Olhar Direto

Sábado, 18 de janeiro de 2020

Opinião

O que já tivemos.

Autor: Eduardo Póvoas

01 Abr 2019 - 08:00

Estive durante o carnaval conversando com um velho e querido amigo, pescador, que reputo ser o maior conhecedor de todo pantanal desde Cuiabá até Corumbá, rio por rio, corixo por corixo, curva por curva.

Nascido na localidade de Biguazal, pouco acima do Porto Cercado, Antonio Rosa ou para os amigos, simplesmente Totó, faz as vinte e quatro horas do dia ser a mesma coisa de 30 ou 40 minutos, pois seu “papo” agradável, empurra o sol rapidamente para o horizonte.

Este foi para mim um dos melhores carnavais que passei, pois com o velho amigo aprendi tantas coisas que tivemos no passado que não tenho o direito de guardá-las só para mim.

Resolvi anotar tudo, para que nossos jovens saibam o quanto foi maravilhosa a navegação pelo nosso lendário rio Cuiabá e pelo majestoso rio Paraguai, e que na margem deles nascia muitos produtos que movimentavam nossa economia.

Começamos pela localidade denominada de “Porto Urbano”, localizado num local chamado Tibaia, que hoje não é mais navegável, abaixo de Barão de Melgaço. Aqui funcionava uma pequena usina. Existiam 19 usinas até Cuiabá, fabricando açúcar, pinga e álcool. As maiores, Itaicy e Conceição, só fabricavam açúcar.

A Usina Flechas já fabricava açúcar e pinga, esta com o nome de “Umburana” e “Flechas”, tipo exportação.

A usina Aricá e Maravilha, fabricavam açúcar e pinga. Esta última com uma boa pinga chamada “Formidável”.

A usina Tamandaré fabricava as excelentes pingas “Verdinha” e “Tamandaré”. A usina Mimosa em Barão de Melgaço, de propriedade da família Damasceno, fabricava a pinga “Mimosa”. A usina São Sebastião, e a usina Santa Maria fabricavam pinga. Desta última, o nome da cachaça era o mesmo da usina.

As usinas Manoel Nobre, na praia grande, São João e São Gonçalo também fabricavam excelentes pingas.

Cachoeirinha, da família do Dr. Silvio Curvo, Cachoeira de pau, São José, Santana, também fabricavam pinga de boa qualidade.

Subindo o rio vinham as ruínas da Itaicizinho e da São Miguel, perto do barranco alto, já desativadas.

Algumas destas usinas fabricavam açúcar, pinga, vinagre e o álcool 42 graus. Usavam este álcool para fazer vários tipos de licor, principalmente o de pequi. Para alguns “pé fofo”, este álcool era essencial no preparo do “desdobrado”, sendo 30 a 40 por cento de água. No bairro do Porto, alguns bolicheiros costumavam escutar de alguns clientes um pedido inusitado: “me dá um desdobrado aí”! Era ingerido como pinga. Isto mais ou menos na metade da década de 50.

Destas dezenove usinas, funcionavam a pleno vapor a Itaicy, Conceição, Flechas, Aricá, Maravilha, Tamandaré, Mimosa, São Sebastião, Santa Maria, Manoel Nobre e São João.
As últimas a funcionar foram as Flechas e Aricá.

A produção das Flechas, Tamandaré, Conceição, Itaicy e Maravilha, alem de abastecer o mercado de Cuiabá, enviavam seus produtos rio abaixo até Corumbá.

Como viajavam estes produtos? Semana que vem lhes conto.


 Eduardo Póvoas é Cuiabano  povoas@terra.com.br
 
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