Olhar Direto

Terça-feira, 15 de outubro de 2019

Opinião

A miséria moral e o discurso vitimista

Autor: Julio Cezar Rodrigues

06 Jul 2019 - 08:00

O diálogo abaixo transcrito foi retirado do livro “A vida na sarjeta”, de autoria do médico britânico Theodore Dalrymple, ao relatar a conversa que teve com o filho de um imigrante indiano que ingressara no mundo das drogas e dos crimes:

“Perguntei ao filho – com os dentes frontais todos em ouro, calças baggy e boné de beisebol com a aba para trás, usado mesmo dentro do consultório, e tênis da última moda – por que ele começara a usar heroína.

- Não tem mais nada para fazer na rua – respondeu. – É a sociedade que te coloca nessa vida.

A atribuição da própria escolha à sociedade não é incomum. Perguntei-lhe se não conhecia os perigos da heroína antes de começar a utilizá-la.

- Sim – respondeu.

- E mesmo assim você começou a usar? – perguntei.

- Sim.

- Por quê?

- Sem querer ofender, doutor, mas as pessoas que me apresentaram a essa droga conhecem mais a vida que o senhor. Eles sabem do que se trata, sabem como é a vida nas ruas. E não tem preconceitos ou são racistas”.

Para quem não conhece o autor citado, Theodore Dalrymple é o pseudômino do médico psiquiatra e escritor britânico Anthony Daniels (1949). Com vasta experiência em países como o Zimbábue e a Tanzânia, bem como na cidade de Birmingham, na Inglaterra, onde trabalhou como médico em uma prisão, escreveu uma vasta obra abordando temas como cultura, arte, política, educação e medicina. Trata-se, portanto, de alguém que vive o submundo da miséria econômica e moral em um país rico. Ao longo de sua vida laboral nas periferias londrinas desenvolveu uma percepção que vai de encontro à narrativa esquerdista para as causas da pobreza, violência e marginalidade nas subclasses (termo do autor). As verdadeiras causas não são econômicas (já ouço o ranger de dentes do esquerdista raiz) mas encontra fundamento em um “conjunto de fatores disfuncionais, continuamente reforçados por uma cultura de elite em busca de vítimas”. Infelizmente, obras como essas não são lidas pelos nossos “inteligentinhos” da elite “intelectualizada” de esquerda.

O diálogo acima retrata a dura e crua realidade dos jovens nas cidades brasileiras. As respostas do incauto adolescente ao Dr. Dalrymple apenas revela aquilo que as mentes lúcidas e não contaminadas pelo vírus do pensamento revolucionário já sabem. Trata-se da velha máxima marxista, absolutamente falsa, que afirma não ser a consciência dos homens que determina seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a consciência. Traduzindo, você é uma vítima inexorável da sociedade. Ao transportar as responsabilidades individuais para um ente universal abstrato – sociedade, o pensamento revolucionário aprisiona o indivíduo na ideologia e cria os fundamentos para implantação das engenharias sociais que visam reconstruir a sociedade “perfeita”. Todos sabemos onde essa “perfeição” levou milhões de pessoas somente no século passado.

A pobreza não é causa da criminalidade e violência. A refutação é simples. Veja os mapas de criminalidade, as notícias diárias nos veículos de comunicação e reflita. Os principais crimes praticados: homicídios, latrocínios, roubos, furtos, sequestros, estupros e os não menos importantes crimes do colarinho branco (corrupção, lavagem de dinheiro etc) são executados

por pessoas famintas e desesperadas por necessidades básicas de subsistência? Ou são consumados como meio para, simplesmente, ganhar a vida sem trabalhar e ter acesso a bens de consumos supérfluos aos quais não teria em um trabalho honesto? O pai do jovem que participa do diálogo com o Dr. Dalrymple é um imigrante indiano que exerce a profissão de taxista em Londres. Decidiu sobreviver com seu trabalho e não optou pelo crime; até porque não é uma opção. Miseravelmente, perdeu seu filho para uma narrativa de mundo niilista e que tem um objetivo político subliminar. Essa massa de zumbis drogados, que até Marx desprezava, serve a um propósito e o vemos diariamente sendo-nos apresentado. Como explicar ainda os milhares de delinquentes oriundos das classes média e alta? Como explicar os crimes do colarinho branco, perpetrados por políticos e empresários já milionários? “É a mente, e não a sociedade, que forja as algemas que mantém as pessoas presas aos seus infortúnios”, sentencia, acertadamente, o ilustre escritor.

O contato com as teorias revolucionárias, sejam elas marxistas ortodoxas ou as inúmeras correntes derivadas, notadamente as da Escola de Frankfurt, sem o contraponto e as refutações necessárias para extirpar as premissas falsas, estão direcionando milhões de jovens a um precipício ideológico, onde, não raras vezes, a porta de saída é o suicídio, as drogas e o crime. As famílias são destruídas porque os pais, em sua grande maioria, não mais conseguem transmitir os valores que os mantiveram a salvo da ideologia. A educação formal, seja estatal ou privada, aos poucos assumiu parte substancial da aprendizagem moral que, tradicionalmente, pertencia ao ambiente familiar. Sem uma sólida formação ética que crie musculatura moral para resistir às falácias do pensamento revolucionário, disseminado via discurso desconstrucionista da alta cultura e do relativismo moral, nossos jovens são presas dóceis de tais apologistas e formadores de opinião.

À refutação dos esquerdistas de que meu diagnóstico é simplório e não leva em consideração a complexidade do mundo pós-moderno, ambientalizado pela sociedade de consumo capitalista, respondo com tranquilidade. Talvez a humanidade nunca tenha precisado tanto de um resgate aos valores tradicionais legados pela filosofia grega e a moral judaico-cristã como agora. É justamente por estarmos exercendo nossa curta existência em um “mundo líquido” (para utilizar a expressão de Zygmunt Bauman) que talvez necessitemos repensar nossa existência à luz da perspectiva de prevalência do espírito sobre a matéria. É possível descobrir um antídoto para esse caos? Jordan Peterson em seu livro “12 Regras para a vida” (não é uma obra de auto-ajuda) é auspicioso. Segundo ele, ainda é possível ensinarmos nossos filhos a viver de forma digna. Em suas palavras, “CULTIVAR O JULGAMENTO DA DIFERENÇA ENTRE VIRTUDE E VÍCIO É O PRINCÍPIO DA SABEDORIA, ALGO QUE NUNCA DEVE ESTAR DESATUALIZADO”. Em que momento perdemos essa capacidade? Essa é a pergunta que deve ser formulada.

A doutrina do niilismo, cuja fonte é o postulado de que a existência precede a essência, encontra terreno fértil na sociedade materialista moderna. Aliado ao relativismo moral, o resultado é que as pessoas não mais possuem uma bússola moral que as oriente no complicado processo de escolhas. Somos seres desejantes. Não há o que fazer quanto a isso. Mas podemos decidir o que fazer com tais desejos. Essa é a diferença. Para tanto precisamos de regras, pois, como já dizia o estóico Epicteto (55 - 135 d.C ) “não é o que acontece com você, mas é como você reage que importa”. Somos entes morais e não dá para fugir disso. Liberdade sem responsabilidade é a receita para o caos. E, como disse o Dr. Peterson, a

principal regra é que VOCÊ DEVE ASSUMIR A RESPONSABILIDADE POR SUA PRÓPRIA VIDA. Simples assim. Ponto final.

Não existe “lógica no assalto” Márcia Tiburi! Mas, “eu não tenho uma coisa e fui dominado pelo capitalismo...” Não! Você foi dominado por suas paixões, inclinações e desejos. A partir daí, deliberou pelo crime como meio para alcançá-los. Para a visão de mundo revolucionária, a saída é mudar o sistema e não responsabilizar o indivíduo. Essa é a mais demagógica, insana, cínica e desarrazoada forma de encarar a realidade. Não é sem razão que estamos entregues a tantos problemas de ordem existencial. Infelizmente, ainda temos que ouvir, pelo bem da democracia, esquerdistas diagnosticarem o caos por eles produzido e opinarem por soluções.

Nossa espécie, em pelo menos 99% de sua existência nesse planeta, viveu como caçadores e coletores. A vida era curta, dura e bruta. Ou você saia para buscar sua comida ou morria de inanição. Pelo menos dez mil anos de civilização (sedentária) possibilitou que 90% da população mundial consiga sobreviver em condições materiais impensáveis pelos nossos ancestrais. Essa revolução nas condições materiais de vida somente foi possível com o desenvolvimento das forças produtivas geradas pelo modo de produção capitalista. Só começamos a esboçar o socialismo/comunismo depois que o capitalismo criou riqueza suficiente (mas aí é outra história). O fato é que a atual geração “mi-mi-mi” ou esquerda-caviar concebe o mundo a partir do advento da internet ou, no máximo, com a Revolução Francesa” (claro, na versão do seu professor marxista de história). Assim, se “viver é um ato de coragem”, como dizia Sêneca, o que esperar de uma geração que no primeiro obstáculo, procura, ou as drogas ou o suicídio?

Infelizmente o progresso material desvinculou-se do necessário progresso intelectual, moral e cultural, resultando em uma geração de jovens com tempo livre para desconstruir as coisas admiráveis que fizemos e que resistiram ao teste do tempo, sem, no entanto, terem nada para substituir. Quem irá preencher esse vácuo moral, essa vida esvaziada de significado? Segundo o jovem que dialogou com o Dr. Dalrymple, as pessoas que o levaram ao mundo das drogas sabem como é a vida nas ruas. “E não tem preconceitos ou são racistas”!

Finalizo com essa máxima de Marco Aurélio, talvez o mais sábio dos Imperadores Romanos, que, passados quase dois mil anos ainda é um antídoto ao vitimismo que campeia a sociedade atual: “escolha não ser atingido e você não se sentirá atingido. Não se sinta atingido e você não terá sido”. Assim, que Deus nos ajude!

Julio Cezar Rodrigues é economista e advogado (rodriguesadv193@gmail.com)
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