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Opinião

A síndrome do pequeno poder e a mosca azul

Autor: Lucy Macedo

03 Jun 2019 - 08:00

Já alguns dias, como empresária, mãe e às vezes, mesmo na correria, como dona de casa, optei, para aproveitar bem este tempo e, assim, acabei realizando uma imersão em leitura interessantíssima enviada por uma amiga, sobre a síndrome do pequeno poder e a mosca azul. E me surpreendeu a facilidade de remetermos os conceitos para algumas relações cotidianas quanto as mudanças que o poder às vezes causam em algumas pessoas.
 
Um velho livro A mosca azul, do Frei Betto, de Carlos Alberto LibânioChristo, esgotado, até, na editora, explicam algumas atitudes que infelizmente acabamos sendo obrigadas a conhecer no nosso dia a dia. Principalmente, quando nos deparamos com algumas pessoas que antes reputávamos como seres humanos elegantes e gentis e que nos surpreendem pela mudança repentina. Comumente pessoas que, ao ganhar o poder, passam a se utilizar de expedientes controversos e confusos, usando um modo autoritário e arrogante nas suas relações.
 
Dando sinais, do quanto um pequeno poder é capaz de engendrar a alma de alguns, desvelando, ao final, sua escassez emocional e sua total falta de bom senso, agindo como um tirano que abusa dos limites da autoridade. E isto só por um dedinho de poder que lhe foi proporcionado.
 
A leitura iniciada pelo Frei Beto, acabou me levando a buscar outros textos sobre este mesmo tema, e hoje venho aconselhando a meus amigos mais próximos para que que façam o mesmo, pois são absolutamente úteis para que possamos entender alguns fatos que ocorrem com pessoas próximas da gente [mesmo que elas não devessem ocorrer].
 
Para o filósofo brasileiro Leandro Konder, a picada da mosca azul inocula nas pessoas doses concentradas de ambição e de poder. Em particular, em pessoas que receptivas ao seu veneno estejam vivendo situações nas quais dispõem, de fato, de possibilidades de exercer este poder. Ainda que comumente 'este poder' tenha sido transferido por alguém que está em uma situação mais alta na pirâmide social, na crença de estar colocando-as em pontos estratégicos para que possam, inclusive, serem amáveis. E sob um olhar mais político, certamente colocadas nestes pontos nevrálgicos[críticos] dentro desta cadeia de comando, para darem mais polidez às relações políticas, lá na ponta.
 
A Síndrome do Pequeno Poder lembra história da mosca azul, que surge de uma antiga lenda oriental, na qual um servo foi picado por ela e, a partir daí, começou a se olhar como o próprio sultão. Extasiado, ele se despersonaliza e se acha muito mais importante do que realmente é. Os picados pela mosca azul entram num estado de delírio, agindo com arrogância no uso do poder, deixando vir à tona um desvio de conduta da pessoa que não tem poder nenhum, porém ao imaginar ter, ela age de forma indevida para ocupar um cargo de mando.
 
Um dos escritores mais respeitados do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda retrata este desvio de conduta em seu livro “Visão do Paraíso” - com base na síndrome do pequeno poder -, mostrando que ela foi vista pelas bandas das terras tupiniquins na tradição oligárquica do mandonismo, por meio da colonização, em que os portugueses buscavam apenas brilho, status e poder, mesmo sem nenhum mérito, transformaram a ganância pelo poder em algo irresistível por estas bandas.
 
Nos espaços de poder, estes indivíduos se aproveitam da elegância e da bondade das pessoas nas relações de gênero, de trabalho, e sobretudo na política e no serviço público. Traços que facilmente podem ser detectados em algumas pessoas que sentem uma necessidade patológica de praticar algum tipo de poder, ainda que, de fato, não tenham, esquecendo que apenas e temporariamente, o cargo lhes foi dados dentro daquela fórmula mágica, de dividir para governar.
 
Situações que possivelmente muitos de nós acabaram conhecendo, mesmo que por meio dos relatos e confidências de amigos que vivenciaram estas situações constrangedoras que, de antemão, sabemos que sempre nos deixam em saia justa.
Acho que muitos como eu que trabalham com comunicação e precisam para manter seus empreendimentos, arregaçar as mangas e sair a luta para vender seu produto, acabam ficando com o pé atrás. Afinal, oferecemos uma ideia, um espaço, um conceito de comunicação. Sem negociatas, mas oferecendo aquilo que acreditamos ser um espaço sério e, sobretudo, de visibilidade.
 
E a ideia de termos que confrontar com pessoas que sofrem deste mal, pelo menos em mim, causa uma profunda tristeza. Que bom que são poucas e ruim [porque elas existem ainda que pareçam seres alienígenas].
 
Assim, após estas leituras que tenho aconselhado a amigos que as façam, ainda peço que jamais se contaminem por essa síndrome ou pela picada da mosca azul. Pois ninguém é pior ou melhor do que os outros e, sobretudo, todos estão no mesmo patamar de dignidade e respeito. Lembrando sempre que a vida é uma roda gigante. Mas nestes tempos de inversão de valores, onde infelizmente a velha frase - quer conhecer um homem dá-lhe o poder, precisamos ficar todo tempo em estado de alerta.
 
O que definitivamente é uma pena para as relações humanas já que esta é uma síndrome que ataca frontalmente o pacto de civilidade que anda ultimamente tão fragilizado entre nós.
 

Lucy Macedo é empresária, advogada, Diretora do Site Única News e da Revista Única.
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