Olhar Direto

Quarta-feira, 22 de maio de 2019

Opinião

Professores Especialistas em Vida.

Autor: Edson Wagner

14 Mai 2019 - 08:00

Recentemente atuei, no final de semana, em um MBA em Gestão Executiva de Negócios. A disciplina: Gestão Executiva. Grupo seleto de graduados, nas mais diversas áreas do conhecimento. Na segunda feira fui surpreendido com o “post” no grupo de whatsapp dos alunos, com a frase abaixo, atribuída a Oscar Niemeyer, post esse de uma aluna, participante do curso e das aulas.

“Toda escola superior deveria oferecer aulas de filosofia e história. Assim fugiríamos da figura do especialista e ganharíamos profissionais capacitados a conversar sobre a vida.” 

Manhã de segunda feira comecei a refletir sobre os acontecimentos em sala de aulas. Sou administrador por formação. Não sou filosofo nem historiador. O que teria levado a aluna a postar tal mensagem? Mais reflexões...

Trabalhei em sala de aula as ferramentas de gestão e apresentei o conceito de Organizações Caórdicas. Foi todo um final de semana tentando explicar e entender o conceito caórdico. Ou em mais palavras, como prosperar colocando ordem em algo que é naturalmente caótico. Aqui temos a Teoria da Complexidade (antecedida pela visão mecanicista e pela visão econômica) formatando a nossa visão de mundo e, por conseguinte, determinado as estratégias organizacionais. A “visão de mundo” é a ferramenta cultural mais poderosa da qual dispõem um indivíduo, grupo social, uma comunidade e uma sociedade, para (re)significar seu passado, compreender seu presente e fazer previsões para construir seu futuro. O Universo não é composto somente de matéria e energia, e sim, de matéria, energia e, principalmente, de relacionamentos. É um processo. A interação das partes desse processo gera informação. A informação gera conhecimento e o conhecimento gera sabedoria.

A “visão de mundo” proposta por Dee Hock (Fundador e CEO emérito da VISA) para as organizações caórdicas (organizações dispostas a não serem dominadas nem pelo caos nem pela ordem) prevê quatro princípios:

Participação intensa: As organizações caórdicas estimulam a participação. Todos atuam em tudo, participam de tudo. Não há aquela ideia de departamento, seção, setor. 

Comunicação intensa: As organizações caórdicas estimulam a comunicação como uma ferramenta vital para o trabalho. Todos estão interligados por redes conversacionais, eletrônicas ou não.

Respeito mútuo: As organizações vivem em decorrência da qualidade das relações que estabelecem. Muitas vezes, tais relações são constituídas sem a menor negociação de expectativas.

Espaço para a criatividade: Problemas novos devem ser tratados com soluções novas. Problemas velhos devem ser vistos por novas perspectivas. Em vez de responder "porque não", há que se perguntar "por que não?". Isso faz toda a diferença.

Relembrando as inúmeras manifestações dos alunos, visto que a participação era um dos critérios avaliativos, todos estavam ávidos por falar. Todos tiveram a oportunidade de contar “sua experiência”, todos puderam “ouvir” a “visão de mundo” do colega. Todos falaram de “VIDA” de forma participativa e entusiasmada. Valorizando os princípios acima, questionando suas ausências na maioria das organizações, reclamando a necessidade de comunicação intensa e respeito mútuo. Desejosos de participarem dos processos decisórios. Vastas manifestações de cerceamento da criatividade em seus ambientes de trabalho.
 
Intrigado continuou minhas reflexões! Abordei, também, a Teoria do Caos -- cuja ideia central é que uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro – e esta é implacável quando se fala de “VIDA”. O “efeito borboleta” se aplica às ciências humanas. Qual teria sido a atitude que desencadeou a citação da aluna? 

 EUREKA! Eles não querem só assuntos técnicos. Penso que os alunos queriam, também, aprender sobre a vida. Teria eu atendido essa expectativa?

Tentei. Não sendo filósofo nem historiador, ofereci a todos a minha “visão de mundo”. Falei da experiência de vida de quem é quase sexagenário. Mesmo sexagenário estou sujeito a todos os temores e incertezas “do futuro”. Síndrome do pânico, fobia social e depressão já cruzaram o meu caminho. Sou prova viva de que “no fundo do poço tem uma mola”, que te alavanca e te traz de volta ao seu melhor período de realizações. Mostrei a eles que: “de perto, ninguém é normal”. Todos têm monstros a serem exorcizados.

 Acredito que a educação ainda é a arma mais poderosa de redução das desigualdades sociais. Falei de Gestão Executiva. Falei de vida. Falei da minha vida! Ouvi com atenção sobre a vida de cada um que ali estava. Um final de semana memorável.

Precisamos desenvolver nossa capacidade de conversar sobre a “vida” em sala de aula! 


Prof. Edson Wagner é Administrador Coordenador do Curso de Administração da Faculdade FAIPE. 
 

 







 
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