Olhar Direto

Sexta-feira, 30 de julho de 2021

Opinião

Boletos sempre vencem. Fim do jogo!


O ponto é que o prazo maior para pagar as dívidas ficou para trás e os boletos voltaram a vencer.

Pior: e quando o auxílio emergencial acabar; ele, que sustentou boa parte da população no pior da crise? A conta de luz ajuda a entender o que pode rolar.

Quando os R$ 600 do auxílio emergencial começaram a pingar nas contas dos brasileiros mais pobres, lá em abril e maio, o índice de atrasos nas contas de energia caiu. A Aneel (a agência reguladora do setor elétrico) chegou a falar em inadimplência negativa, que acontece quando clientes pagam mais do que devem no mês – são as faturas que estavam atrasadas e foram pagas junto com as do mês.

Em dezembro, quando o auxílio foi reduzido para R$ 300, os atrasos voltaram a subir. Dados da Aneel, divulgados pela agência Reuters, apontaram que, entre 1° e 25 de setembro, a inadimplência no setor elétrico foi de 3,05%. Em agosto, o último mês em que o auxílio foi pago pelo valor maior, os atrasos estavam em 0,79%.

Então, juntando os dados dos bancos com essa leitura da conta de luz, dava para afirmar que, sim, em 2021  teria mais atraso. A questão é: quanto?

Dobro ou nada?

“Prever a inadimplência é como prever câmbio. Se fosse fácil, não tinha [calote], a gente consertava antes”, afirma João Dantas, diretor financeiro do BTG.

E ele é uma das raras pessoas que não acreditam em alguma alta digna de nota da inadimplência. O motivo é o baixo endividamento do brasileiro – as dívidas não chegam a comprometer 50% da renda de 12 meses; em países ricos, essa taxa ronda 100%.

Outro dado que mostra o menor risco de calotes é o quanto da renda mensal é comprometida com dívidas. Também segundo dados do Banco Central, essa taxa está em 21% – o consenso é que os débitos passam a preocupar quando consomem mais de 30% da renda.

Uma projeção mais pessimista é de Claudio Gallina, responsável pelo acompanhamento do setor bancário na Fitch Ratings. Para ele, a inadimplência deve praticamente dobrar no próximo ano. Ou seja, ela pode se aproximar dos 5%. E isso é mais que o ponto alto da curva do Banco Central.

Se parece improvável, não custa dizer que essa alta nos calotes já aparece, ainda que de forma tímida. É que a média das taxas de juros subiu (último dado disponível até o fechamento deste artigo).

E juro em alta é o jeito de o banco dizer que até te empresta dinheiro, mas acha que vai ser mais difícil receber de volta. Por isso, precisa cobrar mais caro.

A alta foi modesta, de 18,1% em setembro para 18,7% em outubro, mas disseminada por linhas de crédito para famílias e empresas.

Não é só o aumento nos juros que dificulta a busca por crédito. O foco voltou para as linhas com garantia, como crédito imobiliário, financiamento para a compra do carro ou consignado, que desconta as parcelas direto no contracheque, e costuma ir mais para quem tem renda garantida, como aposentados e funcionários públicos. Isso reduz o risco de calotes e também a quantidade de dinheiro que os bancos têm de separar para cobrir os buracos que vão se abrindo.

Há uma outra preocupação em evitar a inadimplência. Essa reserva para cobri-la reduz o lucro das instituições. Esse é o ponto de Gallina, da Fitch. Os bancos estão preparados, mas isso custa dinheiro, a rentabilidade cai e o investidor lá na bolsa detesta quando ganha menos.

Isso está devidamente impresso nas ações dos bancos brasileiros. Os grandes registram quedas na bolsa neste ano e em magnitude bem superior à do Ibovespa. Bradesco e Banco do Brasil caem mais de 30% no ano, Itaú e Santander, ao redor dos 15%. E o Ibovespa está apenas 5% abaixo do patamar em que virou de 2019 para o fatídico 2020 (com dados de 30 de novembro).

Aí é hora de correr atrás desse prejuízo, e o jeito de fazer isso é mostrar para o investidor que as coisas estão normalizando. Isso implica voltar a cobrar as dívidas.

E aqui entra as ligações infindáveis e o aborrecimento que toda pessoa passa ao atrasar alguma dívida.
Solução trabalhar com um jurídico preventivo. A bomba sempre estoura.
 
Fabianie M. Mattos Limoeiro, Escritora e advogada Civilista Especializada em Direito Bancário, há 18 anos e Administradora Judicial no TJMT. Presidente da Comissão de Direito Bancário na ABA-MT. IG:@fabianiemattoslimoeiro –www.mattoslimoeiro.com.br
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