Olhar Direto

Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Opinião

A tragédia e a miséria humana juntas nas mortes das crianças Ágatha e Rhuan

Autor: Julio Cezar Rodrigues

25 Set 2019 - 08:00

A menina Ágatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, foi morta quando voltava para casa com a mãe, na noite de sexta-feira (20/09), no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Ainda não se sabe se o tiro que vitimou a criança partiu de um agente da lei (policial) ou de um fora da lei.

No dia 31/05, em Samambaia no Distrito Federal, o menino Rhuan, de 9 anos, foi morto e esquartejado pela mãe e sua companheira. O laudo divulgado pela Polícia Civil do Distrito Federal revelou que ele estava vivo quando foi decapitado pela própria mãe, com a ajuda da companheira. O golpe inicial foi dado no peito seguido por 11 facadas nas costas. As investigações descobriram que, um ano antes do assassinato, as mulheres amputaram o pênis de Rhuan. À polícia, Rosana alegou que ele queria ser uma menina e por isso fez o procedimento. A mulher ainda afirmou que não sentia amor pela criança e que ela atrapalhava seu relacionamento com Kacyla.

No primeiro caso temos uma criança vítima do confronto entre o poder estatal e os governados que resistem à ordem instalada. No segundo relato, a pequena vítima sofreu os efeitos de dois governados, que, nas suas relações privadas, regressaram a um estado de barbárie incompatível com a razão e os instintos mais primitivos de preservação da espécie. 

O primeiro fato trágico tem suscitado um debate de caráter ideológico e político no tema da segurança pública absolutamente irresponsável, cínico e desonesto sob o ponto de vista intelectual. O segundo episódio de fatalidade, poderia ter sido motivo de amplo debate acerca da ideologia de gênero e seus efeitos na psique humana, mas foi censurado pelo politicamente correto. Os mesmos pensadores de esquerda que vociferaram contra a polícia e a política de segurança pública do Rio de Janeiro, silenciaram ou adotaram uma postura prudente em relação ao segundo evento. Por quê?

À guiza de analogia, guardadas as devidas proporções, enquanto Stalin praticava seu genocídio na antiga União Soviética, a atitude em relação ao comunismo permaneceu positiva entre muitos intelectuais ocidentais. Ainda hoje, a intelligentsia esquerdista brasileira, fora do poder político do Estado-executivo e em menor número no legislativo federal a menos de um ano, não tem a coragem moral de desaprovar de forma contundente e definitiva a natureza maléfica da ideologia marxista-comunista, bem como fazer a mea-culpa sobre sua grande parcela de responsabilidade pelo atual estado das coisas no Brasil. E não me refiro apenas à administração corrupta dos recursos públicos. Jordan Peterson alerta que os “intelectuais” de esquerda, durante mais de quarenta anos propagaram um marxismo “reformado” sob a ótica de pensadores como Jacques Derrida (1930-2004), que, sob um sistema capitalista que retirou milhões da pobreza abjeta, simplesmente substituiu a noção de dinheiro pela de poder e seguiu em frente, como se nada tivesse acontecido nas experiências comunistas. 

Os filhotes da Escola de Frankfurt aqui no Brasil continuam desinformando e agitando. Os casos narrados são crimes graves e que devem ser apurados e não serem utilizados para reforçar posições doutrinárias ideológicas com vistas à retomada do poder político. As polícias não são causa da violência no Rio de Janeiro ou do restante do País. Afirmar isto é irresponsabilidade. Da mesma forma, não posso assegurar que a causa da morte do menino Rhuan em Brasília foi o fato de sua mãe estar em uma relação homoafetiva e apoiar a ideologia de gênero. Tenho certeza que a esmagadora maioria dos casais homoafetivos repudiou esse crime bárbaro. O que pode e deve ser motivo de estudo e discussão civilizada é segurança pública e ideologia de gênero. 

O grande desafio é como retirar o véu ideológico que encobre o fenômeno com vistas a encontrar sua verdadeira natureza. Quem está disposto a fazê-lo? Àgatha foi o efeito colateral de uma guerra entre o Estado e o crime organizado do narcotráfico. A pessoa concreta (o Ser) que ESCOLHE dedicar sua vida ao crime violento, não o faz por falta de oportunidades ou porque está em um ambiente de pobreza. Essa é uma premissa falsa difundida pela concepção de mundo características das esquerdas. Ideologia de gênero é outra excrescência sem base científica, criada e disseminada pela nova esquerda via Escola de Frankfurt. São muitos os mitos que essa visão de mundo tem se valido desde que perdeu o discurso revolucionário de tomada de poder via ditadura do proletariado. O problema é que entender todo esse processo dá muito trabalho e pouquíssimas pessoas estão dispostas a dedicar tempo e esforço nessa empresa. A esquerda não tem essa “preguiça”, daí sua hegemonia nas últimas quatro décadas. Urge reverter esse processo.

Ideias tem consequências! O mundo pós-moderno está demasiado complexo para um diagnóstico definitivo. Desconfiem dos engenheiros sociais que prometem mudanças e o paraíso na terra. A rebeldia, o repúdio aos valores judaico-cristãos e a crença em que todas as hierarquias são baseadas no poder e visam à exclusão, criaram as bases para o atual estado de coisas. Todos carregamos no fundo do ser a capacidade ou potencial para fazer o mal. Não acredito no “bom selvagem” de Rousseau. Entendo, pelo contrário, que podemos controlar nossos instintos destrutivos com educação familiar baseada nos valores tradicionais testados pelo tempo. Quer conhecer alguns deles? C. S. Lewis lista alguns no apêndice de sua obra “A abolição do homem” (este livro deveria ser lido por todos aqueles que querem entender as consequências de um mundo sem valores objetivos). São exemplos da Lei Natural retirados da sabedoria de fontes antigas ao alcance de qualquer um: “não faças aos outros o que não gostarias que fizessem contigo” (Chinês antigo, Analectos de Confúcio); “assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam” (Cristão; Mt 7:12); “quando o povo tiver se multiplicado, o que deve ser feito por ele? O Mestre disse: ‘faze-o prosperar’. Jan Ch’iu perguntou: ‘e, quando já estiver próspero, o que deve ser feito por ele?’ O Mestre disse: ‘Instruí-o.’” (Chinês antigo; Analectos).

É lamentável e causa de dor assistir a morte precoce dessas crianças inocentes. Mais temor ainda pode ser causado quando determinadas “soluções” vierem ao mundo dos fatos. Nada pode ser tão perigoso para uma nação quando determinadas pessoas arvoram-se como portadoras dos remédios que curam os males sociais. A história nos apresentou inúmeros “iluminados” que prometeram a prosperidade e a felicidade na terra. Milhões destes jazem em valas comuns. A defesa adequada contra os sentimentos falsos, alerta Lewis, é inculcar os sentimentos corretos. Esse é o dever do educador moderno: “irrigar os desertos e não derrubar as florestas”. 

Julio Cezar Rodrigues é economista e advogado (rodriguesadv193@gmail.com)
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