouco mais de 20 dias de demolição. O processo vai ser feito no método manual e depois com equipamentos”, esclareceu.
 
O recolhimento de entulhos será realizado pela empresa cuiabana Material Forte Incorporadora Ldta, vencedora do pregão eletrônico de registro de preços realizado pela Secretaria de Estado de Gestão (Seges-MT) em março.
 

A construtora saiu vitoriosa do certame que prevê a derrubada, total ou parcial, de até 199 imóveis ao longo das linhas do VLT e de obras de mobilidade urbana, idealizadas para Copa de 2014. O custo das operações é de R$ 4,02 milhões. Entre os itens previstos para demolição, estão: área coberta, muretas, muros, piso de concreto e edificações.
 
Inicialmente, quatro casas instaladas nas imediações da Igreja do Rosário/São Benedito serão preservadas porque a desapropriação dos moradores ainda está sendo discutida judicialmente.
 
Sanados os entraves, todos imóveis serão retirados. O projeto do VLT contempla a revitalização do local para ser entregue à população cuiabana. No total, as desapropriações na Ilha da Banana custaram ao Governo do Estado R$ 6,35 milhões.
 
Um projeto específico por parte do governo do Estado para dar assistência aos novos desabitados da Ilha da Banana ainda não foi implantado.

18 comentários

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  • XOMANOCUIABANO
    12 Jun 2017 às 15:54

    PARABÉNS À MAGISTRADA PELA ATITUDE!!!!! AOS ESPECIALISTAS E SIMPATIZANTES HUMANISTAS SUGIRO QUE OS SENHORES LEVEM ESSE PESSOAL PARA VOSSAS CASAS. ESSE LOCAL, DO JEITO QUE SE ENCONTRA, TRAZ QUAL BENEFÍCIO??? DUVIDO QUE ESSE POVO DO BLÁ BLÁ BLÁ PROTETIVO TENHA CORAGEM DE PASSAR POR AÍ DEPOIS DAS 19H JÁ MUITOS TRABALHADORES E ESTUDANTES NÃO TÊM ALTERNATIVAS. O RESULTADO: ..............

  • francisco
    12 Jun 2017 às 13:48

    https://www.youtube.com/watch?v=QaXP46M_IZ0

  • Xo mano que mora logo ali
    12 Jun 2017 às 13:21

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  • Juarez menezes
    12 Jun 2017 às 13:15

    Cadê os direitos humanos. Havia famílias ali e agora estarão todos nas ruas vitima deste império capitalista.

  • alexandre
    12 Jun 2017 às 13:03

    Quem visitar o local e não tiver problema no nariz, vai entender a palavra higienização, problema social é responsabilidade das familias, é falência do sistema, se a familia não dá conta, interdição judicial e internação. As pessoas tem que ser produtivas e ter sua auto estima recuperada, o Estado falhou quando deixou chegar a este nível de degradação humana..

  • ANDRE CINICO SILVA
    12 Jun 2017 às 12:57

    BONITO OS BACANAS NA PRIMEIRA FOTO. CHAMO DE BACANA PRA NAO TER QUE CHAMAR DE OUTROS NOMES.................. NOJO DE POLITICOS, AINDA MAIS COM ESSES SORRISOS NOS ROSTOS PARA SAIREM BONITOS NAS FOTOS.............. NOJO.

  • Antinio dert
    12 Jun 2017 às 00:50

    Bela palavra escolheu wilson santos: "higienizaçao". Hitler utilizava a palavra higiene tb. O professor nao sabe o quanto essa palavra eh pejorativa e preconceituosa? E ainda consegue tirar foto sorrindo? O que acontece ali eh uma tragedia do ponto de vista social. Nao há motivos pra rir. E como pode o governo nao ter um projeto para a pós retirada dessas pessoas? Esse governo nao liga pra ninguem mesmo.

  • Chacal
    11 Jun 2017 às 20:25

    A Ilha da Banana, é o retrato desprezível de governantes que não conseguem resolver simples questões.

  • Paulo Lemmos
    11 Jun 2017 às 18:55

    Dona Ana Amélia...,é no minimo uma grande eresia se comparar os Judeus,assassinados pelo holocausto que eram pessoas trabalhadoras,pais de familia.Ai vem a senhora sem conhecimento de causa, querer compara-los a esse valoroso povo,com algumas duzias de viciados em diversos tipos de drogas. existem muitas entidades dispostas a ajuda-los,mas poucos aceitam.Outra vá até lá e, faça uma pesquisa, veja se todos que ali estão,são Cuiabanos,ou Matogrossense. O ideal é manda-los para seus estado natal para junto de seus familiares.Parabéns ao governo do estado. O povo Cuiabano esta em festa e agradecem.

  • Roberto
    11 Jun 2017 às 18:33

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