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Sábado, 25 de setembro de 2021

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Jovens têm problemas de auto-estima com corpo

Quando Kristen, 18 anos, começou a ganhar curvas, aos 15, ela ficou decepcionada por seus seios não terem acompanhado esse desenvolvimento. "Eles nunca cresceram", disse Kristen. "Não me sentia como uma mulher." E, de fato, aos 15 anos, Kristen ainda não era uma mulher. Mas para alguém que cresceu em uma cultura obcecada por celebridades e programas de transformação na TV - sem mencionar o fato de que sua mãe e irmã mais velha colocaram implantes de seios quando ela tinha 16 anos - ela acreditava que deveria ter seios fartos.

Por isso, em maio do ano passado, como presente de formatura do colégio, os pais de Kristen lhe deram uma cirurgia de aumento de seios com implantes de salina. "Só queria parecer normal, e agora eu sou," disse Kristen, cujos familiares pediram que seu sobrenome não fosse divulgado.

Aos rigores de beleza dos adolescentes - depilação com cera e pinça, malhação, regimes de cuidados com a pele, que costumavam ser terreno só de adultos - adicione a cirurgia cosmética, que está rapidamente se tornando uma prática comum entre adolescentes. Mas com tanta popularidade, alguns especialistas temem que a motivação por trás de muitos jovens que buscam a cirurgia - em outras palavras, a auto-estima - está sendo posta de lado em meio ao impulso de parecer, como Kristen coloca, "normal".

Os últimos dados da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética mostram que o número de procedimentos cirúrgicos cosméticos em jovens com 18 anos ou menos cresceu mais que o triplo em um período de 10 anos, de 59.890 em 1997 para 205.119 em 2007.

Isso inclui procedimentos ainda mais controversos: lipoaspirações subiram de 2.504 para 9.295, e aumentos de seios subiram quase seis vezes, de 1.326 para 7.882. Os últimos dois procedimentos tiveram ligação com as mortes de duas jovens de 18 anos: Amy Fledderman da Pensilvânia, que morreu em 2001 de síndrome de embolia gordurosa após passar por uma lipoaspiração, e Stephanie Kuleba da Flórida, que morreu na última primavera americana de complicações com a anestesia usada durante a cirurgia de aumento de seios e mamilos invertidos.

A essa altura, a recessão aparentemente não está afetando muito as cirurgias cosméticas em adolescentes. "Se os pais embarcam no conceito e apóiam o procedimento para seu filho, eles parecem ir em frente apesar da economia," disse o doutor Alan Gold, cirurgião plástico e presidente da sociedade.

Críticos dizem que à medida que a cirurgia plástica se torna comum, os pais cada vez mais se encontram em uma posição na qual precisam aprender a dizer não a um filho ou uma filha que possui uma auto-imagem distorcida e pede para ter o mesmo conserto cirúrgico rápido que os próprios pais podem já ter tido.

"Nossos filhos são bombardeados de imagens de mulheres e homens ideais que sequer são reais, mas sim montadas em computadores," disse Jean Kilbourne, co-autora de "So Sexy, So Soon," um livro sobre adolescentes e pré-adolescentes. "Essas meninas e meninos não conseguem competir com isso. A verdade é que ninguém consegue. E isso faz com que os adolescentes se sintam mais inadequados do que nunca e muitos pais ficam sem saber qual a coisa certa a se fazer.

O doutor Frederick Lukash, cirurgião plástico de Nova York, especializado no tratamento de adolescentes, disse: "ao contrário de adultos que podem escolher fazer a cirurgia com o intuito de se destacarem na multidão, rejuvenescerem e serem notados, os jovens têm um mantra diferente. Eles fazem isso para serem aceitos."

Mesmo assim, alguns pais parecem se sentir no mínimo tão preocupados com a insatisfação de seus filhos em relação à aparência quanto os próprios jovens. Jill Marks, cuja filha de 11 anos, Julia, fez uma cirurgia de rinoplastia com o doutor Lukash, disse que quando a menina tinha seis anos, ela começou a levá-la a médicos, incluindo especialistas de ouvido, nariz e garganta, para descobrir o que poderia ser feito sobre o nariz torto da filha.

"Sabia que ela estava sofrendo com aquilo fisicamente, mas também emocionalmente," Marks disse. "Eu a via no banheiro, mexendo no nariz para endireitá-lo. Algumas crianças perguntavam a ela, 'por que seu nariz é tão torto?' Não queria que ela passasse mais por aquilo."

Uma pesquisa recente com mais de mil meninas dos Estados Unidos entre as idades de oito e 17 anos, conduzida pelo Fundo de Auto-Estima Dove, mostrou que sete em cada dez meninas acreditavam que em questão de beleza e imagem de seus corpos, elas estavam aquém dos padrões. Apenas 10% se consideravam "bonitas o suficiente."

"Está claro que existe uma epidemia de baixa auto-estima entre as meninas," disse Ann Kearney-Cooke, diretora do Instituto de Psicoterapia de Cincinnati, conselheira do estudo da Dove e autora do livro "Change Your Mind, Change Your Body."

"Trabalho com muitas adolescentes sobre imagem corporal," disse a doutora Kearney-Cooke. "Sei de garotas que dizem querer fazer lipo quando o que realmente precisam é aprender a se exercitar e fazer dieta. Se uma menina acredita que cintura fina, seios grandes e formas esculturais são a única definição de beleza, tento ensiná-las a reconhecer que a visão do que é considerado uma aparência aceitável em nossa cultura é limitada, e a desafiar essa visão."

Além do fato de que algo considerado aquém do ideal aos 15 ou 16 anos pode mudar ao longo do tempo - como gordura infantil em torno do queixo, ou seios pequenos - especialistas dizem que os adolescentes não entendem plenamente que a mudança de uma cirurgia é permanente.

"Eles podem acabar insatisfeitos com a nova aparência, e então?" pergunta Diana Zuckerman, presidente do Centro de Pesquisa Nacional para Mulheres e Famílias. "Mesmo se tudo der certo no início após uma cirurgia de implantes de seios, por exemplo, isso irá exigir procedimentos futuros. E nós sabemos que implantes de seios podem dar muito errado, com dores, rupturas, enrijecimento, e até mesmo um som estranho de líquido que ocorre às vezes com implantes de salina."

Mas os cirurgiões plásticos dizem que, como as partes do corpo se desenvolvem em estágios diferentes em cada pessoa, a oportunidade de transformar um adolescente de nariz torto e auto-estima baixa em alguém confiante é geralmente justificável, porque uma operação oportuna poderia evitar comportamentos destrutivos, incluindo distúrbios alimentares, agressividade e automutilação.

Michael Laudisio, hoje com 22 anos, admite que talvez não fosse maduro o suficiente para entender todas as implicações de sua cirurgia para correção de orelhas de abano aos 10 anos, mas ele disse que a decisão de sua família mudou sua vida profundamente. "Eu tinha orelhas enormes e zombavam de mim o tempo inteiro," ele disse. "A cirurgia me libertou."

Mas existe uma linha tênue entre cirurgia corretiva e cosmética, e até em uma mesma família é possível haver opiniões divergentes. "Já vi mães arrastando as filhas para fazer alguma cirurgia, e claro, se o adolescente não quer, sugiro outro curso de ação," disse o doutor Richard D'Amico, cirurgião plástico de Nova Jersey, acrescentando, "não é um bisturi que vai lhe dar auto-estima."

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