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Domingo, 19 de setembro de 2021

Notícias | Ciência & Saúde

Pacientes ''espiões'' relatam como funciona o sistema de saúde

Suspeito que não sou a única médica que sai de uma consulta com um paciente difícil e se pergunta - apenas por um raro instante - quem exatamente está por trás desse comportamento extraordinário. Será o paciente um agente secreto de uma junta reguladora do Estado, enviado para determinar minha competência e decoro sob pressão? Será um tablóide planejando uma denúncia? Estamos numa pegadinha?

Nunca estamos, mas não é porque você é um pouquinho paranóico que significa que não exista por aí um jornalista com um lucrativo contrato para um livro, posando de paciente e tomando nota sob a mesa. Voluntary Madness é uma prova: um livro sobre uma paciente disfarçada investigando o sistema de saúde mental por dentro.

A jornalista Norah Vincent ganhou fama há alguns anos por Self-Made Man, a história de seus 18 meses fingindo ser um homem, completo, com barba por fazer. Agora ela realiza tarefa semelhante no mundo dos doentes mentais.

Desta vez, porém, uma advertência: Vincent possui certa experiência genuína como paciente psiquiátrica. Na verdade, foi uma internação por depressão que começou toda a idéia. Trancada em uma ala hospitalar como suicida potencial, ela escreve que em um momento olhou ao redor e disse a si mesma: "Jesus, que show de horrores. Tudo que preciso fazer é me sentar aqui, tomar nota e serei Balzac".

Ela definitivamente não é Balzac. Mas é realmente um projeto promissor. Embora não faltem relatos de pacientes psiquiátricos e agentes de saúde sobre as deficiências do sistema, a visão de um observador objetivo é difícil de encontrar.

Infelizmente, o plano logo sai dos eixos. Vincent inicia sua missão de forma plenamente jornalística, mas no meio do livro ela está novamente em meio à depressão e, no final, ela já escreve puramente como uma paciente. Não é uma mistura de perspectivas desinteressante, mas não é precisamente o que o leitor esperava.

A primeira parada de sua turnê de três hospitais é Meriwether, pseudônimo de um hospital público urbano, que lembra, mais que passageiramente, Bellevue, em Manhattan. Vicent - ainda bem animada - finge ter depressão suicida para ser internada e é enviada para uma das alas, onde some com seus antidepressivos e se depara com as condições desalentadoras que qualquer jornalista gostaria de encontrar.

A equipe abrange profissionais inacessíveis e assistentes rudes; a comida não dá apetite, os banheiros são sujos, os esforços terapêuticos superficiais e sedativos deixam os pacientes, a maioria irrecuperáveis em situação de rua, quase sem consciência. Os ocasionais cidadãos de classe-média pegos nessa combinação rapidamente aprendem a dissimular uma recuperação para escapar.

Após 10 dias, Vincent reconquista sua liberdade com alívio e uma epifania nem tão original: limpeza, nutrição, gentileza e financiamento adequado fazem todos parte do tratamento mental, especialmente quando psicose se entrelaça com pobreza.

Então, sem grandes comoções, ela está pronta para sua próxima parada: um pequeno hospital privado de uma área rural de um Estado não-nomeado do meio-oeste americano, que aceita apenas pacientes segurados e com certeza opera tranqüilamente gerando lucro.

O lugar é imaculado, a geladeira repleta de lanches saudáveis, a equipe preocupada e comprometida. Vincent - à beira de uma depressão significativa, mas determinada a se manter fora da medicação - passa 10 dias agradáveis, se não produtivos, nesse ambiente terapêutico: "se não lhe causa melhora, pelo menos é improvável que você piore".

Em sua terceira investida, toda pretensão de pesquisa objetiva já tinha ido pelos ares. Vincent está profundamente deprimida e escolhe a terceira clínica por sua oposição à medicação psicoativa e apoio à "terapia intensiva, companheira e com calor humano." Uma vez lá, ela se enrola em posição fetal e enfrenta seus demônios internos.

Seus colegas pacientes são em grande parte usuários de entorpecentes detidos na clínica por ordem do tribunal após direção embriagada ou outras repetidas infrações - uma clientela barra pesada em ambiente leve. Mas sabemos pouco sobre eles.

A essa altura, Vincent já perdeu o interesse em qualquer coisa que não seja ela mesma, e a escritora dentro dela nem ao menos faz um esforço. A saber: "Gary era alguém com quem você podia ser estranha que ele não se sentia ameaçado, mas também com quem você podia falar sério e contar seus problemas."

E então o livro se transforma em mais uma memória de traumas do passado, não muito melhor nem muito pior que todos os outros por aí. O que é uma pena, porque o projeto original de Vincent tem um precedente histórico importante.

Em 1887, outra intrépida repórter de Nova York teve exatamente a mesma idéia: ela escreveu para o New York World, de Joseph Pulitzer, sob o nome de Nellie Bly, se internou no hospício de Blackwell's Island por 10 dias e descobriu condições que ecoam assustadoramente no livro de Vincent.

O relato de Nellie Bly - uma peça de jornalismo clara e objetiva, disponível pela busca de seu nome em digital.library.upenn.edu/women - escandalizou leitores e constrangeu oficiais públicos a tal nível que, no ano seguinte, a cidade direcionou um adicional de US$ 1 milhão para o tratamento de insanos.

"Tenho pelo menos a satisfação de saber que os pobres desafortunados serão mais bem tratados por causa de meu trabalho," escreveu Bly, subseqüentemente. A despeito de todas as suas boas intenções, é difícil acreditar que o livro de Vincent terá o mesmo efeito.

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