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Quinta-feira, 01 de outubro de 2020

Opinião

Divertidamente, o pesadelo – por dentro da cabeça dos políticos brasileiros

Autor: Eustáquio Rodrigues Filho

02 Abr 2019 - 08:00

DIVERTIDAMENTE é o filme que mostra o que se passa por dentro da cabeça de uma garotinha. Seus sonhos, seus medos, suas frustrações, suas alegrias e tristezas. Já DIVERTIDAMENTE, o pesadelo, é sobre o que se passa dentro da cabeça dos políticos brasileiros: se eleger, se reeleger e se reeleger ad infinitum, sem ir pra cadeia em nenhum desses momentos. Essa é a grande oportunidade de ter um vislumbre do que acontece dentro dessa caixinha de surpresas (desagradáveis). Se não de todos, pelo menos da grande e imensa maioria, inclusive, provavelmente, da cabeça daquele em quem você votou.

Quando nascem, fazem parte da cabeça dele a Ética, a Moral, a Honestidade, a Educação, a Preguiça, a Alegria, o Medo, a Ganância e a Bondade. Normalmente é uma criança normal, que corre, brinca, chora, sorri, faz traquinagens. A Alegria e a Bondade são os "manda-chuvas" do lugar, tendo o Medo e a Preguiça como coadjuvantes. A Ética, a Moral, a Honestidade, a Ganância e a Educação são muito pequenos, não têm voz ativa e muito menos expressão dentro da cabeça de um político ainda criança.
Por causa do meio em que vivem e da equivocada educação recebida pelos pais, aliado às más companhias e uma educação formal deficiente – às vezes inexistente -, esse jogo de forças muda na cabeça do jovem político. Logo, a Ganância se torna a única "manda-chuva" do pedaço e começa seu longo reinado.

Uma de suas primeiras medidas é colocar em coma induzido a Ética e a Moral. No dia seguinte em que a Ganância toma o poder, manda a polícia internar à força as indefesas Ética e Moral, que são imobilizadas e induzidas ao coma. Nunca mais voltam a ter voz ativa na cabeça de um político, definhando inermes numa cama no canto da consciência do promissor político, fadadas a permanecerem caladas e inconscientes por toda a eternidade. Só voltarão a acordar quando Jesus voltar.

Logo depois, a Honestidade é algemada e presa a um canto da mente, impossibilitada de agir na vida do político. É submetida a um tratamento com remédios controlados de Tarja Preta Dupla, em um caminho sem volta. De mãos atadas, ela pouco a pouco vai se transformando, tal qual O Médico e o Monstro, de uma boa pessoa para um terrível ser que comete atrocidades e desmandos descarados e desprovidos de qualquer caráter. Quando a transformação se completa, quando passa de "médico" a "monstro", ela é solta, agora com seu alter-ego dominante: a Desonestidade. Ela, juntamente com a Ganância, passa a dirigir a vida do político.

Nessa altura do campeonato, a Alegria está diminuta, não cresceu. Relegada a um canto, só se manifesta quando vê maços de dinheiro, propinas, conchavos e maracutaias.  Já o Medo se torna um ser altivo e corajoso, pois munido de sua "carteira" acha que pode tudo e passa a dar "carteiradas" no mundo: entra em qualquer lugar e acha que pode fazer qualquer coisa, seja certa ou errada. A única coisa que ainda faz o Medo se sentir desconfortável é a Polícia Federal. Entretanto, ele tem um remédio muito bom para esse problema e o toma sempre que necessário: chama-se STF, medicamento genérico sem contraindicações, indicado e prescrito apenas para quem tem muito dinheiro. Uma variante mais cara do remédio STFmendes, é ainda mais eficaz e age no mesmo dia.

A Preguiça é a única que se mantém constante. Às vezes até cresce um pouco. Mas está sempre presente, pronta para se manifestar quando surge algum sinal de trabalho árduo e/ou honesto. Porém, ela fica energizada quando o político é convidado para um camarote de carnaval, para viagens a paraísos pagos com dinheiro público, ou qualquer outra coisa que envolva mulher, sacanagem e gasto de dinheiro do contribuinte. Para essas coisas a Preguiça está sempre disposta.

Já a Educação, ao longo dos anos, e devido à confusão na mente de todo político, se tornou bipolar. Aliás, tripolar. Por causa de seus transtornos ela passa a ter comportamentos diferentes conforme a época do ano ou do momento político. Nas épocas anteriores às eleições, se o político está sem cargo, a Educação é quase neutra, fica quase no modo avião, no modo "stand by", não fede e nem cheira, faz com que o político se torne quase invisível – ou pelo menos a cada 2 ou 4 anos. Durante as eleições, a Educação se transforma: o político vira um "gentleman", trata a todos bem, abraça e beija quem quer que seja, dança rasqueado e lambadão para conseguir votos, come de tudo, desde Buchada de Bode até Perereca Frita, vai em todo lugar, até na mais longínqua periferia. A Educação faz com que ele se torne um ser agradável e onipresente durante as eleições. Após as eleições, se o político ganhar, a Educação sofre uma nova transformação e desaparece. O político passa a tratar a todos com desdém e indiferença, é grosso com as pessoas, ignora todos os que podem ser ignorados, está sempre em reunião para não atender os seus eleitores (pobres), e utiliza mais frequentemente a saída secreta do seu gabinete, para ninguém saber quando chega ou quando sai. Se perde a eleição, retorna ao início desse parágrafo.

A Bondade... bem, a Bondade, ao longo dos anos, foi desaparecendo, definhando e hoje não passa de uma pequena lembrança perdida na mente do político. Nos momentos em que é lembrada e chamada à tona, mesmo que por um breve momento, é tratada com tanto desprezo e violência, que se recolhe ainda mais, até que chegará o dia em que nem na lembrança do político ela permanecerá mais. É triste, mas é a realidade.
 

Eustáquio Rodrigues Filho é Cristão, Servidor Público e Escritor. Autor do livro "Um instante para sempre". Instagram: @eustaquiojrf.
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