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Sexta-feira, 05 de março de 2021

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Saber apenas o direito, não é saber direito

Autor: Bárbara Lenza Lana

09 Dez 2020 - 08:00

Mitos são narrativas utilizadas pelos povos gregos antigos para explicar fatos da realidade e fenômenos da natureza incompreendidos que, passadas de geração para geração, acabam por refletir nos nossos costumes.

O que há de mais incompreendido e buscado do que o amor?

Platão esclarece que “os seres humanos foram criados originalmente com quatro braços, quatro pernas e uma cabeça com duas faces. Temendo o seu poder, Zeus dividiu-os em duas partes distintas, condenando-os a passar a vida em busca de suas outras metades."

Pautadas(os) no entendimento de que transitamos por aí como metade de uma laranja e/ou seguimos incompletas(os), com a missão de localizar neste nosso planeta imenso UMA alma gêmea, nos apegamos à angústia decorrente da falsa expectativa de sentirmos essa mutilação, que, no nosso imaginário, só encontra a cura num grande amor.

Mas afinal, o que é o amor? –questionamos, sem nos darmos conta de que mais importante do que entendê-lo, é compreender os motivos pelos quais somos amadas(os) e por quais motivos nos permitimos amar.

Em se tratando de relacionamentos, temos perdido a mão! Estamos na era dos aplicativos, dos corpos à mostra como grandes bifes expostos nas vitrines, da superação do término num deslize de dedo. Em tempos líquidos, o medo de sofrer a dor da falta nos tem conduzido ao acúmulo de paixões que resultam numa imensa bagunça dentro de nós.

Mais importante do que conceituar o amor, é nos enxergar nas sutilezas, eis que, para além de um(a) personagem, somos um riso, uma maneira suave como os fios do cabelo descansam uns sobre os outros quando nos deitamos, um jeito de olhar, dentinhos tortos, piadas internas, nossos propósitos, nossas belezas, que, coexistindo, terminam por, furtivamente, chamarem a atenção de um par de olhos que se torna nosso, somente nosso!

É dos encontros furtivos que se formam as lindas histórias por meio das quais, pensamos nós, alcançamos a completude: o mundo ganha cor, a vida, sentido, o EU passa a ser um nosso NÓS! –Alcançamos a paz.

Contudo, não podemos deixar de pontuar que, em alguns casos, o NÓS apaga o EU, a laranja se parte mais uma vez, e a paz vira guerra.

Nestes tempos de transição, a(o) advogada(o) que só sabe Direito, não sabe direito, e isso é descortinado no âmbito do Direito das Famílias! Trabalhar com o fim de um relacionamento, especialmente naqueles que resultam em filhos e filhas, ou que, infelizmente foram marcados pela pecha da violência, demanda mais que o conhecimento das leis.

Diante de nós se colocam almas “mutiladas”. Histórias a serem repartidas, o medo do novo começo, a ira decorrente da frustração, o desejo de vingança pelo sentimento de rejeição que se mostra nas mais diversas facetas.

Mais que a tecnicidade jurídica, é esperado de nós a escuta empática, ativa e qualificada, sem julgamentos. Também, inteligência emocional para que não nos falte o entendimento de que não nos compete a cura das dores emocionais, nem tampouco a compra da briga que não é nossa.

O que nos cabe é nos interessarmos em conhecer aquela pessoa que se coloca ali, diante de nós, em situação de vulnerabilidade, acolhê-la em suas dores, e, sobretudo, orientá-la e prepará-la para o fim de garantir a sua dignidade e a preservação dos seus direitos no deslinde do(s) processo(s) que está(ão) por vir.

Conflitos resultantes dos rompimentos costumam ser complexos e penosos, infelizmente. Controlar a parte adversa para que a jornada seja fácil é coisa que foge do nosso alcance, mas torná-la segura é possível, e é esse o nosso dever.

Ninguém inicia uma história de amor com uma pessoa sabidamente inimiga. Também, ninguém adentra a um lugar de pertencimento com expectativas de um dia sair dali. Romper dói, porque, no nosso imaginário, o rompimento nos re-parte.

Com raríssimas exceções, ninguém é pego de surpresa quando um relacionamento chega ao fim, e deveria ser assim nos começos, uma vez que “o tempo” para conhecer a pessoa com quem misturar nossos corpos, dividir o nosso tempo de qualidade, nossas coisas, nossos sonhos, nossas dores, nossas alegrias, nossos sistemas é nosso por direito.

Então, por que tanta pressa?

Amar é uma decisão, acompanhada de uma atitude.

Só ama quem se ama.


Bárbara Lenza Lana, Advogada para Mulheres. Membro da Comissão de Direito de Família e Sucessões e Presidente da Comissão dos Direitos da Mulher da Associação Brasileira de Advogados –ABA/Cuiabá.
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