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Margem de lucro no algodão se mantém apertada diante alta de custos, declara presidente da Ampa

Da Redação - Viviane Petroli

18 Jan 2016 - 09:14

Foto: Assessoria Ampa

Margem de lucro no algodão se mantém apertada diante alta de custos, declara presidente da Ampa
O produtor de algodão em Mato Grosso poderá enfrentar mais uma safra de margem de lucro apertada. O custo de produção chega a R$ 7.889,56 no estado, em média, puxados pelas despesas com insumos diante o câmbio elevado. Não bastasse apenas isso, a apreensão com o clima é outro fator que “tira o sono” dos cotonicultores mato-grossenses, uma vez que em torno de 76% do ciclo de algodão é de segunda safra e a colheita da soja ainda está iniciando.

Um lado bom da valorização do dólar frente ao real, segundo o presidente da Associação Mato-grossense de Produtores de Algodão (Ampa), Gustavo Piccoli, foi quanto às exportações. Ele comenta, em entrevista ao Agro Olhar, que tal fato permitiu que o excedente da produção de pluma fosse exportado com preços mais atrativos.

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As perspectivas para 2016 são de um ano de incertezas tanto no cenário político quanto econômico.

Confira entrevista com o presidente da Ampa, Gustavo Piccoli:

Agro Olhar - Quais são as perspectivas para a safra 2015/2016 na produção de algodão? O crescimento de área e produção podem se concretizar?

Gustavo Piccoli - De acordo com as últimas consultas, feitas aos associados da Ampa, no final de 2015, a área de plantio na safra 2015/16 poderá sofrer ligeiro aumento (5,3%), podendo chegar a 593,6 mil ha, sendo 115,7 ha de primeira safra e 477,8 ha de segunda safra. Porém, o clima não tem sido favorável ao cultivo da soja e isso afeta o plantio de segunda safra, por isso, só na próxima semana, após novas consultas, teremos um quadro mais atualizado.

Agro Olhar - A soja foi castigada pela falta de chuvas no período de plantio. Como está sendo para o algodão, uma vez que a primeira safra da cultura começou em dezembro?

Gustavo Piccoli - Hoje, a maior parte da produção algodoeira em Mato Grosso advém do plantio na modalidade de segunda safra e nós, produtores, estamos apenas iniciando a colheita da soja. O plantio de algodão segunda safra no estado ainda está tímido. Quanto ao plantio do algodão safra, está sendo finalizado em alguns núcleos regionais e os relatos vindos do campo indicam que as plantas estão com bom desenvolvimento.

Agro Olhar - Como estão os preços do algodão hoje? Eles estão remunerando o produtor perante o custo de produção?

Gustavo Piccoli - A produção de algodão tem custos dos mais elevados em comparação com as demais commodities agrícolas. Em 2015, a elevação do câmbio acabou favorecendo os produtores na comercialização da safra 2014/15; por outro lado, ela impacta negativamente no momento da aquisição de insumos para o plantio da safra 2015/16. Nossa margem de lucro se mantém extremamente apertada. Além do fator câmbio, é preciso levar em conta que as cotações, que vêm se mantendo em US$ 0,63 libra/peso há mais de um ano, apresentaram queda de 20% nos últimos 24 meses.

Agro Olhar - As exportações em 2015 de algodão apresentaram um "leve" crescimento de 0,88% nas negociações em relação a 2014, segundo o MDIC. O que proporcionou esse crescimento?

Gustavo Piccoli - A valorização do dólar frente à moeda brasileira permitiu que o excedente da produção de pluma brasileira fosse exportado a preços mais atrativos.

Agro Olhar - Como está a demanda do mercado externo? E o interno?

Gustavo Piccoli - De acordo com a Declaração Final da 74ª Reunião Plenária do Conselho Consultivo Internacional do Algodão (Icac na sigla em inglês), realizado em dezembro, em Mumbai, na Índia, as perspectivas para a demanda por algodão em termos mundiais continua crescendo numa taxa baixa como resultado do lento crescimento da economia mundial e da forte concorrência com as fibras sintéticas, especialmente com o poliéster. Embora o Icac aponte para uma produção global abaixo do consumo na safra 2015/16 (produção de 23,15 milhões t e consumo estimado em 24,36 milhões t), os estoques mundiais continuam altos (entre 22,02 milhões t e 20,81 milhões t, considerando os estoques iniciais e finais) e os preços internacionais se mantém fracos. Diante desse cenário, o Brasil (e Mato Grosso, como maior produtor de pluma do país) mantém sua posição firme junto aos compradores internacionais e continua investindo na realização de missões internacionais para ampliar e consolidar nossa fatia de mercado. Quanto ao mercado interno, acredito que 2016 ainda será um ano de muitas incertezas no cenário político e econômico.

Agro Olhar - Mato Grosso detém cerca de 55% da produção nacional de algodão em pluma. Nossa produção de pluma nas últimas safras varia entre 900 mil toneladas e 1 milhão de toneladas. Essa produção poderia ser maior se tivéssemos industrialização no estado (fábricas de fios, tecidos, etc)?

Gustavo Piccoli - Com certeza. A cotonicultura mato-grossense tem condições de ampliar sua produção e vem investindo na qualidade da fibra do algodão para consolidar sua posição no mercado internacional. Mas, se hoje destinamos cerca de 60% da produção ao mercado externo (com destaque, para os países asiáticos), isso se dá em virtude da retração da indústria têxtil nacional. A instalação de mais fábricas de fios em Mato Grosso e também de indústrias de tecelagem certamente favoreceria o setor produtivo, que tem condições de atender a eventuais novas demandas por matéria-prima de qualidade, mas isso não depende de nós produtores.

Agro Olhar - O setor tem conversado com o governo de Mato Grosso quanto à industrialização para agregar valores?

Gustavo Piccoli - Sim. A Ampa tem mantido diálogo constante com o Governo Pedro Taques no sentido de ampliar a participação do setor algodoeiro na economia de Mato Grosso. A atual administração tem demonstrado publicamente sua disposição em atrair indústrias para o estado, o que vem ao encontro dos interesses dos produtores.

Agro Olhar - Que tipo de pesquisas o setor algodoeiro tem desenvolvido em Mato Grosso?

Gustavo Piccoli - O Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) mantém seu foco, por meio do Programa de Melhoramento, no desenvolvimento de novas variedades com resistência a doenças e nematoides, e trabalha com a introgressão de diversos traits visando conferir resistência a herbicidas e insetos-praga. A se destacar ainda o trabalho voltado para a melhoria da qualidade de nosso produto através do Programa da Qualidade da Fibra do Algodão de Mato Grosso. Em parceria com outras instituições de pesquisa, o IMAmt desenvolve um trabalho inédito no levantamento de nematoides nos solos de todos os núcleos regionais de produção algodoeira, visando identificar medidas para minimizar o problema que afeta o sistema produtivo adotado em Mato Grosso. Outro trabalho de destaque é o levantamento de plantas daninhas resistentes a herbicidas em áreas algodoeiras de Mato Grosso, responsável pela identificação do Amaranthus palmeri em áreas cultivadas com rotação de culturas de algodão, soja e milho. Além disso, pesquisadores do IMAmt estão focados nas ações de controle das principais pragas que afetam a cultura algodoeira como lagartas, percevejos, mosca-branca e, principalmente o bicudo. É feito um monitoramento da pressão de mariposas e bicudos por meio do Sistema de Alerta de Pragas Emergentes (SAP-e Mariposas e SAP-e Bicudo), com a instalação de armadilhas nas lavouras, leitura semanal e envio das informações sobre a quantidade de insetos capturados aos associados da Ampa, acompanhado de comentários dos entomologistas do IMAmt. Vale destacar a criação em 2015 de Grupos Técnicos do Algodão (GTAs) em várias regiões produtoras como uma estratégia do projeto Controle Efetivo do Bicudo.

Agro Olhar - Há pesquisas de algodão "colorido" no país. Há algum tipo de pesquisa quanto a isso em Mato Grosso? Quais as vantagens e desvantagens desta variedade?

Gustavo Piccoli - Não, o cultivo do algodão colorido só é viável em pequenas áreas (agricultura familiar), o que não corresponde à realidade da cotonicultura mato-grossense, de grande escala.

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