Olhar Direto

Domingo, 23 de fevereiro de 2020

Opinião

O fim do período de defeso

Autor: Rubem Mauro Palma de Moura

05 Fev 2020 - 08:00

Muitos confundem período de defeso com a piracema.
 
A piracema é caracterizada como a movimentação dos cardumes rio acima, queimando a gordura adquirida na farta alimentação nas áreas ribeirinhas inundadas, desenvolvendo assim o seu aparelho reprodutor. Com as condições climáticas ideais, quando as precipitações intensas se transformam em aumento de vazões nos rios, esses cardumes começam a descer os rios, as fêmeas desovando e os machos lançando o esperma, fecundando-os. Nos aqui, chamamos esse processo de rodada, no entanto em algumas literaturas é caracterizado também como piracema.
 
Já o período de defeso, é uma legislação que estabelece um determinado período de tempo, para que uma parcela considerada ótima de peixes, complete a perpetuação das espécies. No entanto ela não legisla sobrea natureza e muitos peixes ainda continuam no processo de piracema ou rodada, como nós aqui conhecemos. Como as precipitações este ano estão 30% menores, muitos peixes ainda estão desovando e como a planície pantaneira ainda não inundou, uma parcela considerada de ovas fecundadas não se transformou em vida.

A não aprovação até hoje do projeto “Cota Zero”, irá provocar uma carnificina nas poucas espécies que ainda existem, agravando ainda mais a diminuição dos cardumes em nossos rios. Alias sobre isso, um amigo que inclusive já foi Secretário da SEMA, pontuou-me que deveria ser chamado de “Transporte Zero”, pois o que está sendo proposto  não é a proibição da pesca, e sim o seu transporte e comercialização. Eu há mais de 15 anos que não trago peixe, degusto-o no local.

Articulistas têm escrito que a falta de peixe é por causa da proibição da pesca do dourado, do numero excessivo de jacarés e das Hidroelétricas. Há 350 anos, quando não estávamos por aqui, dourados, jacarés e todas as espécies de peixes, viviam em harmonia com o ambiente. O bicho homem é que está provocando desequilíbrios na natureza. Citam a APM Manso como a responsável, porem ela não interfere no Rio São Lourenço, Piquiri e Paraguai, e tantos outros, onde os cardumes diminuíram drasticamente.

As atividades humanas como, por exemplo; esgotos urbanos e industriais, agricultura, pecuária, desmatamento, resíduos sólidos, garimpos, hidroelétricas, etc, impactam o meio ambiente, mesmo que procedam da maneira mais correta e passam por licenciamento ambiental.

No entanto, a atividade da pesca, tanto amadora quanto profissional, tem retirado dos rios já impactados pelas atividades citadas, mais do que ela é capaz de repor. A Pesca usando apetrechos proibidos e em época impróprias, praticadas por profissionais que recebem o salário no período de defeso para proteger os cardumes e não o fazem, é uma das causas da escassez dos peixes. Porem, mais recentemente a implantação das cevas e tablados, foi o tiro de misericórdia nos peixes de escama. Toneladas de soja e milho são disponibilizadas aos cardumes, uma alimentação que não fazia parte da sua dieta natural, que fez com que o peixe tendo essa fartura de alimentos, deixasse de subir os rios, queimando gordura e desenvolvendo o seu aparelho reprodutor e sendo presa fácil aos mais inexperientes dos pescadores. Matamos ai a piracema e a rodada e por consequência a perpetuação das espécies.  


Rubem Mauro Palma de Moura é Engenheiro Civil pela UnB, com especialização em Hidráulica e Saneamento pela USP, Mestrado em Ambiente e Desenvolvimento Regional pela UFMT e PANTANEIRO.