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Opinião

Lembrança de uma conversa em Paris

Autor: ENILDES CORRÊA

01 Jun 2019 - 08:00

Em 2005, fiz mais uma viagem de estudo à Índia onde permaneci cerca de 04 meses. À época, estimulei a Mestra Kusum Modak a voltar ao Brasil e ministrar treinamentos aos profissionais de Yoga Massagem Ayurvédica, com o objetivo de trazer o realinhamento de seu trabalho em nosso país, que estava distanciando-se de sua verdadeira essência. Ao retornar dessa viagem, pude acompanhar a Mestra indiana Kusum Modak em sua segunda visita ao Brasil.

Yoga Massagem Ayurvédica é uma das mais belas e transformadoras  terapias corporais que conheci ao longo de mais de 20 anos como terapeuta corporal. Essa poderosa técnica terapêutica uniu duas das mais antigas filosofias práticas da Índia: Ayurveda e Yoga. A partir dessa integração, Kusum Modak criou seu método, o qual atravessou as fronteiras da Índia, propagou-se em países dos vários continentes e tornou-se famoso pela alta eficácia para a nossa saúde física, emocional, mental e espiritual.

Quando convivemos de modo mais próximo com alguém que adquiriu sabedoria, há sempre muitos aprendizados disponíveis, se estivermos abertos para seu compartilhar. Lamentavelmente, na atualidade, quase todos querem ser gurus - o ego exacerbado corta as asas da humildade e da escuta... Para ouvir, é necessário certa profundidade interior e  reconhecer que quem está vivo nunca para de aprender.

A convite de um discípulo da Mestra indiana, fizemos uma pausa em Paris a fim de descansar e, só então, prosseguir na longa viagem. Foi assim que, na Cidade Luz,  ouvi de Kusum um extraordinário relato de sua vida.

Tomávamos calmamente uma xícara de chá no hotel onde estávamos hospedadas, à espera de nosso querido amigo francês que viria nos buscar para nos mostrar Paris. Kusum começou a lembrar de sua mãe, falecida havia pouco tempo, aos 93 anos. Sucheela era seu nome, que em sânscrito significa "mulher de coração bonito". Tornou-se uma mestra espiritual para a filha. Tive a bênção de orar e meditar com ambas na Índia.

Paris mexeu com as memórias emocionais de Kusum e, inesperadamente,  começou a contar-me fatos passados havia não menos de 40 anos. Era época das monções na Índia. Sua mãe,  já viúva,  guardava em casa tudo o que o marido, médico homeopata, deixara-lhe de herança. Elas estavam em casa num dia de rotina habitual, quando, de repente, escutaram  o aviso da Guarda Civil  de que deveriam partir do local imediatamente, pois a enxurrada das águas iria atingir em cheio a região. "Vão agora!", foi a ordem dada pelos guardas. Ambas saíram apenas com a roupa do corpo, deixando todo e qualquer bem material para trás. Um breve espaço de tempo a mais ali significaria risco de morte.

Posteriormente, quando puderam retornar ao local, diante da constatação de que nada lhes restava, Kusum começou a chorar. As águas das monções naquele instante ameaçavam querer inundar seus olhos... Então, a mãe segurou seu braço e disse-lhe firmemente: "Foi só isso!". Surpreendeu-me neste ponto do relato, a força interna de Suscheela contida nessas palavras diante da grande perda material que sofreram. Não sobrara nada – casa, móveis, roupas (os belos sarees), dinherio, joias de família – tudo dragado pelas águas... Ao redor, tudo transformado em lama.

Aceitação no primeiro momento da realidade, tal como é no aqui e agora,  aciona e agiganta a força interna. Foi o que aconteceu com Susheela:  cortou o mal da reação pela raiz. Não deu nenhuma chance de a mente entrar em cena com seus jogos  (não aceitação, apego, autopiedade, reclamação etc.) e consumir a força vital para se manterem de pé e seguirem em frente.

Aceitar e acolher a vida do jeito que é aqui e agora foi um dos meus mais profundos aprendizados existenciais no Oriente. Logicamente, essa compreensão não se aplica a questões políticas, por exemplo, em que podemos intervir e ajudar a mudar situações que trazem prejuízos ao povo.

De vez em quando, ao enfrentar desafios mais difíceis de lidar, recordo-me daquela conversa em Paris e da lição de vida que Susheela deixou, transmitida a mim pela sua filha.  "Foi só isso!" tornou-se uma chama de luz para Kusum e para quem teve o privilégio de ouvir a narração dessa passagem de sua bela história de vida.

Conhecedora de outras passagens da vida de Kusum e sua mãe, sei que enfrentaram árduas batalhas a partir do episódio das monções. Mas, como dizem os sábios, "a vida dá muitas voltas e ninguém sabe nada sobre o dia de amanhã." Aliás, sequer sobre o próximo momento! A natureza da vida é movimento, assim, mudanças acontecem continuamente.    

Anos mais tarde, Kusum começou a trabalhar com um dos tratamentos da medicina Ayurveda e criou o método Yoga Massagem Ayurvédica, que se consagrou em nível internacional, o que a levou a viajar para muitos países.


Mãe e filha superaram as  dificuldades advindas das torrentes das monções naquele período e atravessaram os anos em harmonia consigo mesmas e com a vida em seus diversos aspectos, inclusive o lado material, que prosperou significativamente.

"O que faz você espiritual é a sua maneira de olhar a vida." (Kiran Kanakia).

Quem se ancora no momento presente, independentemente se o considera bom ou não, sem impor suas pequenas escolhas à Vida, unifica-se, ilumina-se e conecta-se com as águas vivas da fonte da sabedoria universal.   

Neste momento, as palavras do amigo e Mestre indiano Kiran Kanakia ressoam em mim:  
"A vida ainda está se movendo. A vida ainda continua. A vida ainda é bonita. Veja-a e ligue-se a ela".


Namastê! 


ENILDES CORRÊA é administradora, terapeuta corporal Ayurveda e professora de Yoga.
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