Olhar Direto

Domingo, 23 de fevereiro de 2020

Opinião

A educação pública sob assalto de diletantes

Autor: Carlos Américo Bertolini

04 Fev 2020 - 08:00

É notória a atitude de desprezo pelas instituições, leis, normas e regulamentos que o comandante do poder executivo estimula. Ainda que um presidente tenha obrigações com a constituição, alguns se acham no direito abusivo de solapar a sua legitimidade, empregando as mídias sociais como se fossem um espaço à margem das leis. A nova política, alardeada por seus correligionários e amplificada por seus seguidores fanáticos, é tão nova quanto a irresponsabilidade de muitos governantes na Nova República.
 
Dentre as medidas que merecem o repúdio daqueles que defendem os espírito republicano e democrático, como caminho para organizar o consenso e enfrentar os monumentais problemas que afligem nosso país há décadas, uma das mais nocivas contribuições, com intuito de paralisar a aplicação de medidas urgentes, foi a contribuição tucana engendrando a possibilidade de reeleição dos ocupantes de cargos eletivos.
 
Se o perfil das atuações dos políticos profissionais foi nefasto, a reeleição trabalha para perenizar as alianças partidárias mais espúrias e os arranjos de conveniência, prolongando nossa agonia diante de uma sociedade que ainda não viveu a participação cidadã qualificada. Dentre os inúmeros vícios que ela sustenta, está o exemplo de nosso sebastianista da era digital que, após um ano de mandato, ainda não desceu do palanque eleitoral. Será que o seu comportamento irregular e improcedente vai continuar pelo resto deste mandato, repudiando sérios diagnósticos da realidade nacional, encastelando-se em sua bolha de privilégios e benesses, a bem de sua aspiração inequívoca de se perpetuar no cargo?
 
Dentre os inúmeros assaltos ao exíguo patrimônio institucional da Nova República, se destaca a ação de seu preposto na condução das questões educacionais. Além da desconsideração assídua dedicada aos educadores profissionais, percebemos uma clara definição pela demolição dos anteparos democráticos erigidos para proteger os espaços educacionais da ação de oportunistas e aprendizes de feiticeiros, digo oráculo astrológico. Trazer para os espaços escolares cidadãos sem o devido preparo, quer dizer, sem o contato com a reflexão científica sobre didática e educação, pela simples valorização ideológica de sua vocação autoritária e antidemocrática é fazer o relógio do tempo marcar épocas passadas.
 
A atual intenção de obrigatoriedade de ensino religioso em escolas públicas, bem como o retorno de militares da ativa, ou aposentados, sem a devida qualificação pedagógica é de uma rotunda ignorância e signo do despreparo do líder e daqueles que aceitam tal arbitrariedade. Mas não há sequer o benefício da dúvida a se atribuir aos defensores do extermínio educativo, pois esta lenga-lenga de diletantes já foi moeda de barganha partidária em outros momentos da história da república: a ditadura varguista denominada de Estado Novo (1937-1945) e a ditadura mais recente, aquela conduzida por patrióticos americanófilos (1964-1985), que almejavam destruir a alegada herança do inimigo de décadas, o citado Getúlio Vargas.
 
Nestas duas páginas tenebrosas de nosso passado político, independente da variação discursiva dos líderes dos dois momentos liberticidas, foi franqueado o acesso às escolas públicas a profissionais completamente alheios ao metier da educação. Portanto, impor às escolas a guerra ideológica do campo da pugna partidária, sob a alegação de que os educadores estavam procedendo a propaganda política em benefício de inimigos da pátria, é um argumento anacrônico, pois revive as alegações postuladas há décadas atrás. Se transferir a luta partidária para dentro das escolas funcionasse como afirmam estes diletantes, o Estado Novo ainda estaria em vigor, como foi em Portugal, em que ele durou de 1933 a 1974. Se a militarização do ensino, também aplicada nestas duas oportunidades, fosse eficaz, ainda estaríamos no vivendo numa ditadura, como aconteceu na Espanha entre 1939 e 1975.
 
O leitor pode perceber que o presente analista afirma, com todas as letras, que nosso presente é mesmo uma tragédia grega do período clássico, como o mito de Sísifo. Este embuste já foi empregado pelos governantes liberticidas duas vezes na história política nacional, cujos protagonistas nem tiveram o brilhantismo de criar estes absurdos de moto-próprio, copiando-os de países europeus bem atrasados. A sensação de deja vu é de múltipla fonte, incluindo os países que os implementaram na década de 1930, e os dois momentos das respectivas cópias abrigadas no passado nacional.
 
Os leitores que argumentarem que o nosso contexto é muito diferente daquele de países europeus citados podem ter razão em um argumento central: trazer para os espaços públicos personagens autoritários de farda e evangelizadores inexperientes satisfaz uma das maiores demandas sociais represadas em nossos tempos: a falta de empregos formais e a vontade dos educadores diletantes de auferir um complemento em seus minguados proventos de aposentados.
 
Nenhum cidadão decente concordaria com o papel que tomaram para si estes diletantes voluntários, se não fosse a profunda crise econômica, a escandalosa concentração de propriedade e de renda, e a  atual polarização ideológica, que permitem lançar na cena pública qualquer solução impertinente, sob o manto da justificativa partidária de combater os inimigos políticos, os vermelhos.
 
A tragédia que tais situações históricas desencadearam, lançando o discurso de ódio mútuo entre os cidadãos conterrâneos, obriga os setores democráticos e as autoridades realmente republicanas a repudiar estes assaltos imorais e ilegais. Essa é uma história muito velha, mesmo brandida sob a mentira de se tratar de uma nova política...
 
 
Bacharel em Ciências Econômicas (IFCH/UNICAMP/1980); Mestre em Educação (IE/UFMT/2000); Doutor em História (IGHD/UFMT/2016); funcionário público federal, lotado na UFMT (08/1982); e-mail:<cabertolini@gmail.com>.