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Terça-feira, 15 de outubro de 2019

Opinião

Constelação Sistêmica: um método terapêutico que ajuda a elucidar conflitos e deixar fluir o amor

Autor: Sita Madhu

12 Jul 2019 - 08:00

A separação litigiosa de um casal que tem filhos não é incomum. As narrativas existentes causam transtornos a todos os que estão envolvidos: pais, filhos e até avós. Como fazer o casal compreender que os filhos pertencem não só a eles, mas a um sistema familiar mais amplo, verdadeiro responsável por seu desenvolvimento?
 
A separação do casal é uma decisão entre os adultos, que deveriam compartilhar e dividir, de forma absolutamente igualitária, a responsabilidade pelos descendentes. Os filhos necessitam ser vistos, sentidos e entendidos pelos pais em conflito. A criança deseja, em sua condição infantil, nutrir-se do amor de ambos (pai/mãe), juntos ou separados. Ela não quer e não deve, para equilíbrio do sistema, ficar de um lado e abandonar o outro. 
 
Os embates entre casais são apenas um exemplo de situações conflituosas que atingem as famílias e se avolumam no sistema judiciário. Na abordagem sistêmica, tais impasses são vistos como um iceberg, com bases profundas ligadas ao passado individual e coletivo dos envolvidos. Se o contexto maior do problema é visto e integrado, espera-se que haja um reordenamento no sistema, o que repercute na solução do conflito inicial.
 
A intervenção da constelação sistêmica é humanizada e costuma ser realizada em grupo, no qual representantes são escolhidos por quem irá ser constelado. Acredita-se que a configuração dos representantes escolhidos criam um determinado campo mórfico (de informações), onde o emaranhado sistêmico se revela.  Há também a possibilidade de se fazer uma constelação individual, que será uma intervenção sigilosa.
 
Independentemente da forma escolhida – individual ou em grupo, essa abordagem permite que a pessoa possa compreender o problema em um nível mais profundo, sendo comuns as revelações de comportamentos negativos transgeracionais, que ao perdurarem, impedem o fluxo natural do amor intrafamiliar. A constelação oportuniza a liberação do conteúdo psíquico de pessoas e situações presentes e passadas, e a liberação de si mesmo.
 
Nesse trabalho, respeitamos o destino do outro, de quem passou. O foco não está em mudar as situações, mas em aceitar o que é revelado. Muitas vezes estamos presos aos emaranhados familiares por não incluir alguém que foi excluído de nosso sistema. Reiteradas vezes copiamos atitudes idênticas às de membros de nossa família, contrariados ou não, somente por amor a eles, mesmo que isso signifique sofrer. A partir da terapia sistêmica é possível passar a ver o invisível e obter uma atitude de compreensão sobre a situação conflituosa.
 
Aplicação em instâncias jurídicas
 
Nas varas judiciais, as técnicas de constelação têm encontrado aceitação de muitos juízes e sua aplicação tem resultado em um maior número de conciliações. Nos recorrentes casos de alienação parental, por exemplo, os casais têm sido auxiliados pela Justiça a terem maior consciência sobre a questão, através da convocação das partes para a realização da dinâmica sistêmica. Nesse caso, o juiz reúne uma gama de processos com o mesmo tema e uma única constelação costuma surtir efeitos positivos para elucidação dos conflitos.
 
Em 2015, uma prática de mediação familiar baseada nessa técnica, desenvolvida no 3º Centro Judiciário de Soluções de Conflitos e Cidadania da comarca de Goiânia/GO, foi vencedora do Prêmio "Conciliar É Legal", do Conselho Nacional de Justiça. A prática também resultou em uma menção honrosa em 2014, no XI Prêmio Innovare, concedido pelo Instituto Innovare.

Origens

A constelação familiar é um método psicoterapêutico criado pelo alemão Bert Hellinger, e tem sido utilizado no Poder Judiciário de pelo menos 16 estados.
Hellinger nasceu em 1925, e trabalhou como missionário na África do Sul durante 16 anos, período em que desenvolveu sua técnica pela observação do comportamento das comunidades zulus, ao atuar como padre e diretor de escola.

Com o povo zulu, Bert Hellinger presenciou um fenômeno curioso: quando um integrante da tribo ficava doente, o sacerdote invocava um antepassado do indivíduo que apresentava um mal similar e, ao tratar o antepassado, o indivíduo costumava melhorar. Essa foi apenas a fonte de um sistema que mais tarde Hellinger consolidou por anos, utilizando-se da Teoria dos Campos Morfogenéticos, de Rupert Sheldrake.

Quem pode ser um constelador

A cada dia, mais profissionais se especializam na prática da constelação sistêmica. Empresários, profissionais da educação, de áreas médicas, jurídicas, profissionais liberais e também pais que querem desenvolver uma relação melhor com seus filhos.
Não só nas relações entre pais e filhos pode haver constelação. É possível fazer dinâmicas terapêuticas para trabalhar problemas relacionais diversos, endividamento e até mesmo uma doença. Nas organizações públicas ou privadas, usa-se a Constelação Sistêmica Organizacional, juntamente com o Coach para a gestão de equipes de trabalho, a fim de se dirimir problemas financeiros, de liderança, conflitos com funcionários, baixa de motivação, entre outras situações.

Na Saúde, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), publicada em 2006, instituiu no SUS abordagens de cuidado integral à população por meio de outras práticas que envolvem recursos terapêuticos diversos. A Constelação Familiar é uma dessas Práticas Integrativas e Complementares (PICS), e, também nesse setor, tem permitido a identificação de bloqueios, sendo utilizada para a promoção da saúde pública.

Sita Madhu é consteladora, coach, psicóloga e integrante do Instituto Imensa Vida). O artigo tem a colaboração de Rama Krishna, constelador, coach e integrante do Instituto Imensa Vida que oferece formações sistêmicas. 
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