Olhar Direto

Terça-feira, 15 de outubro de 2019

Opinião

A Guerra dos Cupcakes - no setor público

Autor: Eustáquio Rodrigues Filho

09 Jul 2019 - 08:00

Há um programa que assisto de vez em quando que não tem conteúdo algum, mas é tão bem feito que chega a prender a atenção: é a Guerra dos Cupcakes. Por uma ironia do destino a produção do programa resolveu estender a disputa para o setor público: desafiou o Executivo, o Judiciário, o Legislativo e o Ministério Público a fazerem o melhor cupcake com as seguintes características: deveria ter no máximo 100g, vir embalado em um papel biodegradável, ter chocolate e morango em sua receita e ser feito em até 3 meses.

O Executivo abriu uma nova Secretaria apenas para efetuar essa tarefa, a Secretaria de Bolos, Tortas e Salgadinhos. Como o estado estava em calamidade pública, o governador prometeu contratar pessoas para essa nova secretaria mediante demissão de comissionados. Cumprindo promessa de campanha, ele demitiu 50 comissionados de outras secretarias e contratou 230 novos comissionados para a nova pasta. Uma "deseconomia" de 180 pessoas para elaborar 1 cupcake de 100g. Além disso, como prova de uma gestão eficiente, econômica e baseada na sustentabilidade, a Secretaria não ofereceria copo plástico de café e nem papel higiênico biodegradável para os servidores. Na verdade não ofereceria nenhum copo e nenhum papel (exceto os jornais velhos que ficavam à disposição nas portas dos banheiros). Essa nova secretaria abriu uma licitação para contratar uma confeitaria para fazer esse cupcake.

A confeitaria vencedora foi a do irmão do titular da Secretaria para Estratégias Estratégicas, cobrando módicos valores de 1,5 milhão de reais para confeccionar o melhor cupcake do planeta
.
O Legislativo, ao contrário, foi mais ágil. Chamou um ex-deputado derrotado nas últimas eleições, mas que ainda tinha muita influência no interior, para comandar a nova Superintendência de Doces e Salgados recebendo um salário de 33 mil reais. Para realizar a tarefa ele chamou 35 cabos eleitorais de diversos deputados para compor a superintendência. No mês seguinte esses 35 cabos eleitorais foram milagrosamente transformados em servidores efetivos e abriram uma licitação para preparo do cupcake: foram licitadas 2 toneladas de farinha de trigo, 340Kg de chocolate, 800 caixas de morango, 60 rolos de papel biodegradável, 200Kg de fermento, 140Kg de chocolate granulado, 200Kg de lagosta, 150Kg de caviar, 300 caixas de cerveja, 24 BMWs, 48 ternos Armani, 35 Macbooks e 969 vale-motéis, a um custo total de 9,5 milhões de reais. Tudo isso para preparar um cupcake de 100g e, claro, seguindo todas as determinações legais e cumprindo todos os preceitos morais e éticos que regem os legislativos do país. Mesmo contratando 35 pessoas para a nova superintendência, foi determinado que se chamasse um Masterchef para consultoria, ao custo de 500 mil reais de cachê.

O Judiciário, como sempre, sem limites e nem bom senso e desejando fazer o melhor cupcake de todos os poderes não poupou esforços e nem dinheiro para isso. Abriu uma licitação para comprar os ingredientes da prova: 35Kg de farinha de trigo orgânica russa, 40 caixas de morango silvestre da Itália, 20 Kg de chocolate molecular belga, 5Kg de fermento trufado japonês, 10 rolos de papel biodegradável de pinheiro escocês com bordas de ouro feitas à mão, uma bandeja de prata fenícia para levar o cupcake, um garçom inglês com fraque de linho egícpcio feito por alfaiate também inglês, um Rolls Royce para trazer os ingredientes até o tribunal e depois levar até o programa, além de 300 garrafas de vinho premiados com 4 ou 5 estrelas, champanhe, 50 Kg de caviar russo e 500Kg de lagosta do Maine (esses 4 últimos ingredientes nada tinham a ver com a competição, mas já que estavam gastando com comida e o dinheiro é público mesmo... E também mandaram comprar um cupcake na padaria da esquina, afinal o cupcake mais chique era pra representar os magistrados e o cupcake da padaria era pra representar os servidores.

O Ministério Público, sempre muito competitivo e buscando sempre superar o judiciário mandou copiar todo o edital de licitação daquele poder com os mesmos itens e mesmos valores, acrescentando a contratação de Buddy Valastro, o Cake Boss, para fazer o respectivo cupcake, dentro do prazo legal estipulado em regulamento, com respectivo cachê de 1 milhão de dólares, convertidos em moeda corrente na data da publicação deste edital. Considerou-se ainda que o não cumprimento deste TAC acarretaria nas devidas cominações legais a todos os envolvidos, notadamente fornecedores e servidores que estivessem envolvidos nessa empreitada. Para chefiar e acompanhar a força-tarefa da Operação Cupcake foram designados 20 promotores, os quais teriam adicionados aos seus salários os seguintes benefícios: V.I. de 15 mil reais, Auxílio Confeiteiro de 10 mil reais, Bônus de Aprendizado de Atividade Extracurriculares de 25mil reais, Ajuda de custo para compra de livros de receitas no valor de 12 mil reais, Bolsa Aprendiz de Masterchef de 5mil reais. O MP informa que, em nome da ética, da moral e do bom senso que sempre regeram a instituição, fará apenas 1 cupcake para representar promotores e servidores.

Ao final dos 3 meses de competição, os produtores do programa se reuniram para definir quem havia sido o vencedor:

- o Executivo foi eliminado pois, apesar de ter criado uma secretaria para esse fim, não conseguiu entregar a obra a tempo, tendo que aditivar o contrato, o que não adiantou nada, mas pelo menos rendeu uns trocados a mais para a próxima campanha;

- o Legislativo, por trabalharem apenas terça, quarta e quinta, não conseguiu terminar o cupcake a tempo, mas no último dia resolveram comprar uma empadinha da tia lá da porta de entrada e tentaram ludibriar, sem sucesso, os produtores do programa;

- o Judiciário, com sua morosidade característica, não entregou nada, visto que a massa do cupcake estava "conclusa" havia 2 meses sem o despacho do juiz competente para dar prosseguimento à demanda confeiteira;

- o Ministério Público sagrou-se vencedor da disputa, pois mesmo Buddy Valastro não conseguindo agenda para atender o pedido do MP, um estagiário esperto foi na padaria e comprou um cupcake de chocolate com morango, ao custo de 5 reais, que estava horrível, mas cumpria todo o regulamento.

Entretanto, a competição, de fato, não chegou ao fim, pois o Judiciário, inconformado com a derrota, utilizou-se de um dos 30 recursos que tinha à disposição e suspendeu a competição alegando qualquer coisa sem sentido e como eram eles que decidiam essas coisas... Hoje, 15 anos depois da prova, ela continua sem vencedor.
 
Eustáquio Rodrigues Filho – Cristão, Servidor Público e Escritor. Autor do livro "Um instante para sempre". Instagram: @eustaquiojrf.
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