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Mercearia no bairro popular guarda relíquias e proprietário já foi escoteiro com Pedro Taques

Da Redação - Isabela Mercuri

20 Mai 2015 - 17:05

Foto: Rogério Florentino Pereira / Olhar Direto

Mercearia no bairro popular guarda relíquias e proprietário já foi escoteiro com Pedro Taques
Em meio ao progresso e os prédios do Bairro Popular, cheio de bares e restaurantes badalados, sobrevive em uma esquina a Mercearia Aquino, lembrança de um tempo em que a vida era simples e o bairro residencial.

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Ali na Mercearia está Oriel Aquino, filho caçula de uma família de sete irmãos: Oadir, Odair, Odemir, Ortêncio, Odenilza e Orieta. Cuiabanos de ‘chapa e cruz’, a família está no local desde 1951, e o comércio já foi de seu pai e seu irmão: “Antes tinha outro nome, né? Chamava Bulixo”, conta Oriel.

Ele mostra contente um registro que foi feito há vinte anos, em um jornal da capital, que falava sobre a verticalização da cidade. Em seu depoimento na época, ele afirmava que era flexível, dependendo da proposta ele poderia vender. Já sua vizinha dizia que podia ‘pintar e bordar’ mas não saía dali. Ela saiu, ele ficou.

“Minha mãe tem 89 anos hoje e ela sempre ensinou a valorizar o que foi conseguido com esforço. Ela trabalhou muito para ter este terreno, e acho que por isso não vendemos”, conta o comerciante. Logo que seu pai, Odemir Aquino, comprou o terreno de seu padrinho, eles eram donos de cerca de 1000 metros quadrados.

Hoje, são 600 metros formados pela mercearia, a casa de Oriel, a de sua mãe Eudes dos Santos Silva e uma casa que está para alugar (lugar onde Oriel nasceu).

“Na época era comum ter terreno grande assim. A galera chamava de quintal, né? Tinha plantação de coco, de pariparoba [uma espécie de couve], além de criação de galinha, cachorro... o vizinho aqui, onde agora é um estacionamento, tinha criação de porco”, conta o cuiabano.

O ‘progresso’ chegou e trouxe com ele suas conseqüências. Como bom cuiabano que é, Oriel não reclama de sua nova vida, mas afirma: “O progresso tem suas conseqüências, tudo tem seu preço. Para os que precisavam desse crescimento foi bom, mas o estilo de vida em Cuiabá passou de cidade pequena para cidade grande”.

Vida de escoteiro



Um dos grandes orgulhos de Oriel foi sua vida como escoteiro. Ele é um dos poucos que alcançou o nível máximo no escotismo, e mostra os apetrechos que adquiriu quando alcançou este patamar, como um lenço que é produzido na Inglaterra, com brasão feito na Escócia e um colar feito da madeira que Baden Powell (criador do escotismo) ganhou da tribo Zulu em viagem à África.

Dos tempos de criança ele guarda fotos e, inclusive, uma ao lado do governador do estado, Pedro Taques: “Ele era monitor de uma patrulha e eu de outra, e nós ficamos em primeiros lugar. Isso foi em 1981 no Patronato Santo Antônio”, explica Oriel.


(Pedro Taques é o primeiro à esquerda; Oriel é o terceiro da esquerda para a direita)

Até o momento são 34 anos de promessa escoteira: “As pessoas ligam o escotismo ao militarismo, mas o objetivo principal do escotismo é complementar a formação que a criança tem em casa, na escola e na religião. É um movimento disciplinar... Os jovens tem muita energia pra gastar, e no escotismo eles gastam em atividades úteis e saudáveis”, comenta, “Eu acho que muitos jovens poderiam estar fora das ruas se o Brasil investisse no escotismo”. Oriel, que foi monitorado também por Névio Lotufo durante anos de escoteiro.

Relíquias

Oriel guarda em suas casas um pequeno tesouro do passado. Desde vitrola até uma máquina de fazer cachorro quente, a residência poderia se transformar em um antiquário. Uma das coisas mais preciosas, que Oriel guarda com orgulho, é um cartão postal enviado por Frei Quirino, diretamente da Alemanha:



Ele conta alegre todas as conquistas de sua família, e como eles contribuíram para formar a história mato-grossense. Seu pai participou da primeira turma de Ciências Contábeis de Cuiabá, seu tio, Maximiniano José dos Santos, foi um marinheiro que completou 113 anos e foi parar no Guiness Book: “Tem até uma carta do Gastão Muller para o meu pai, aqui em casa”, conta.
O maior tesouro, no entanto, ele carrega dentro do coração. Com seus filhos Gabriel e Rafael, e sua esposa Doroteia, ele vive uma vida simples que traduz em poemas (e um dia pretende publicá-los):

(Ouça Oriel recitando o poema AQUI)

“Devo partir
Embora exista vontade de ficar
Mas não é possível
O vento sul é frio, sentirei saudades.
De repente me bate uma vontade de ficar
Sentimentos que me invadem e que me forçam a lembrar
De uma vida, de um todo, que sempre irei recordar
Tudo na vida passa, e você não deve chorar
Adeus, até qualquer dia”

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