Olhar Direto

Quinta-feira, 04 de março de 2021

Opinião

Hospício nacional da linguagem política

Autor: Julio Cezar Rodrigues

23 Fev 2021 - 08:00

Ao contrário do que você possa imaginar, a política não é, necessariamente, o terreno da razão e da lógica. Reina nessa fauna as paixões, os sentimentos e as vontades. Em verdade, todos os estados de espírito são mascarados sob a forma de raciocínios aparentemente fundamentados em uma lógica coerente. Ledo engano.
 
Este breve preâmbulo está consignado com o intuito de comentar um fenômeno cada vez mais comum no mundo político brasileiro e mundial: a linguagem política não mais expressa a verdadeira natureza dos conceitos utilizados para balizar o diálogo político. Termos e conceitos são transformados em armas para serem usados na eliminação do interlocutor e adversário de uma visão de mundo diferente. Perdeu-se a ligação entre os elementos que tornam a linguagem compreensível, ou seja, de certa forma os objetos não mais têm relação com seus conceitos ou estão de tal forma deformados que se prestam a qualquer coisa, menos descrever seu significado real. Tal se torna mais complexo ao tratar-se dos universais ou conceitos abstratos.
 
Pergunto ao leitor se ele percebe as nuances entre falantes quanto se referem a determinados objetos: será que um militante socialista e um intelectual conservador possuem a mesma compreensão sobre termos como democracia, liberdade, igualdade, justiça social, fascismo, marxismo, comunismo, ditadura, direita, esquerda, centro e tantos outros elementos da organização política?
 
Exemplo simbólico do que falo é o termo fascismo sendo utilizado para qualificar qualquer oponente político do campo conservador ou à direita. Dirigir-se ao interlocutor como “fascista” tem o mesmo poder verbal que empregar algumas das palavras de baixo calão comuns na linguagem cotidiana e inculta. Por quê? Seria presunção deste articulista lançar como hipótese a ignorância da maioria sobre o que é fascismo? Pelo fato de não ser simples sabe-lo, reside a questão de que seu uso não deveria ser banalizado ou utilizado como pedra lançada em adversários que possuem visões de mundo diversa.
 
O que dizer de nazista ou genocida? Igualmente, o termo comunista é empregado pela direita para qualificar oponentes. Todos à esquerda do espectro político são comunistas? O adjetivo extremo também tem o seu uso como qualificador das orientações políticas: o que compõe a extrema esquerda ou a extrema direita ou o centro? Quem defende um regime ditatorial é comunista, fascista ou ambos? Há elementos ou instituições que integraram governos fascistas, nacional-socialistas ou comunistas ainda existentes nas democracias liberais? Se sim, por quê?

Quando um progressista qualifica um conservador como fascista, estaria ele ciente de que o governo chinês, por exemplo, está mais próximo do fascismo de Mussolini do que o comunismo de Marx? Quando os militantes dos partidos de esquerda defendem a CLT como um texto sagrado, sabem que o Governo Vargas se inspirou em muitos elementos da Carta del Lavore (carta do trabalho) do governo fascista da Itália? Veja este trecho do referido documento: “O Estado fascista propõe: 1) A melhoria do seguro contra infortúnios; 2) A melhoria e extensão do seguro maternidade; 3) Seguro contra doenças profissionais e tuberculose, como passagem para o seguro geral contra todas as doenças; 4) A melhoria do seguro contra o desemprego involuntário. 5) A adoção de formas especiais de seguro para jovens trabalhadores”. Notou alguma semelhança com nossa legislação trabalhista? A essência do fascismo era “tudo no Estado, tudo pelo Estado e nada fora do Estado”. Nesse sentido, quem estaria mais próximo de ser fascista: um militante da esquerda que acredita no Estado como solucionador dos problemas ou um conservador que é cético quanto à capacidade de entregar a liberdade individual aos auspícios do Leviatã?

E o governo militar que vigorou no Brasil no período de 1964 a 1985: foi uma ditadura cruel e sanguinária? Os “ditadores” revezaram-se no poder via linhagem de sangue? O poder foi devolvido aos civis ou os “ditadores” o devolveram via processo de abertura para a democracia? Espere... ditadores entregam o poder a civis? Há registro na historiografia de tal feito? Alguém imagina King Jonh-un elaborando um sofisticado esquema de transição de poder? Ou mesmo Hitler ou Stalin à época de seus governos totalitários? Seria honesto, intelectualmente, colocar o regime militar brasileiro no mesmo “saco” das ditaduras que povoaram a história da humanidade? Veja o disse o criminoso de São Bernardo do Campo – Lula, sobre o Governo Médici em entrevista ao "Bom Dia Brasil", da Rede Globo (disponível em https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u36910.shtml): "Em 1970, no auge da ditadura militar, em que o presidente Médici andava perseguindo os meus companheiros do PT, nós vivemos o maior boom de empregos da história desse país, a um crescimento de 10% ao ano".

Mais, no recente episódio em que um Ministro do STF expediu um “mandado de prisão em flagrante” (seja lá o que isso significa no direito pátrio) os tipos penais praticados, em tese, pelo Deputado Federal vieram de onde? Da Lei de Segurança Nacional aprovada pelo Governo Figueiredo em 1983. Mas... espere... um regime democrático utiliza como base jurídica para realizar uma persecução penal em desfavor de um parlamentar protegido pelo manto da imunidade material um diploma legal oriundo de uma ditadura? Nada produzido pela democracia pós 1988 poderia ser utilizado para tal mister? “Ditadores sanguinários” que elaboraram um diploma com a natureza do Ato Institucional nº 05 foram capazes de produzirem uma Lei de Anistia Ampla Geral e Irrestrita e uma Lei de Segurança Nacional ainda utilizada no regime “democrático”? Há registros na História de tais feitos? Um integrante da Suprema Corte, recentemente, qualificou o atual Presidente da República como “nazista”. A que se referia o Ministro? O que ele entende por “nazismo” e sob quais atos do Presidente formou tal juízo? Quereria o Ministro, na impossibilidade ética e criminal de utilizar um termo de baixo calão, feito uso da palavra “nazista” com tal propósito? Só podemos especular, contudo, quando analisado sob um contexto mais amplo, é possível inferir outras conclusões. Deixemos para a imaginação do sábio leitor.

Por que a esquerda faz questão de lembrar e nominar o movimento civil-militar de 1964 como “golpe de Estado” e olvida mencionar que a República foi implantada em 1889 através de um golpe civil-militar? Há golpes bons e golpes ruins? Quando se referem ao Presidente da República como “genocida” estão a compará-lo com genocidas da qualidade de Stalin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot ou Hitler? Teria Jair Bolsonaro executado um abrangente plano de extermínio deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas? Criou o famigerado Presidente campos de extermínio como os gulags soviéticos ou algo como Auschwitz de Hitler? Caso contrário, qual o motivo de tal acusação?

“Atitudes anti-democráticas”, eis a “bola da vez” no admirável mundo novo da lacrosfera do selo azul. O leitor já deve ter percebido que a esquerda progressista se apropriou totalmente do termo “democracia”. O que a esquerda entende por democracia? O PC do B quer um país democrático? Se sim, porque dispõe em seu Estatuto que o objetivo da legenda é a “conquista do poder político pelo proletariado e seus aliados, propugnando o socialismo científico. Tem como objetivo superior o comunismo. Afirmando a superioridade do socialismo sobre o capitalismo (...)”? Tal postulado é compatível com o estado democrático de direito? E se um partido político tivesse como objetivo a “implantação do nacional-socialismo, afirmando sua superioridade sobre o capitalismo”, poderia obter sua regularização junto ao TSE? Por aquele é tolerado e este, certamente, não o seria?

Os exemplos encontram-se aos milhares distribuídos nas análises, comentários e falas de formadores de opinião, jornalistas e intelectuais. A coisa toda ganhou enormes proporções com o advento das redes sociais e os canais do youtube. A pergunta é: o que fazer? Como sobreviver em meio a esta avalanche de nomes que não mais descrevem uma realidade ou objeto identificável com sua verdadeira natureza? A resposta é uma só: estudar os principais movimentos da história para formar um entendimento mínimo que lhe capacite avaliar se os termos estão sendo utilizados de forma honesta. Também é importante avaliar o contexto em que a mensagem está sendo transmitida e, principalmente, perscrutar as eventuais intenções do mensageiro. Quem é esta pessoa? Qual sua visão de mundo? Como se posicionou em outros eventos ou fatos? Quem são suas fontes? Pertence a alguma agremiação partidária, ONG, think tank ou milita em nome de alguma causa?

Em sua obra seminal “1984” George Orwell narra a história de uma sociedade em que as pessoas vivem aprisionadas na engrenagem totalitária completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Neste Estado existe um “Ministério da Verdade” cujo encargo é produzir falsificação da história e modificá-la de acordo com os interesses do “Grande Irmão”. Chama a atenção o fato de que a distopia criada por Orwell ainda na década de 1940 parece traduzir o caminho da sociedade do século XXI.  Nunca a verdade foi tão manipulada e ofuscada. Substitua o “Ministério da Verdade” pelos “Intelectuais Iluminados da Verdade” e tem-se um espelho do hospício linguístico em que vivemos.
 
 
Julio Cezar Rodrigues é economista e advogado (rodriguesadv193@gmail.com)
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