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Terça-feira, 19 de março de 2019

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Sem atendimento, crianças com câncer padecem e pais se desesperam nos corredores da Santa Casa

Da Redação - Fabiana Mendes

13 Mar 2019 - 17:30

Foto: Rogério Florentino Pereira/OD

Sem atendimento, crianças com câncer padecem e pais se desesperam nos corredores da Santa Casa
O olhar cabisbaixo de Driele Gonçalves da Silva Oliveira traduz toda aflição que ela sentiu depois que se deslocou até a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá e recebeu a notícia que seu filho, Roberth Miguel, de 3 anos, que possui um tumor, não poderia ser submetido a mais uma sessão de quimioterapia. Assim como ela, outros pais se desesperam em busca de uma unidade hospitalar que atenda seus filhos, que lutam diariamente contra o câncer, doença que tira a vida de mais de 200 mil pessoas por ano.


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Na última segunda-feira (11), a direção da unidade paralisou os serviços e alegou o não cumprimento do repasse de R$ 3,6 milhões da Prefeitura de Cuiabá. Os pacientes oncológicos deveriam ser remanejados para outras unidades. Já os pacientes renais e que passam por hemodiálise estão sendo atendidos normalmente.
 
No entanto, essa gestão é feita pelo município e como não há vagas no Hospital de Câncer de Cuiabá, os pais ficam na incerteza se conseguirão atendimento para os filhos. Por meio da assessoria de imprensa, o Hospital de Câncer informou que irá receber os pacientes conforme forem encaminhados pela Central de Regulação e de acordo com a disponibilidade de vagas em cada especialidade.
 
Na manhã desta quarta-feira (13), a reportagem do Olhar Direto esteve na Santa Casa de Misericórdia e constatou uma situação de desespero. Nos corredores pintados de azul, famílias, voluntários e também funcionários, entoavam frases como, “queremos solução” e a “a clínica não pode fechar”.
 


Roberth Miguel faz tratamento na Santa Casa de Misericórdia há quase dois anos. Há um ano e meio, ele teve que passar por uma cirurgia de retirada de um tumor, que pesava um quilo e meio e estava em seus rins. Por conta disso, um dos órgãos ficou comprometido e teve que ser retirado. Depois de um ano, os médicos descobriram um nódulo no pulmão. Roberth teve que passar por 16 sessões de radioterapia. Quatro dias após o término do tratamento, um novo caroço surgiu no rosto da criança.


Novamente, Roberth passou por uma cirurgia, ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), e ainda hospitalizado, Driele Gonçalves recebeu a notícia que a doença havia voltado. O tratamento teria que ser iniciado novamente. Agora serão 31 sessões de quimioterapia e até o momento ele só foi submetido a três. A mãe ainda não sabe quando o filho dará continuidade ao tratamento.
 
“Estou com medo. Como vai ficar o tratamento das crianças? [Ele tinha] uma sessão para hoje, internar hoje e sair no sábado. Ele não vai fazer por conta do fechamento do hospital”, lamentou. “Vão fechar as portas e encaminhar [as crianças] para o Hospital de Câncer, só que lá não comporta todo mundo. As crianças que fazem quimioterapia, não podem esperar”, disse.



O serralheiro Edivaldo Alves percorreu 789 quilômetros de Alta Floresta até Cuiabá, mas não conseguiu atendimento para a filha. “A situação é essa, lutar todo dia. A gente chega para atendimento e a porta da clínica está fechada. As crianças não estão com gripe, estão com câncer. A doença a cada dia avança mais, a doença não tem como esperar. Fomos descartados, os hospitais todos lotados, como é que vai arrumar uma vaga? Como vamos voltar para a cidade sabendo que a nossa filha pode morrer a qualquer momento?”, questionou o pai, com a filha no colo.

A Santa Casa de Misericórdia possui uma grande estrutura e também profissionais que trabalhavam sem receber, seja por amor ao próximo, ou pelo amor a profissão, como, por exemplo, o médico, Wolney de Oliveira e a psicóloga Neyla Alves, ambos do setor de oncologia pediátrica.
 
A ala oncológica atende entre 40 e 50 crianças por mês. Outras 200 que estão fora de tratamento, fazem o acompanhamento no local. Voluntários se revezam com objetivo de levar alimentos e também alegria aos pacientes. Vilma Barros da 'Cia do Sorriso', explicou que procura acolher, dar amor e carinho.

Citou também o que observou nas famílias após a notícia da paralisação nos atedimentos. “Nós podemos ver as mães desesperadas pelo fato de uma transferência. Lá, elas vão recomeçar. Já é difícil para elas pelo problema em sí, que elas passam. Aqui estão aconchegadas, tem carinho dos voluntários que estão sempre aqui. Nós não estamos só dando carinho, mas também provemos algumas necessidades deles”, relatou.

A Cia do Sorriso atua em duas frentes. A primeira, realizada toda quarta-feira às 9h da manhã, e no último sábado do mês, às 14h30, é a visita à CliniCan da Santa Casa de Misericórdia, onde, fantasiados, os voluntários levam alegria e sorrisos às crianças internadas, e realizam também um café da manhã. A segunda frente é a de doação de um tipo de suplemento alimentar chamado ‘Ensure’. 
 
A voluntária acrescentou ainda que a Santa Casa de Misericórdia “É uma entidade enorme, com muitos quartos, potencial imenso, sem falar dos funcionários que ainda estão há meses sem receber. Estamos pedindo que olhem por essa instituição, que não deixem que ela feche e que possamos ver isso aberto e trabalhando a todo vapor”,
 
O pequeno voluntário de apenas 12 anos, Wylyan da Silva Duarte, também fez um apelo. “Esse hospital não pode fechar. Tem muitas crianças que estão precisando de atendimento. Todos nós estamos com vida, mas daqui a pouco essas crianças podem não estar. Não espera a criança chegar no caixão para falar ‘eu amo ela’. Aqui temos a oportunidade de valorizar, no caixão não temos mais”.


 
A Santa Casa de Misericórdia paralisou os serviços hospitalares e alegou o não cumprimento do repasse de R$ 3,6 milhões da Prefeitura de Cuiabá. A unidade é alvo de investigação da Delegacia Fazendária e do Ministério Público Estadual (MPE). A informação foi divulgada pelo próprio Executivo, que ainda revelou um pedido de cautela feito pela Controladoria Geral do Estado (CGE) em repasses antecipados ou empréstimos.

Na última quinta-feira (7), o Conselho Municipal de Saúde de Cuiabá solicitou à Procuradoria Geral do Município parecer sobre o Relatório de Auditoria da Controladoria Geral do Estado que analisa a situação da Santa Casa.
 
A Controladoria Geral do Estado notificou o Município de Cuiabá do resultado da Auditoria efetivada na Santa Casa por solicitação da Delegacia Fazendária (Defaz), conforme documentos anexos, alertando para cautela em repasses antecipados ou empréstimos, pois a mesma está sendo objeto de investigação por parte do Ministério Público Estadual e da própria especializada.
 
A direção da Santa Casa informou que teria procurado a Defaz e teria negado a informação. O prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) solicitou todas as informações necessárias, para tomar as decisões cabíveis assim que retornar a Cuiabá, já que ele está fora da Capital.

21 comentários

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  • Terezinha
    17 Mar 2019 às 08:14

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  • Ricardo Carvalho
    17 Mar 2019 às 08:09

    Isso está acontecendo pela falta de vergonha na cara, incompetência, leniencia, conivência, corrupção, má administração e desvio de verbas tanto na instituição como no poder público... e a justiça nada faz... a não ser a benefício próprio.

  • DRICA
    14 Mar 2019 às 14:39

    Espero que seja feita uma auditoria seria na Santa Casa, pois devido a falta de honestidade e respeito por parte dos nossos politicos e de alguns ex diretores da Santa Casa quem paga é a população carente e doente.

  • Gilmar M Roman
    14 Mar 2019 às 13:10

    A Santa Casa de Cuiabá foi inaugurada em 1817 e funcionou até os dias de hoje, ou seja por mais de 200 anos. Porém agora não consegue mais se manter atendendo, devido a falta de competência e responsabilidade dos governos federal, estadual, municipal e de seus diretores. Me sinto envergonhado como cidadão desse estado.

  • Chico Bento
    14 Mar 2019 às 13:03

    Essa reportagem me cortou o coração! Quanta incompetência por parte dos governos e dos diretores da entidade. Pobres crianças. Esse é o reflexo do que foram os últimos governantes do Brasil e de Mato Grosso.

  • Vitor
    14 Mar 2019 às 11:11

    Espero que as tanto o senhor prefeito Emanuel e o senhor governador Mauro Mendes tenham coração ....para solucionar a situação da Santa casa.Senhor prefeito e senhor governador ...tenham compaixão ...sejam humanos com essas pessoas...pois vocês prometeram dar o máximo pelos Matogrossense...

  • ricardo
    14 Mar 2019 às 09:27

    Agora mais do que todos, é o momento da sociedade se mobilizar e ajudar a santa casa, sendo em forma de voluntario ou até mesmo financeiramente.

  • Manoel
    14 Mar 2019 às 08:52

    É um absurdo enorme tudo isso... Assim como tantas tragédias que vem assolando o país, tendo como a mais recente ontem em SP, essa situação não ficar por baixo. Cadê o RESPEITO da administração pública pelos seus colaboradores e pela sociedade?? Onde já se viu ficar 5 meses trabalhando sem receber ? Vai viver de quê? Comer o quê? E as dívidas que se acumulam? E o sustento da família? Sem falar o descaso que acaba afetando os pacientes... Quimioterapia, Hemodiálise são coisas sérias, sabe-se que por conta de um evento simples, uma ausência na sessão, as pessoas pioram, as pessoas morrem, acabarão mortas , assim como as de ontem... E quem são os responsáveis por tudo isso?? Nada acontece, nada. Só Deus pra ter misericórdia, porque nem a Santa Casa que traz a misericórdia em seu nome está suportando. Espero que os causadores desse mal paguem cada ato, tanto nesse mundo quanto em outras dimensões, e não estou rogando praga, mas é fato que nossos atos nos trazem consequências!! Deus tenha misericórdia!!

  • Nilton Ferreira
    14 Mar 2019 às 08:42

    isso era caso urgente do Ministério Público agir, pedir remoção e tratamento urgente, interdição do local, apuração efetiva do que está ocorrendo. Do governador , deputados, vereadores exigirem medidas urgentes, etc., Vergonha.

  • Beatriz Nogueira
    14 Mar 2019 às 08:05

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