Olhar Direto

Terça-feira, 23 de abril de 2019

Opinião

As lições do bambu chinês

Autor: Alexandre Guimarães

09 Abr 2019 - 08:00

Certa vez, um agricultor chinês resolveu plantar sementes de bambu em sua propriedade. Como toda planta, o bambu precisa de água, sol e adubo para crescer. Depois de lavrar a terra, retirando todas as pedras e ervas daninhas, o agricultor colocou as sementes cuidadosamente em sulcos profundos, abertos no terreno previamente adubado e umedecido.

Todos os dias, sem falta, o produtor regava com capricho os locais em que tinha plantado as sementes de bambu. Um ano se passou e nada. Nenhum sinal de vida. Mas ele não desanimou. Prosseguiu diariamente com o ritual de irrigação.

O segundo ano acabou sem qualquer indício de florescimento. Porém, o agricultor não entrou em desespero. Havia árvores frutíferas e leguminosas em sua propriedade que não deixavam sua família passar fome. Só que o bambu era o seu sonho, pois ele sabia que era uma planta muito valiosa na região.

Mais um ano findou-se e novamente não se viu nenhum vestígio de ascensão das sementes. Os produtores vizinhos zombavam dele, chamando-o de louco por acreditar no crescimento de algo invisível.

Terminou o quarto ano e nadica. No início do quinto ano, o agricultor encheu o balde de água, como sempre fazia, ajoelhou-se e pediu aos céus um sinal. Quando chegou ao campo, notou algo diferente – diminutos brotos de bambu desabrochavam por toda a terra.
Radiante, o homem saiu gritando, anunciando as boas novas e acordando toda a vizinhança. Incrédulos, todos saíram de suas casas e viram que, finalmente, as plantas de bambu cresciam por toda parte.

Durante quatro anos, todo o crescimento do bambu é subterrâneo, numa maciça e fibrosa estrutura de raiz, que se estende vertical e horizontalmente sob a terra. Em cerca de cinco semanas, o bambu chinês cresce até atingir mais de 20 metros.

A pergunta que se faz, então, é: o bambu chinês cresceu em cinco semanas ou em cinco anos? A resposta é óbvia. A planta floresceu em cinco anos, pois se em qualquer momento o agricultor parasse de regar e nutrir as sementes, o bambu teria morrido no solo.
Na vida, muitas coisas são iguais ao bambu chinês. Você trabalha, se esforça e às vezes não vê nenhum resultado por semanas, meses ou mesmo anos.

Assim como os vizinhos do agricultor, muita gente vai apontar o dedo para você e dizer: “Todo esse tempo e é só isso o que você tem a mostrar?”. E, dessa forma, muitos desistem no meio do caminho, pois não veem resultados imediatos.

Sim, querido leitor. Eu sei. A vida é dura. A vida é dura quando você tem mais de 40 anos, trabalha na mesma empresa há mais de 15 anos e um dia, alegando que está ultrapassado, você é demitido. E tem que começar tudo do zero.

Parece ainda mais cruel quando você perde um irmão para o mundo das drogas, um pai para o alcoolismo, uma mãe num acidente de carro ou uma irmã, vítima de feminicídio.

Não é nada fácil. Na vida, você vai passar por muitas situações difíceis e, naquele momento, não vai entender o motivo. Mas depois que você superar esses obstáculos e olhar para trás, então e somente então, você vai perceber que precisava aprender uma lição, que aquelas dificuldades estavam preparando você para coisas maiores e melhores.
Conforme você passa pelos desafios da vida e encara-os de frente, sem fugir, você consegue alcançar os seus objetivos. Infelizmente, hoje em dia, a maioria das pessoas quer tudo de forma rápida e fácil.

Mas não você, caro leitor. Você vai continuar a semear os seus sonhos, regando-os todo santo dia.

Essa parábola do bambu chinês nos ensina a ter persistência, fibra e flexibilidade. Persistência, para seguir em frente mesmo que não seja notado ou reconhecido no curto prazo. Fibra, pois sem uma fundação firme não se chega às alturas. Flexibilidade, para não sucumbir às intempéries da vida, para se curvar ao chão durante o vendaval e se erguer bem alto no tempo da bonança.

Pode demorar, pode não ser no tempo que você imaginava, mas o seu quinto ano chegará. E não será um sucesso passageiro. O seu crescimento terá as raízes profundas e fibrosas de um bambu chinês.
 

Alexandre Guimarães é jornalista, professor e servidor público. E-mail: professoralexandreguimaraes@gmail.com
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