Olhar Direto

Quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Opinião

A verdadeira luta das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação em Mato Grosso

Autor: Jelder Pompeo de Cerqueira

07 Ago 2019 - 08:00

Antes de se julgar a greve das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação, é preciso e urgente conhecer os bastidores de tudo o que enfrenta, historicamente, esta classe em Mato Grosso. Quando tratamos da luta destas valorosas trabalhadoras e destes valorosos trabalhadores, não nos referimos apenas à greve e às mobilizações que elas e eles enfrentam, em 2019, há mais de dois meses. Falamos do cotidiano adverso que está posto desde sempre, com o abandono das escolas e dos processos de ensino/educação públicos pelos governos; falamos da violência, física e simbólica, que permeia os espaços educacionais, oprimindo docentes e discentes, especialmente nas periferias, e que precisa ser enfrentada para que se ensinem as milhares de crianças, adolescentes e adultos, num país – e num estado – em que a educação de qualidade ainda é considerada um privilégio.

Meu conhecimento sobre a realidade da educação pública vem da vivência que tive ao longo dos anos em que trabalhei nas diversas redes de educação e em diversas funções distintas. Comecei em 2010 como Técnico em Nutrição Escolar (vulgo merendeiro) na Rede Municipal de Educação de Cuiabá. Em 2012, fui convocado em meu segundo concurso público na área da educação, desta vez, para Técnico Administrativo Escolar na Rede Estadual de Educação. Em 2013, passei a lecionar no IFMT, como professor contratado. Em 2014, paralelo ao trabalho que fazia na rede estadual ministrei aulas por um bimestre em uma escola privada, até ficar sabendo que fui aprovado no concurso do IFMT para Técnico em Assuntos Educacionais, cargo que ocupo atualmente.
  
Ter transitado pelas diversas redes de educação e em muitos cargos distintos, possibilitou-me ver a realidade de muitos trabalhadores e de muitas trabalhadoras da educação. Sem medo de errar, posso afirmar que muitas escolas só não caíram na cabeça dos alunos e das alunas ou de quem trabalha na educação devido às lutas que os educadores e as educadoras, junto à comunidade escolar, travaram ao longo dos anos. Essa luta é diária, mas a comunidade externa só a vê quando ela vai para fora do muro da escola. Estes enfrentamentos são diversos e travados em várias "trincheiras", desde a limpeza, passando pela merenda (às vezes, a única refeição que um ou uma estudante faz durante seu dia) até a sala de aula.

Vou tratar um a um os desafios que os trabalhadores enfrentam diariamente. É claro que não conseguirei falar sobre todas as batalhas que profissionais da educação enfrentam, mas pretendo demonstrar um pouco da realidade desconhecida por muitos e muitas de nós.

Já na entrada da escola, temos um trabalhador ou uma trabalhadora responsável pelo controle da entrada e saída discente. Esta é a pessoa que tem que conhecer todos os pais, as mães e os/as responsáveis dos alunos e das alunas para poder entregar cada criança a seu respectivo ou sua respectiva responsável. Este trabalhador/ Esta trabalhadora é quem, muitas vezes, fica até mais tarde cuidando daquelas crianças que os pais ou as mães não foram buscar. A escola nunca fica sem ninguém. Mesmo quando se passa na frente de qualquer unidade escolar no meio da noite, é preciso saber que lá dentro há um trabalhador ou uma trabalhadora que fica todas as noites, feriados e finais de semana zelando por aqueles espaços. Estas pessoas colocam suas vidas em risco em unidades escolares sem o mínimo de segurança. 

Antes das aulas começarem, a escola tem que estar limpa. Aí entra em jogo as trabalhadoras e os trabalhadores da limpeza. Elas e eles madrugam nas unidades escolares e têm que dar conta de espaços enormes, sendo, muitas vezes, uma ou duas pessoas por turno. O número de trabalhadores e trabalhadoras leva em conta a quantidade de discentes e não o tamanho da unidade escolar – nem seu estado. Vale lembrar que, quanto mais decadente for o prédio, maior será o trabalho de todos e todas envolvidos/envolvidas. E estas trabalhadoras e estes trabalhadores convivem com a estrutura precária da unidade escolar, pias e canos vazando, falta de água, esgoto saltando das fossas, mato, pisos quebrados, carteiras impróprias ao uso, sem contar a poeira das ruas, muitas vezes de terra, que circundam a escola. Trabalhadores e trabalhadoras têm que fazer tudo isso com produtos e equipamentos de baixa qualidade, pois é o que o dinheiro da escola consegue comprar. Quando não estão limpando a escola, geralmente, estas mulheres e estes homens estão na cozinha, ajudando as merendeiras. Na maior parte das vezes, há uma ou duas mulheres para alimentar centenas de alunos e alunas. Reitera-se que, em muitos casos, aquela será a única refeição durante todo o dia. 

Quantas vezes não tive que improvisar um prato para alunos e alunas que estavam passando mal de fome e não conseguiriam esperar o horário da merenda. Era de encher os olhos de lágrimas ao ver a alegria daquelas crianças por terem aquele prato de comida. Isso nos motivava a nos esforçarmos cada vez mais para fazer a melhor comida possível, mesmo quando a carne vinha cheia de gordura e o processo de retirar o excesso da gordura precisava ser refeito duas ou três vezes. Trabalhávamos em uma cozinha insalubre, extremamente quente, pois não havia ventilação. Nossa única panela de pressão, de tão velha e remendada, era um perigo constante, tanto que quase explodiu um dia. Só depois disso conseguimos uma nova.

Quando havia algum evento que juntava merendeiras e merendeiros, ficava bem visível as marcas que o trabalho na cozinha produziram nos corpos daquelas e daqueles colegas. Quase todas e todos tinham algum problema de saúde ocasionado pelo esforço ou insalubridade das cozinhas. 

Na secretaria da escola, a vida também nunca é tranquila. Poucos trabalhadores e poucas trabalhadoras precisam se desdobrar em várias funções para dar conta de administrar toda a estrutura da escola, além de emitir toda a documentação dos alunos e das alunas. Quantas vezes não ficamos em um ou dois trabalhadores no final do ano, pois o restante dos e das colegas eram contratados e tinham seus contratos suspensos logo no período em que mais precisávamos de gente para ajudar a emitir os diplomas, os históricos e demais documentos discentes.

Na sala de aula, as professoras e professores servem como psicólogos/psicólogas, assistentes sociais, além de ministrar suas aulas com estruturas precárias. O desafio é imenso. Lembro que, na faculdade, aprendemos diversas dinâmicas e recursos para podermos deixar nossas aulas mais interessantes: uso de música, filmes, aulas de campo, experiências práticas, etc. Quando chegamos à sala de aula, vemos que a realidade é outra. Temos sorte quando a sala tem quadro, giz, ventilador e carteira para todos e todas. Se houver – e raramente há – na escola, recursos de multimídia, eles são disputadíssimos, não sendo possível preparar a aula contanto com esses equipamentos. Aula de campo é quase impossível de fazer. Muitas vezes, para esta atividade acontecer, a professora ou o professor precisa colocar recursos do próprio bolso. Aliás, colocar a mão no bolso para trabalhar é o que mais os trabalhadores e as trabalhadoras da educação fazem: seja para a cota da água e do café, para comprar rifas de formatura de aluno e alunas ou mesmo para manter a escola em seu mínimo necessário. Quantas vezes não tivemos que vender pizza, rifa ou fazer festa (junina, por exemplo) para arrecadar dinheiro a fim de arrumar uma coisa ou outra na escola. Uma boa parte do salário destes e destas profissionais acaba ficando na própria escola. Não é à toa que, em todo colégio, encontram-se aqueles catálogos de perfumes, de utensílios de cozinha, etc. Esta é a forma que alguns trabalhadores e algumas trabalhadoras conseguem complementar suas rendas. Outras e outros docentes trabalham em dois ou mais empregos. 

Este é um resumo rápido da luta diária das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação. São essas pessoas que estão enfrentando um governo truculento que, ao desrespeitar a lei e ser cobrado por isso, cortou seus salários. São essas pessoas que os governos, das diferentes esferas, estão tratando como os vilões e as vilãs. São por estas pessoas e com estas pessoas que devemos lutar. Se, pois, ainda temos educação pública é por que eles e elas lutaram e continuam lutando por este direito. Se queremos melhorias na educação só nos juntando a eles e elas e reforçando sua luta que conseguiremos avançar.


Jelder Pompeo de Cerqueira é Cientista Social, especialista em questão agrária e mestrando em Educação pelo IFMT. Atua como Técnico em Assuntos Educacionais do IFMT e compõe a Diretoria do SINASEFE MT (Gestão 2019-2021).
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