Olhar Conceito

Sábado, 18 de abril de 2026

Notícias | Saúde e Beleza

independência financeira

Inspirado na própria infância cercado pelas mulheres da família, designer cria projeto para formar manicures em Cuiabá

Foto: Reprodução

Inspirado na própria infância cercado pelas mulheres da família, designer cria projeto para formar manicures em Cuiabá
O designer de unhas e especialista em alongamento Renato Costa, 32 anos, cresceu cercado por mulheres que marcaram sua trajetória na periferia de Cuiabá. Filho de mãe solo, criado ao lado de irmãs, tias e primas, ele aprendeu desde cedo o valor da resistência feminina diante das dificuldades da vida cotidiana. Foi nesse ambiente, observando de perto as batalhas pela sobrevivência e pela dignidade, que moldou seu olhar sobre o mundo. Já adulto, essa vivência se transformou em motivação: criou um projeto social para oferecer a outras mulheres a oportunidade de aprender uma profissão e conquistar a independência financeira, rompendo ciclos de dependência e vulnerabilidade.


Leia também 
Poeta mato-grossense faz pré-lançamento de livro com 57 poemas intimistas sobre sonhos e cotidiano

“Sou filho de uma família de mulheres, criado por mãe solo, sempre fui rodeado de muita coisa de beleza, mas nunca me chamou muita atenção. Sou de periferia, via isso de perto na vida das vizinhas também, por exemplo. Quando tive oportunidade mesmo decidi montar algo para fazer diferença. Não parei só aí, hoje tento nos meus cursos de turma deixar um valor que seja mais acessível para que mais pessoas consigam fazer", recorda.

Antes de se dedicar às unhas, Renato passou por outras experiências profissionais, mas nenhuma parecia encaixar e, aos poucos, a insatisfação profissional começou a pesar também na saúde mental. 

“Comecei a trabalhar com vendas, acabou que estava passando por um momento muito difícil de ansiedade, coisas emocionais muito fortes. Minha irmã já trabalha com unhas há muito mais tempo que eu, sempre achei muito legal, porém nunca tinha tentado. O primeiro contato que tive foi através dela. Teve um dia que pedi para ela me ensinar e ela me ensinou, me deu a oportunidade de fazer o primeiro curso, ela cedeu a vaga. Caí de cabeça e decidi tentar, isso tem quatro anos. Se eu tivesse continuado a fazer o que fazia antes, acho que não seria bom para mim emocionalmente. Comecei e graças a Deus tive a rede de apoio familiar.”

As primeiras técnicas eram mais complicadas, exigiam horas de treino e foco,aumentando o nível de persistência que Renato precisou ter para conseguir fazer os primeiros alongamentos com qualidade. Hoje, ele é especialista em uma técnica que promete ser mais prática, tanto para o profissional quanto para as clientes. 

“É o que está mais em alta no mercado, é trabalhoso igual, mas comparado ao que eu fazia no começo, é bem mais prático. Seria não demorar tanto, antes a gente quebrava um pouco a cabeça com a questão da simetria, e essa técnica ajuda a entregar uma simetria com mais agilidade, acabamento mais preciso. Hoje em dia é um mercado que está bem mais moderno do que como era quando eu comecei.”

Se antes um alongamento podia levar três horas e meia, hoje o tempo médio caiu para duas horas. Para clientes que vivem a correria da rotina, esse detalhe faz diferença. “As pessoas vivem na correria, gostam de algo mais prático, às vezes têm só o horário de almoço ou o pós-expediente, já estão cansadas.”

A diversidade do público levou o profissional a desenvolver diferentes estilos, transitando entre a naturalidade e a nail art. Ele explica que, por também atuar como professor, focar em apenas uma vertente seria difícil, por isso realiza desde trabalhos clássicos até produções mais ousadas, com 3D e aplicações. Seu atendimento é voltado, em grande parte, para mulheres jovens e descoladas, incluindo cantoras e fotógrafas, que costumam buscar novidades e muitas vezes já chegam com referências encontradas na internet.

"Faço muita unha com nail art, das mais clássicas às mais alternativas com 3D e aplicações. Hoje atendo muita mulher jovem e descolada, que gosta muito. Tenho cliente que é cantora, fotógrafa… Então, elas amam novidades. Têm muitas clientes que já chegam com a referência que encontraram na internet.”

Apesar do crescimento do mercado e do espaço cada vez maior da nail art entre jovens, Renato lembra que ainda não há tanta adesão masculina em Cuiabá. “Não tenho clientes homens, acredita? Quando comecei tinham alguns rapazes que me procuravam, mas hoje em dia não vejo tanto aqui em Cuiabá, os que vejo pintando, eles vão mais para o tradicional, não optam pelo alongamento, por exemplo. Vejo muitos homens em São Paulo, por exemplo, que fazem alongamento. Aqui em Cuiabá é mais a esmaltação básica.”

Aulas com valor social 

Com o tempo, a carreira de Renato deixou de se limitar ao atendimento e passaram a surgir convites para que ele ensinasse a técnica, o que inicialmente trouxe medo de enfrentar uma sala de aula pela primeira vez. Ele conta que, ao aceitar as oportunidades, descobriu uma paixão que ia além da profissão, percebendo o impacto que podia ter nos sonhos das pessoas e na conquista de independência financeira. 

Começou fazendo demonstrações em lojas, depois passou a fechar turmas e hoje atua como instrutor, oferecendo cursos particulares tanto em seu espaço quanto em outros estados.

"Hoje em dia, tem meninas muito jovens que acompanham nosso trabalho e sonham em fazer o que a gente faz. Mesmo com essa valorização da profissão, tem pessoas que veem como uma alternativa, isso é bacana também, porque possibilita ter uma independência financeira, mulheres que hoje são mães solo, que precisam trabalhar em casa com horário flexível, temos muito esse público. Hoje elas conseguem entrar no mercado depois do curso, tenho esse acompanhamento com elas bem de perto, porque quero que elas realmente entrem para o mercado. É um investimento que fazem e quero que façam dar certo, que conquistem o próprio espaço dentro da profissão.”

O olhar social de Renato nasceu da própria trajetória e do apoio que recebeu da irmã no início da carreira, o que o levou a pensar em formas de devolver essa oportunidade a outras pessoas. Ele explica que, apesar de existirem cursos mais caros, sentiu a necessidade de tornar a técnica acessível.

“Se eu não tivesse tido o apoio da minha irmã, não teria chegado onde estou hoje, trabalhando com algo que amo, sou apaixonado pelo que faço. Comecei a pensar nas pessoas que não tinham essa oportunidade, sempre tive na cabeça a vontade de querer ajudar de alguma maneira. Foi quando liguei uma coisa à outra, porque sempre gostei muito de ensinar. Quando tive oportunidade, comecei a trabalhar com valores mais baixos para que mais alunas tivessem acesso à técnica. Nunca tive medo de passar a informação, porque são histórias muito fortes e é muito bom vê-las conseguindo.”

Dessa ideia nasceu o projeto Conexão Deus, criado para abrir portas para mulheres que não tinham acesso ao ensino especializado. Na primeira edição, o valor foi simbólico: R$ 50 mais um quilo de alimento, reunindo 30 alunas, muitas delas mães solo ou em situação de vulnerabilidade. Renato lembra que ali percebeu o real impacto do projeto: “Foi ali que vi que podia realmente transformar pessoas.”
Entre em nossa comunidade do WhatsApp e receba notícias em tempo real, clique aqui

Assine nossa conta no YouTube, clique aqui

Comentários no Facebook

Sitevip Internet