Olhar Direto

Sábado, 19 de outubro de 2019

Opinião

A Saúde mental em tempos de mudanças

Autor: Aureo Dutra

25 Jul 2019 - 08:00

A infância e a adolescência são épocas de transição da vida em que acontecem muitas transformações - como mudar de escola, conhecer pessoas novas, mudanças no núcleo familiar, alguns pais se separam, outras pessoas aproximam-se, e logo seguindo, quando na adolescência, chega a fase de querer sair de casa e começar um outro momento da vida. Para muitos, as transformações acorrentes são momentos bastante emocionantes, para outros com menos intensidade. Como em qualquer outra fase da vida, esta transição também pode ser uma experiência regada de estresse e muita apreensão, no entanto, em algumas situações, se não forem bem observadas e gerenciadas pela pessoa que experimenta, pode gerar uma série de questões emocionais que desencadeiam inclusive adoecimentos.

Com a democratização do acesso a informação, o uso crescente de diversas tecnologias, sem sombra de dúvidas, pode trazer diversos benefícios, porém, vem também com uma carga enorme de pressões e desequilíbrio.  A globalização trouxe uma grande revolução para a humanidade, mas é necessário existir uma homeostase em relação às realidades e como lidar com elas. 

Imagine ser excluído pela sociedade por não estar “compatível” com os padrões tidos como exemplo de comportamento e de realização. Numa sociedade em que na escola as crianças ainda sentam olhando umas para as costas das outras, onde a matéria é chamada de disciplina, e o aluno precisa provar que decorou o que o professor disse, caso contrário ganhará nota “0” e com caneta vermelha por sinal. Sabemos que não é fácil lidar com determinadas opiniões e comportamentos, pois não somos preparados ao pensamento sistêmico, crítico e a contradição pode levar a conflitos gigantes, se mal elaboradas. 

Algumas pessoas dizem que a internet é o ápice do limite das coisas, podemos nos perguntar com base na série Black Mirror, o quanto nos perturba essa ligação que a tecnologia apresentada na série tem com o momento atual e real.

Isso nos mostra que sem essa análise de impacto e autoconhecimento, qualquer novidade pode ser perturbadora e nos gerar descontroles. Um dos episódios mais curiosos e que gerou muitas discussões em Black Mirror é o Queda Livre. Nele, sua vida é avaliada de acordo com a sua interação nas redes sociais, publicações e comportamentos, e quem dá a nota é a sociedade. Uma grande aflição social e que estamos vivenciando na realidade, pois o maior tribunal que existe na contemporaneidade são as redes sociais. 

Segundo Erik Erikson,  a adolescência é o estágio que se adquire uma identidade psicossocial: o adolescente precisa entender o seu papel no mundo e tem consciência da sua singularidade. Há uma recapitulação e redefinição dos elementos de identidade já adquiridos – esta é a chamada crise da adolescência.

Quando falamos sobre saúde mental diante da atualidade, não é possível o diálogo sem antes trazer algumas informações: 
 - Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), metade de todas as condições de saúde mental começam aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada. O suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos.

Ao longo da vida, uma em cada dez pessoas irá necessitar de cuidados com a saúde mental. Porém se depender do formato em que é tratada a realidade atual, muitos desses indivíduos não terão sequer acesso aos serviços e profissionais de que precisam. É o que revela a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Por sorte, á um crescente reconhecimento da necessidade de ajudar as pessoas, principalmente os jovens a construir a resiliência mental, a fim de lidar com os desafios do mundo de hoje. Aumentam os indícios de que promover e acudir a saúde do adolescente traz benefícios não somente à saúde dos adolescentes, mas também às economias e à sociedade como um todo, com pessoas muito mais saudáveis, autônomas e capazes de contribuir com grande força, com o trabalho, com as famílias, com as comunidades e com responsabilidade em se tratando de tecnologia e suas consequências.

Contudo, mostra-se importante a sociedade dialogar sobre as transformações e como os impactos são identificados na saúde mental das pessoas, bem como seus cuidados. E para que possamos lidar melhor com questões como a saúde mental diante das transformações, é necessário a busca pelo autoconhecimento, pelo aperfeiçoamento crítico, buscar ter hábitos mais eficazes, afunilar os laços com a palavra e com as pessoas que são as bases de nossas identidades, e se necessário buscar ajuda especializada quando o adoecimento psíquico já for uma realidade. Não podemos negligenciar os nossos limites e nos render a neurose imposta pelas mudanças, sem nos posicionarmos como pessoas autônomas e com resiliência o suficiente para conseguirmos desenvolver e manter o autocontrole. Somos naturalmente virtuais, pois temos a capacidade de nos desdobrar para além daquilo que somos, para aquilo que podemos ser, e a tecnologia nos proporciona essas dimensões. Precisamos saber lidar com essa representatividade e com os impactos, para daí podermos organizar os nossos pensamentos e com isso melhorar nossa qualidade de saúde emocional e mental.


Aureo Dutra é Psicólogo em Nova Ubiratã-MT, atua com a abordagem Psicanalítica Existencial.  CRP: 18/03399 E-mail: aureopatrick@hotmail.com ​Whatsapp: 65-99249-3775

 
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