Olhar Direto

Quinta-feira, 04 de março de 2021

Opinião

A retórica política e a demagogia política

Autor: Julio Cezar Rodrigues

16 Fev 2021 - 08:00

Comecemos esta opinião com um pequeno resgate histórico da fala de um agente político muito importante: “não devemos ter medo de bombas e mísseis atômicos. Não importa o tipo de guerra que possa vir – convencional ou termonuclear -, vamos vencer. (...) se os imperialistas deflagrarem a guerra contra nós, podemos perder mais de 300 milhões. E daí? Guerra é guerra. Os anos vão passar, e vamos trabalhar para produzir mais bebês do que nunca”.

O trecho acima não é de autoria do atual Presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Alguém poderia imaginar a repercussão hoje de uma fala apenas com certa proximidade semântica com a acima transcrita? Veja-se que uma resposta às provocações de Biden e Macron ano passado, em que Bolsonaro ousou dizer que “quando acabar a saliva, tem que ter pólvora, se não, não funciona. Precisa nem usar a pólvora, mas precisa saber que tem”, trouxe inúmeras críticas por parte dos analistas políticos da mídia mainstrean, além de inundarem as redes sociais com deboches e piadas por parte da turma do “selo azul” que marca a bolha da “lacração” dos ditos progressistas. Pois é, neste mundo de hoje, assolado e imbecilizado pelo politicamente correto, um Chefe de Estado de uma Nação soberana não pode mais responder à altura outros Chefes de Estado quando fazem uso de demagogia barata e desqualificada. Tempos sombrios.

O trecho transcrito faz parte de um discurso de Mao Tsé Tung em 1957. Líder vitorioso da Revolução Comunista na China em 1949, o “Grande Timoneiro”, como ficou conhecido, procurava estabelecer a proeminência chinesa em um mundo polarizado entre as Nações capitalistas lideradas pelos EUA e as comunistas sob influência da antiga URSS. EUA e URSS já eram potências nucleares e a China ainda não havia produzido seu arsenal nuclear. Mao sabia que a China não tinha capacidade militar para fazer frente ao poder militar dos norte americanos (havia saído de uma espécie de “empate técnico” ao apoiar a Coreia do Norte na Guerra da Coreia de 1950-1953) e estava com relações diplomáticas bastante deterioradas com a URSS, sob o comando de Khrushchev (sucedeu Stalin em 1953).

Demagogia é um termo que significa literalmente a arte de conduzir o povo. Em ciência política tem o sentido de utilização pelos agentes políticos de uma “retórica passional apelativa para obter poderes políticos”. Na prática, é importante procurar-se reconhecer e diferenciar a retórica como a arte da persuasão por meio das palavras que utiliza a linguagem de forma eficiente para construir uma argumentação com vistas ao convencimento ou para influenciar a deliberação e a tomada de decisões, da simples demagogia oportunista e que objetiva apenas a tomada ou permanência no poder político. Esta infesta cada vez mais nosso mundo político.

Mao Tse Tung e Jair Bolsonaro não estavam fazendo demagogia. A China estava pressionada pelos EUA e URSS, além de sofrer uma sequência inimaginável de humilhação durante boa parte do século XIX até o fim da 2ª Guerra Mundial. Mao precisava dissuadir seus inimigos e ganhar tempo até conseguir entrar para o seleto clube das potências nucleares. Havia um projeto para isso. Contrário senso, Jair Bolsonaro, como Chefe de Estado de uma soberania, estava e está sendo vítima da mais pura demagogia de líderes fracos. A diferença é que, ao contrário da China da década de 1950, nosso País desistiu de ser uma potência nuclear. Assim, a capacidade de dissuasão militar nacional é baixa e o País tende a depender da diplomacia e de uma complexa dinâmica de relações internacionais que envolve uma política de alinhamento automático ou seletivo com determinadas Nações. Em princípio, com aquelas que possuem sistemas políticos semelhantes, mas a regra não é absoluta. Se, vítima de políticas contundentes e agressivas por parte dos EUA ou França, notadamente com a agenda ambiental dos progressistas, o Brasil poderá, em tese, passar à esfera de influência de uma Rússia ou mesmo da China, por exemplo (embora com baixa probabilidade de tal cenário).

Nesse sentido, importante destacar que recentemente (05/02/2021), a Rússia criticou a "retórica muito agressiva" do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, por garantir que a relação de Washington com Moscou mudará e que vai exigir a libertação do opositor Alexei Navalny. "Esta é uma retórica muito agressiva e pouco construtiva", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov (disponível em https://www.correiodopovo.com.br). A Rússia não teme uma intervenção militar em seu território por parte dos EUA, mas a influência norte americana, via OTAN, na Europa central e oriental, é fonte de preocupação contínua para Putin, porque este sabe, como bom estrategista geopolítico, que ameaça militar é apenas uma das formas de uma Nação soberana ser pressionada.

Dito isso, penso que as forças políticas deste País, sejam elas alinhadas à esquerda, centro ou direita, conservadoras, liberais ou progressistas, precisam, urgentemente, modificarem a percepção na área da Defesa Nacional e suas implicações. A luta pela garantia da Soberania do País deve estar acima das divergências doutrinárias. Mao, embora comunista, era um nacionalista ferrenho. A esquerda progressista brasileira precisa abandonar essa agenda globalista e fincar os pés no mundo real: na real politik.

Nesse aspecto, a política de relações internacionais do atual governo também deve convergir para lutar pelos INTERESSES do Brasil, evitando considerações dos aspectos internos das outras Nações soberanas. Mesmo sendo uma nação democrática e capitalistas, os EUA deram o primeiro passo em 1971 para uma aproximação da China comunista depois de vinte anos de afastamento e sem relações diplomáticas. Por que? Pragmatismo. Abertura de novas rotas de comércio. Vejam o que era a China nessa época (PIB inferior ao do Brasil) e atualmente segunda potência mundial.

A História está repleta de exemplos que permitem, guardadas as mudanças geopolíticas e tecnológicas do tempo presente, aprender com os erros e acertos daqueles líderes que nos antecederam. Atitudes como a de Marina Silva encaminhando documento para o Presidente da França solicitando intervenção no País ou mesmo o tal dossiê entregue a Biden por uma tal de Rede dos EUA para a Democracia no Brasil, com assinaturas de entidades brasileiras, são um péssimo exemplo de ataques internos à nossa soberania. Essa gente perdeu o mínimo de sentimento de identidade e patriotismo que forma uma Nação. Causa espécie que Nações comunistas, as quais, em tese, se estruturam sob os auspícios da doutrina marxista que propõe a expansão do comunismo e advoga a existência de um proletariado internacional, na prática defenderem os interesses do seu Estado-Nação.

Henry Kissinger em seu livro “Sobre a China” destaca a “fé” que Mao possuía no sucesso de sua Revolução, a qual provinha de três fontes, a saber: ideologia, tradição e nacionalismo chinês. Marx deveria estar se revirando no túmulo com essa trindade maoísta. A esquerda globalista que infesta as democracias ocidental, ferramenta e instrumento dos interesses de uma elite mundial que não possui mais atração por  economias de mercado, devem acordar de seu sono letárgico e encerrarem essa estratégia insana de destruição dos Estados-Nação soberanos. No caso brasileiro, ou o país organiza as atuais forças heterogêneas e divergentes em torno de uma causa comum, qual seja, a manutenção dos objetivos nacionais permanentes, ou estaremos fadados a virar um país, agora sim, vassalo de interesses das potências estrangeiras, atrasado e subdesenvolvido.
 
 
Julio Cezar Rodrigues é economista e advogado (rodriguesadv193@gmail.com)
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