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Sexta-feira, 24 de junho de 2022

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briga de imortais

Primeira disputa pela presidência da AML em cem anos tem projetos opostos e guerra nos bastidores

Foto: Reprodução / Rogério Florentino

Cristina (esq.) e Sueli (dir.) são candidatas à presidência da AML

Cristina (esq.) e Sueli (dir.) são candidatas à presidência da AML

No próximo dia 21 de setembro, trinta e oito imortais da Academia Mato-Grossense de Letras vão escolher quem vai para presidir a casa nos próximos anos. Pela primeira vez desde sua criação, em 1921, disputa não tem chapa única e dois grupos disputam a eleição. Os ânimos exaltados e opiniões diversas que permeiam a situação conseguiram passar pelas frestas das portas da Casa Barão de Melgaço e chegar até a mídia. De um lado, denuncia-se notas 'plantadas' na imprensa para atingir uma candidatura. De outro, o advento do conservadorismo. Dos dois, há a reclamação de que tentativas de reconciliação são frustradas pelo lado oposto.

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A primeira pessoa a se candidatar foi a mestre e doutora em educação, com interface na literatura e foco Manoel de Barros, Maria Cristina de Aguiar Campos. Imortal da Academia desde 2015, ela conta que decidiu se concorrer porque, como está aposentada, gostaria de fazer um trabalho voluntário.

“Mas eu não sou da área da saúde, não sou da área da assistência, quer dizer, minha área é cultura, educação, literatura, e eu já estou na Casa. E eu vejo que a casa precisa se organizar administrativamente. Acho que ela precisa se abrir mais”, declara. Junto a ela, na chapa, estão Olga Maria Castrillon Mendes (1ª Vice-presidente) e Fernando Tadeu de Miranda Borges (2º Vice-presidente), além de diversos outros nomes, no que consagrou-se chamar de ‘grupo da literatura’.

“A Olga Castrillon Mendes é da Unemat, e o Fernando Tadeu, da UFMT, pró-reitor de cultura, e eu sou aposentada do IFMT. A intenção com isso é criar uma espécie de parceria interinstitucional, para poder levar a Academia para as escolas, e, principalmente, para o interior do Estado, e trazer os jovens, os professores”, afirma a candidata.

Do outro lado está Sueli Batista, formada em jornalismo, com pós-graduação em metodologia e didática do ensino superior, MBA, além de formação como coach, empresária há mais de trinta anos e criadora de algumas ONGs no estado. Sueli é imortal desde 2014, e já trabalhou na diretoria das duas últimas gestões da Academia. Para ela, o que a Casa precisa é de gestão administrativa com foco no ‘macro’.

Sueli conta que não se candidatou, mas foi, na realidade, convidada. “A gestão atual me chamou, porque houve uma candidatura [de Cristina] quando nem tinha aberto o edital, a pessoa chegou na reunião, e se lançou candidata”, afirma. “No primeiro momento eu falei não, no segundo momento eu falei não, e no terceiro momento eu atendi ao chamado, porque eu atendo ao chamado com propósito. Eu não faço o poder pelo poder, porque poder - se for analisar - eu tenho muito fora dessas estruturas”.

As duas candidatas divergem sobre o momento e o motivo do ‘racha’ dentro da instituição. Se antes os 40 ‘confrades e confreiras’ se tratavam como irmãos, a indigestão tem tomado conta há alguns meses – mas elas negam que haja uma guerra, e enxergam que exagero no que é passado para a imprensa.

“É uma tendência mais tradicional e conservadora, e uma tendência mais de mudança e renovação, principalmente para o perfil da literatura, de escritores de literatura. Então isso é natural”, comenta Cristina. “Uma tendência à mudança, à abertura que a gente tem, que o artista tem. O artista é sempre mais ousado, são as antenas da raça, tem aquela postura um pouco mais libertária”.

O desconforto, para Sueli, veio de uma declaração da adversária. “A candidata, no ano passado, causou algum desconforto para os mais tradicionais, quando foi perguntado para ela para que servia a Academia, e ela respondeu que não servia para nada. Ali eu me convenci que a casa precisa de uma gestora, e não de uma pessoa que entende de literatura”, afirma. “Isso incomodou um pouco os setores da Academia, porque você há de convir que a Academia não funciona como um grêmio literário, onde as pessoas são mais despojadas. Existem certas tradições que devem ser cumpridas”.

Recentemente, duas notas publicadas na imprensa levaram Sueli a desconfiar que tenham sido plantadas. “Nas duas notas eu era chamada de coach de hipinose, sendo que isso nem existe”, lamenta. “Pode falar que eu não sou um dos maiores nomes da literatura, realmente eu não sou, mas o único livro que eu fiz na área de literatura teve uma repercussão nacional. O ‘Pássaro Passará’ se transformou em CD, algumas poesias foram musicadas. (...) Foi um livro que teve uma repercussão muito grande, até maior do que pessoas que tem cinco, seis livros de poesia”. Além deste livro de poesia, a candidata lembra que já realizou alguns projetos ligados à ‘memória’, e que tem contos e histórias escritos, mas não publicados.

Para Cristina, o outro nome é ligado à gestão atual, que foi ‘parada’. “Na gestão do Eduardo Mahon houve uma abertura – e nesse sentido que a gente gostaria de ver acontecer – e depois houve aquele fechamento da casa para reforma pelo Iphan, a gestão da Marilia ficou bastante prejudicada em função desse fechamento, e agora na gestão do Sebastião Carlos eu acho que está bem parado, precisando de um gás”.

Sueli rebate. “Em primeiro lugar, não vai manter a mesma gestão. Cada pessoa é cada pessoa. Eu tenho certeza que eu sou diferente do atual presidente”, diz. “[Mas ele é] um presidente que, só esse ano, fez dois grandes eventos que eu nunca vi a casa tão lotada na minha vida enquanto acadêmica. [Não tem como] criticar que não tem as portas abertas”.

Propostas

No campo das propostas práticas para a Casa, as chapas também divergem. Cristina Campos montou uma lista com dezoito objetivos específicos, como, por exemplo, regularizar administrativamente a AML (banco, cartório, etc.) a fim de que a instituição esteja apta a propor projetos e ancorar recursos; providenciar o aluguel do prédio anexo da Casa Barão de Melgaço; constituir um condomínio com o IHGMT (projeto antigo ainda não materializado), para facilitar a ancoragem e a administração de recursos, e aproximar as duas instituições irmãs; buscar fontes financiadoras de atividades acadêmicas e projetos, a fim de que a Casa Barão desempenhe efetivamente sua vocação histórica: tornar-se um Ponto de Cultura atuante, dentre outros.
 
A chapa contrária não traz propostas concretas, mas sim cinco ‘pilares’ de desenvolvimento: administrativo-financeiro; produções (dos imortais e da instituição); captações e parcerias para projetos; desenvolvimento de intercâmbios com outras academias; e comunicação e marketing. “Eu montei essa estrutura de pilares para montar o todo, e cada parte do pilar é uma parte que a gente estaria focando pra resolver. Então é isso. Nesse ponto pode me chamar de técnica sim, mas eu também sou uma pessoa voltada para criação”, finaliza a candidata.
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