Olhar Direto

Quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Opinião

Como a depressão, esquizofrenia, ansiedade e autismo têm relação com o seu intestino.

Autor: Camila Delgado André

02 Out 2019 - 08:00

A depressão é uma das doenças mais comentadas, dentro e fora do consultório, porém o autismo, déficit de atenção e esquizofrenia podem estar também ligadas aos mesmos centros nervosos da depressão. Os estudos, mesmo que limitados, propõem que o nervo vago trabalha junto com sistema nervoso entérico, ou seja, cérebro e intestino podem estar atuando para o avanço dessas doenças. Lembrando que a depressão é adquirida ao longo da vida e as demais doenças têm origem hereditária. O que não muda a proporção da atenção que, nós profissionais, devemos tratá-las. Por tanto, a depressão tem o mesmo grau de periculosidade como essas doenças adquiridas, já ao nascer, passada de pais para filhos.

A ciência sempre em busca de evolução em tratamentos menos agressivos, relaciona que a melhora da nutrição nesses pacientes pode proporcionar e otimizar as medicações evitando a piora dos sintomas. 

"Devido a tais efeitos, muitos pacientes não aderem ao tratamento farmacológico e são estes os que sofrem maior risco de cometerem suicídio ou se tornarem pacientes institucionalizados. Uma possível solução para esse problema seria um tratamento alternativo ou complementar baseado na nutrição. Deficiências de ácido graxo ômega-3, vitaminas do complexo B, minerais e aminoácidos são as mais frequentemente vistas em pacientes com depressão. Já foi comprovado, por exemplo, que uma dieta rica em ômega-3 é efetiva na diminuição dos sintomas da doença. A vantagem do tratamento nutricional é a de melhorar a qualidade de vida do paciente sem gerar efeitos colaterais negativos (LAKHAN, VIEIRA, 2008)".

Os efeitos colaterais são um dos principais motivos para a desistência no tratamento da Depressão
 
O tratamento mais aplicado ao paciente depressivo costuma unir psicoterapia e terapêutica farmacológica. Alguns efeitos colaterais dos fármacos são: sonolência, ganho de peso, náuseas, tontura, taquicardia, constipação, anorexia, ente outros (PEIXOTO et al, 2008; COSTA, 2010)

A inter-relação dos efeitos de sinalização cérebro intestino são a matriz dos resultados dos efeitos que o paciente com depressão recebe de informação, tanto em via fisiológica como em seu comportamento com a sociedade. "Segundo a hipótese monoaminérgica, a depressão é resultado de um déficit de neurotransmissores, sendo eles a serotonina, a noradrenalina e a dopamina na fenda sináptica (FIGUEIREDO, 2009). A maioria dos neurônios serotonérgicos, noradrenérgicos e dopaminérgicos agem na regulação da atividade psicomotora, no apetite, no sono e no humor. Essa teoria é embasada no conhecimento do mecanismo de ação dos antidepressivos, que consiste principalmente em aumentar a disponibilidade desses neurotransmissores na fenda sináptica (LAFER et al, 2001; FIGUEIREDO, 2009; HASLER, 2010).

Pacientes com depressão apresentam um número aumentado de citocinas pró-inflamatórias, como a interleucina 1 beta (IL-β1), interleucina 2 (IL-2), interleucina 6 (IL6),interferon gama (IF-Ϫ) e o fator de necrose  (TNF-α) (VISMARI, ALVES,) marcadores esses encontrados na obesidade .
 
A atenção nutricional surge para estes pacientes como um importante tratamento alternativo ou complementar, visto que determinados nutrientes têm um papel fundamental na gênese da depressão. O tratamento nutricional deveria integrar a terapia de todos os pacientes deprimidos. Pois, além de ser livre de efeitos colaterais, também propicia uma melhora global na saúde do indivíduo. Deficiências de ácidos graxos ômega-3, vitaminas do complexo B, minerais e aminoácidos precursores de neurotransmissores são as carências nutricionais mais comumente observadas em pacientes depressivos (LAKHAN, VIEIRA, 2008)
Magnésio: banana, abacate, beterraba, quiabo, amêndoas e nozes são alguns alimentos ricos em Mg²+

Alguns alimentos fonte de zinco são: carne vermelha, leites e
derivados, feijão, castanha de caju e amêndoas.
 
É sabido que a serotonina tem um forte papel na fisiopatologia da depressão, bem como no mecanismo de ação de fármacos antidepressivos.

Visto que a quantidade de serotonina sintetizada depende da biodisponibilidade de triptofano plasmático e da atividade da enzima triptofano hidroxilase. A ingestão adequada desse aminoácido e de nutrientes envolvidos na composição dessa enzima (magnésio, e  vitaminas do complexo B) é fundamental no tratamento da depressão. Algumas fontes de triptofano são: arroz integral, feijão, carne bovina, peixe, aves, abóbora, banana e manga.

Segundo LAKHAN et al (2008), dados epidemiológicos e estudos clínicos já comprovaram que ácidos graxos ômega-3 podem trazer resultados efetivos no tratamento da depressão. O consumo diário de suplementos contendo de 1,5 a 2g de EPA significou uma melhora no humor de pacientes depressivos.

Visto que o processo inflamatório exacerbado é capaz de afetar negativamente o SNC e as neurotransmissões, consumir alimentos fonte e/ou suplementos de ômega-3 e ômega-6 em quantidade e proporção adequadas pode ser um fator determinante no tratamento da depressão. Adicionalmente, os ácidos graxos ômega-3 podem ser agentes protetores de doenças inflamatórias como, por exemplo, doença vascular aterosclerótica, artrite, alergias, entre outras (BARBALHO et al, 2011).

Peixes de água fria, como o salmão, arenque, cavala, sardinha e atum são ricos em EPA e DHA, e são consideradas as principais fontes alimentaresd e ômega-3. As carnes, e óleos de soja e girassol são alguns importantes alimentos fonte de ômega-6
 
Vitamina D

A vitamina D é produzida na pele através da exposição ao sol e também pode ser adquirida através da ingestão de peixes gordos (como salmão, atum, sardinha e cavala), gema de ovo, óleo de fígado de bacalhau e suplementos.
No entanto, ela precisa ser metabolizada no fígado e em seguida nos rins para que ocorra a conversão para sua forma biologicamente ativa, o 1,25-dihidroxicalciferol (calcitriol).
 
Relação Intestino e Depressão
 
A microbiota intestinal e as células imunológicas do trato GI interagem entre si através da mucosa do trato GI e podem se comunicar com o encéfalo através do nervo vago ou ter acesso direto através de células imunológicas presentes na circulação sanguínea. Por exemplo, imunodeficiências e alterações na mucosa gástrica são observadas em camundongos livre de microrganismos, evidenciando que o sistema imune depende da colonização da flora intestinal para a sua completa maturação, que é iniciada no período fetal (VITALLE 2017).
 
De fato, a flora intestinal parece "educar" o sistema imune através de bactérias específicas que sobrevivem e se proliferam durante processos inflamatórios.
         
Acredita-se que estas bactérias específicas (chamadas de patobionte) estimulem a produção de proteínas antibacterianas e uma variedade de componentes imunológicos que auxiliam o organismo a desempenhar uma resposta imunológica adequada.
 
Patobiontes também podem atravessar a barreira epitelial de forma transiente para promover a sua ação . Por outro lado, a eliminação destas bactérias pode retardar a indução de antígenos e outras moléculas que residem na lâmina própria e são responsáveis pelas respostas inflamatórias.

Em doenças como a síndrome do intestino irritável e a depressão, onde o aumento da permeabilidade intestinal é um sintoma característico, a movimentação de bactérias do lúmen intestinal para a circulação sistêmica pode iniciar uma resposta inflamatória através da estimulação dos receptores do tipo Toll-4 em células imunológicas.
 
Por exemplo, a inflamação intestinal causada pela bactéria Campylobacter jejuni em roedores está associada ao aumento da atividade neuronal no gânglio sensorial vagal e nos neurotransmissores, que recebe projeções vagais, indicando que a inflamação intestinal é percebida  e demonstrando que a flora intestinal é capaz de modular a resposta inflamatória periférica e afetar a função encefálica e o comportamento.
 
Flora intestinal e doenças psiquiátricas, apesar da ausência de evidências epidemiológicas que correlacionem patologias do (Sistema Nervoso Central) e a flora intestinal, vários estudos têm demonstrado a importância das bactérias intestinais na saúde e na doença. 

O desequilíbrio na composição e na diversidade da flora intestinal pode favorecer o desenvolvimento de doenças do SNC, bem como alterar a função cognitiva e a sociabilidade. Além disso, acredita-se que alterações da composição bacteriana intestinal no período inicial de vida possa ser refletida durante a fase adulta e influenciar respostas endócrinas e comportamentais ao estresse, mesmo que a flora intestinal esteja "normal". 

Autismo, depressão e esquizofrenia são doenças que têm relação direta com a qualidade de boa flora intestinal, sendo essas doenças afetadas pelo estado saudável ou não da flora intestinal. 

A flora intestinal desempenha um papel fundamental na manutenção da homeostase do intestino, através de interações com o sistema imune do hospedeiro. Nos últimos anos, diversos estudos têm demonstrado a importância da flora intestinal na saúde e em transtornos do SNC.
 
Embora o envolvimento da flora intestinal pareça óbvio, cientistas ainda não sabem explicar com clareza como a comunicação encéfalo-intestino ocorre. Acredita-se que esta comunicação aconteça tanto de forma direta como indireta, e que o aumento da permeabilidade intestinal tenha um papel chave neste processo, haja vista que o afrouxamento de células epiteliais do trato gastro intestinal (GI) promove a troca de substâncias entre o lúmen e a região abdominal (bactérias e produtos do metabolismo das bactérias, extravasando para a cavidade abdominal, enquanto agente imunológicos podem penetrar no lúmen intestinal).
 
A partir do esvaziamento do trato GI, as possibilidades de comunicação tornam-se amplas através da corrente sanguínea e do sistema nervoso entérico. Além disso, o fato de que alterações na flora intestinal durante os primeiros dias de vida contribuem para o desenvolvimento neuronal e de doenças psiquiátricas na fase adulta, é de certa forma alarmante, especialmente devido ao uso inadequado de antibióticos durante os primeiros anos de vida e a alta taxa de partos cesariana praticados no Brasil.
 
No entanto, muitas destas evidências vêm de estudos pré-clínicos em roedores e um considerável acúmulo de informações provenientes de estudos com humanos é necessário para validar estes achados. Faz-se também necessário que as pesquisas sejam mais focalizadas em entender as relativas contribuições das vias imunológica, neuronal e endócrina na comunicação do eixo encéfalo-intestinal e assim desenvolver ferramentas inteligentes direcionadas a alvos específicos desta rota de sinalização. No futuro, espera-se que a composição, diversidade, e função de bactérias comensais específicas podem potencialmente ajudar a desenvolver dietas e terapias farmacológicas mais efetivas para o tratamento de transtornos do SNC.

CAMILA DELGADO ANDRÉ é nutricionista esportivo e ortomolecular e tem publicações na rede social @camiladelgadonutri. 
 
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