Olhar Direto

Quinta-feira, 04 de março de 2021

Opinião

Zero em logística

Autor: Luiz Henrique Lima

15 Fev 2021 - 08:00

Mal começou e tendo atingido apenas 2% da população brasileira, o processo de vacinação contra a Covid-19 está ameaçado de interrupção e sem data certa para voltar. O motivo do apagão? Faltam vacinas. Das poucas que chegaram e foram aplicadas, a maior parte teve origem na negociação entre o governo de SP, o Instituto Butantan e o laboratório Sinovac, e que foi combatida e sabotada em múltiplas declarações e ações por representantes do governo federal.

Evidentemente, temos que expressar gratidão a todos os que, de múltiplas formas, se empenharam para que pelo menos possam ter sido imunizados os profissionais de saúde que estão atuando na linha de frente do atendimento aos enfermos, bem como os idosos com idade avançada e outros grupos de risco.
Mas 98% dos brasileiros continuam vulneráveis ao terrível vírus e suas mutações que já vitimaram mais de 230 mil dos nossos entes queridos.

Não se pode alegar surpresa. Há mais de um ano, em fevereiro de 2020, o então Ministro da Saúde declarou emergência de saúde pública no país. Dias antes, a OMS fizera o mesmo em escala internacional. Desde então, o mundo civilizado dedicou-se a pesquisar a fabricação de vacinas eficazes na prevenção da doença, bem como a planejar a logística para aquisição e distribuição das vacinas.

A logística da vacinação não tem mistério para os brasileiros. Temos inúmeras experiências bem sucedidas de vacinação em massa contra a poliomielite, a gripe, o sarampo etc. Ao nascer, toda criança brasileira recebe um caderno de vacinação com orientações sobre as vacinas que deve tomar e no qual são registradas as doses que recebeu. Todas essas vacinas são disponibilizadas de forma universal e gratuita na rede pública de saúde em todo o país. Tudo isso foi construído ao longo de um século, desde que Rodrigues Alves incumbiu Oswaldo Cruz de organizar a vacinação contra a varíola. Em trabalhos de auditoria que desenvolvi no TCU, tive a oportunidade de conhecer a excelência na fabricação de vacinas pela Fundação Oswaldo Cruz em Manguinhos.

Infelizmente, quando o Brasil foi atingido pela maior pandemia de sua história, alguns dos seus líderes mostraram conhecimento zero em logística.

Ao contrário de nossos parceiros no BRICS - indianos, russos e chineses - não houve investimento público relevante para desenvolver uma vacina brasileira. Tampouco houve a habilidade diplomática para negociar com os laboratórios responsáveis pelas pesquisas mais promissoras de modo a assegurar um fluxo tempestivo e seguro de fornecimento de vacinas e de insumos capaz de atender às necessidades nacionais.
Dois episódios ilustram a inaptidão governante.

A Covax é uma iniciativa global liderada pela OMS para garantir o suprimento de vacinas a preços justos a 145 países. Cada país tinha a opção de assegurar vacinas para 10 a 50% de sua população. O Brasil optou pela cota mínima de 10% e não conseguiu suprimento alternativo. Resultado: as vacinas da Covax começam a ser distribuídas em março, mas o país receberá muito menos doses do que se tivesse optado por uma cota maior. E para obter uma cota extra, somente após ter sido atendida a demanda de todos os que reservaram antes.

Em setembro de 2020, um dos principais fabricantes, a Pfizer-BioNTech, ofereceu oficialmente ao governo brasileiro a possibilidade de reservar com antecedência dezenas de milhões de suas vacinas. Até janeiro, não tinha obtido resposta e outros países concluíram a negociação.

Nos dois casos, ficamos no fim da fila. O atual ministro indaga o porquê da pressa em vacinar e mais de mil brasileiros morrem de Covid a cada dia.

A revista Lancet, uma das publicações científicas de maior prestígio internacional na área da saúde, publicou estudo estimando que 40% das mortes por Covid-19 nos Estados Unidos poderiam ter sido evitadas caso o governo Trump tivesse adotado medidas preventivas ao seu alcance e que lhe foram recomendadas pela comunidade científica. Chegará o dia em que essa avaliação e responsabilização terá que ser feita em nosso país.
 
Luiz Henrique Lima é Conselheiro Substituto do TCE-MT.
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