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VEGANA E SEM GLÚTEN

Após três cânceres, historiadora serve comida saudável e ancestral para vencer novo desafio: esclerose múltipla

da Redação - Isabela Mercuri

25 Jan 2020 - 14:08

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Após três cânceres, historiadora serve comida saudável e ancestral para vencer novo desafio: esclerose múltipla
Há um ano, a historiadora e doutora em sociologia mato-grossense Silviane Ramos Lopes da Silva, 38, se deparou com um novo desafio ao ser diagnosticada com esclerose múltipla. Com quadro de doença neurodegenerativa, após vencer três cânceres e com uma série de restrições alimentares, ela precisou se reinventar e, para isso, usou de sua ancestralidade. Assim nasceu o ‘Tabuleiro da Pérola Negra’, em homenagem à sua mãe e com alimentos para todas as pessoas, boa música e cultura. Segundo sua definição, um ‘Quilombo Urbano’.

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Tabuleiro fica na frente da casa de Silviane (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

Silviane nasceu em Cáceres, e mudou-se para Cuiabá aos treze anos, para estudar. Por aqui, formou-se em história, fez mestrado em história e gestão pública e doutorado de sociologia na Universidade Federal de São Carlos (UFscar). A vida lhe pregou uma peça quando a esclerose apareceu.

“Eu sempre trabalhei com cultura”, contou ao Olhar Conceito. “Trabalhei um pouco na Secretaria de Cultura implementando políticas étnico-raciais, e aí não tem como fugir de falar sobre gastronomia, cultura, música, que são bem peculiares das comunidades quilombolas e tradicionais”.

A ideia de abrir o espaço veio logo depois do diagnóstico. “Foi por uma questão de gestão da sobrevivência e porque eu tenho restrições alimentares, e a comida ancestral é o que a gente tem como pauta do fit, do saudável, do vegano... não é nada diferente do que eu cresci comendo e que me fazia bem quando eu comia. E com essa coisa do frenesi cotidiano de capital, correria, a gente começa a comer os fast foods da vida e acaba ajudando”.

Diante das restrições, ela se voltou ao que conhecia de dentro de casa e dos estudos acadêmicos sobre os ancestrais. Lembrou-se também da mãe, auxiliar dietética da antiga Escola Agrotécnica Federal de Cáceres por 35 anos, que sempre servia os alimentos em casa em um tabuleiro. “Por isso que o nome é, inclusive, Tabuleiro da Pérola Negra. Minha mãe é a Pérola Negra”, explica.

Bolo de mandioca e de cenoura sem glúten (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

Para trabalhar identidade, memória e sabores, ela queria preparar porções que fizessem o cliente se sentir em casa. No início, a ideia era fazer somente um café da manhã, mas como está sempre envolvida com arte, abriu a casa também à noite, para encontros culturais e gastronômicos.

No cardápio, de manhã, estão bolos de mandioca, de arroz, de cenoura e outras iguarias naturais. À noite, há uma variedade de caldos e sementes, além da ‘muamba’, prato típico angolano feito com mingau de milho e fubá, que pode levar legumes ou carnes. Para garantir segurança a quem – como ela – tem restrições alimentares, ela tem duas cozinhas: uma para os alimentos com glúten, e uma para os sem glúten. Assim, não corre o risco de ocorrer contaminação cruzada. Também há opções veganas.

'Muamba' angolana no tabuleiro (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

Quando o sol vai embora o Tabuleiro começa suas noites temáticas: quinta-feira do vinil, sexta dos drinks, jazz e blues, sábado do forró, samba ou MPB e domingo de roda de Samba ou palco livre. A programação é sempre publicada nas redes sociais.

O espaço fica nos fundos da casa de Silviane e, desta forma, ela encontro uma espécie de cura. “Eu acho que é uma forma de curar. Quando você está conversando, quando você está trocando, você dispõe de outras energias, de fluidificar”, afirma. “Eu acredito muito nisso, por isso que eu tenho um jardim cheio de plantas, e me ocupa a mente. Eu elaborando, criando comidas para as pessoas. Porque o elaborar, o fazer, o cozinhar não é só o ato de... Cozinhar é amor, é ter elaborações, pensar no que você gostaria de receber, no que você pode dar, no que você pode ofertar”.

Não que seja fácil. “Eu sempre digo: é um dia de cada vez ressignificando o que é ser um dia de cada vez. Tem dia que eu não estou andando, e a crise da esclerose é assim. Mas chega alguém e eu me esforço, mesmo que tenha dor, para eu poder receber, porque eu também estou aprendendo a lidar com a doença. São duas situações de aprendizagem: a aprendizagem de receber na sua casa com as garantias comerciais, mas sem perder esse espírito acolhedor, e de como lidar com a minha casa-corpo e esse corpo estranho dessa doença que é autoimune e que eu tenho que gerir”.

O espaço ficará aberto para grupos de teatro e de música ensaiarem e, em breve, vai oferecer um home Studio a preços mais acessíveis. No Carnaval deste ano, o ‘Tabuleiro’ vai realizar alguns bailinhos tradicionais.

“É uma proposta de um quilombo urbano. O que era o quilombo? Era um lugar que reunia as pessoas que resistiam a essas frentes de opressão de todas as formas. Então nesse contexto que a gente está também é um respiro”, finaliza.

Silviane com o livro, resultado de seu mestrado (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

Serviço

Tabuleiro da Pérola Negra
Café da manhã: Sábados e domingos, das 7h30 às 11h30
Bar / restaurante: Quinta a domingo, a partir das 19h
Endereço: Rua Aroeira número 210 Jardim Gramado
Cuiabá, Brazil
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