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revista Piauí revelou nesta quinta-feira (6), em matéria assinada pelo jornalista
Breno Pires, que o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, acusado pela Polícia Federal de ser o principal articulador do esquema que negociou milhões em sentenças judiciais, foi quem primeiro advogou em processos no gabinete do ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Contudo, como Andreson nunca foi advogado, teve a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) cassada.
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Entre 2018 e 2019, ele tinha cinco processos no STJ, três dos quais no gabinete de Moura Ribeiro. Em um deles, Gonçalves tentava derrubar o bloqueio de uma herança de seus clientes, mas não vinha obtendo sucesso. Quando o caso chegou ao gabinete do ministro, Gonçalves virou o jogo. Assim que saiu o desbloqueio, ele comemorou em mensagem enviada para Zampieri: “Esse caso tinha dado para outra parte. Consegui reverter.”
Na reportagem, Breno revelou também que a esposa de Andreson, a advogada Mirian Ribeiro Rodrigues de Mello Gonçalves, dona de um escritório em Primavera do Leste, no interior de Mato Grosso, “nadava de braçada” no gabinete de Moura Ribeiro.
De alguma forma, a advogada conseguia concentrar seus processos no gabinete do ministro. Desde que atua no STJ, a advogada já teve 201 processos tramitando na corte – 47 dos quais passaram pelo gabinete de Moura Ribeiro. A concentração não se explica pela área de atuação do magistrado, considerando que outro colega, Marco Buzzi, que também atua no campo do direito privado, é relator de apenas quatro processos.
A outra curiosidade é a robusta taxa de sucesso da advogada nas 47 ações. Excluindo os casos em andamento ou já encerrados por acordo, a análise da piauí mostra que Mirian obteve 29 vitórias. Ou seja, venceu em 72,5% dos casos em que atuou. É um índice excepcional, à luz do fato de que, em ações que circularam pelos gabinetes de outros ministros, seu placar de vitórias ficou em 43,5%. Por fim, há um terceiro aspecto que chama a atenção. Em dezesseis casos, a advogada só foi contratada quando o processo já estava sob a relatoria de Moura Ribeiro, um indicativo de que seu sucesso naquele gabinete era um atrativo para a clientela. Alguns exemplos:
- Uma ação em que o cantor Zezé di Camargo contestava uma dívida com a empresa de saneamento de Goiás caiu nas mãos do ministro Moura Ribeiro num dia e, no dia seguinte, Mirian foi contratada para defender o artista. Ganhou a causa.
- Outra ação, movida por uma empresa do agronegócio, envolvendo uma disputa fundiária em Mato Grosso, chegou ao gabinete do ministro num dia e, também no dia seguinte, a advogada assinou contrato. Ganhou de novo.
- Em um terceiro processo, em que compradores e vendedores brigavam em torno de três lotes rurais em Alto Floresta, em Mato Grosso, Mirian foi contratada 23 dias depois que o ministro Moura Ribeiro virou relator do caso. Mais uma vez, saiu vitoriosa.
- Em outra ação, na qual uma incorporadora pedia o reconhecimento de um contrato de permuta de imóveis, deu-se uma dinâmica diferente. O caso caiu nas mãos de Moura Ribeiro em agosto de 2021 e empacou. Depois de um ano com o processo parado, Mirian foi contratada – e pouco mais de um mês depois a ação voltou a andar. Ganhou de novo.
A operação Sisamnes foi deflagrada no ano passado e já tem mais de 10 fases desencadeadas. A ofensiva iniciou a partir do assassinato de Zampieri, em dezembro de 2023. No seu celular, as investigações encontraram as conversas com Andreson, que revelaram indícios plausíveis de esquema de corrupção no judiciário nacional, consistente nas negociações milionárias de venda de sentenças. O caso já culminou no afastamento dos servidores do STJ Daimler Campos, Márcio Toledo e Rodrigo Falcão, além dos desembargadores Sebastião de Moraes e João Ferreira Filho, e do juiz Ivan Lucio Amarante, todos do Tribunal de Justiça (TJMT).