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Segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

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Maraú é península de tranquilidade no sul da Bahia

Folha Online

12 Jan 2009 - 10:30

Como bom baiano, o comandante do bimotor não perde a calma, ajeita o ray-ban tranquilamente e avisa: 'Rapaz, relaxe'. Tarefa ingrata, ainda mais quando o avião balança sem parar e empurra o friozinho da barriga logo para a garganta. Tem remédio? Tem sim, senhor. Curtir a paisagem.

A 1.500 m de altitude, ilhotas, jardins de coqueiros, bancos de areia e a imensidão da baía de Todos os Santos mandam para o beleléu o enjoo e o medo. É preciso estar atento para não perder nenhum detalhe quando pousar em terra firme.

E que terra! A península de Maraú, ao sul da Bahia, faz parte da chamada Costa do Dendê, região que compreende um espaço que vai da ilha de Itaparica até as principais cidades produtoras do fruto-símbolo da Bahia.

Dendê é o que não falta ao Estado, assim como belas praias. Mas Maraú oferece algo mais do que sossego à beira-mar e um leque de passeios ecológicos.

A começar pela variedade de paisagens. Extensos manguezais, uma sucessão de praias a perder de vista sem vivalma e piscinas naturais coloridas por cardumes -talvez a inacessibilidade ainda consiga preservar essas características, típicas de ilha, à península.

Sem contar sua simpática vilinha, que vem fazendo a cabeça de estrangeiros que aportam por lá atrás de uma praia descongestionada e de um ambiente 'root' (selvagem). Faça o teste: se você encontrar algum europeu em viagem nestas férias pela Bahia, pergunte a ele sobre Maraú. Certamente o gringo não pronunciará o nome com perfeição, mas irá declamar com requinte uma série de adjetivos a Barra Grande.

Ruas de areia quase silenciosas, pracinha, casas simples e a igrejinha de São Sebastião, de 1855, que recentemente recebeu uma mão de tinta, coroam a tranquilidade e imprimem ar bucólico ao lugar. E, o que é melhor, sem tiques turísticos e com aquela alegria estampada no rosto dos nativos.

Porta de entrada de Maraú para a maioria dos visitantes, o vilarejo é o ponto de partida dos passeios pela península. Um deles percorre a terceira maior baía do Brasil, a de Camamu, passa por manguezais e ilhas, como a da Pedra Furada, que, como o nome diz, tem grande parte das pedras encontradas no local com furos, provocados por um molusco que habita a região.

O tour ainda dá direito a banhos de cachoeira rodeada por mata atlântica. Fica aí a dica: não é um banho qualquer. Imagine nadar em água salgada e, ao mesmo tempo, banhar-se na doce. É o que acontece com a cachoeira do Tremembé, que cai de uma represa diretamente no canal. Na maré alta, dá para chegar até ela de lancha.

Vamos fugir

Lembre-se, toda a área é de preservação ambiental. Por conta disso, as praias são quase todas selvagens, e o mar, de tonalidade azul e com formações de corais. Perfeitas para longas caminhadas e para um mergulho de corpo e alma em suas águas de temperatura morna e agradável.

Todo mundo irá recomendar as piscinas naturais de Taipus de Fora. Sim, não há dúvida de que elas formam um dos principais atrativos do lugar. Ficam aos seus pés, delimitadas por corais que não se veem na maré cheia. A água é represada na vazante, momento ideal para a prática de snorkel.

Aquele imenso aquário de quase um quilômetro de largura reflete na água azul-turquesa os coqueirais que fazem a fronteira entre a areia e a mata. Antes de ir, consulte a tábua das marés.

Dito isso, infelizmente, vai aqui uma crítica: construções à beira-mar ameaçam trazer a tal urbanização para bem perto do mar e azedar a festa ecológica. Os barzinhos e os restaurantes erguidos ali bem que podiam conscientizar os banhistas sobre os cuidados em relação à delicadeza do santuário. Mas não o fazem. Para complicar ainda mais, Taipus de Fora recebe muita gente de Itacaré, naquele típico roteiro bate-e-volta.

Às vezes, dá uma sensação danada de lotação. O jeito é se mexer. Opções não faltam por toda a região, dona de uma área correspondente à metade da cidade de São Paulo. Se quiser fugir daquele lugar, a praia do Cassange, faixa de areia que acompanha as margens da lagoa de mesmo nome, é uma pedida. Preste atenção ao trecho em que a praia é separada da lagoa por um coqueiral. É o tipo de imagem para apreciar por horas, à sombra, vendo o tempo passar.

Quer fugir ainda mais? Encare a trilha do morro do Farol, dono da mais bela panorâmica de toda a península. Do alto, dá para avistar lagoas, todo o desenho de Maraú e de seu imenso coqueiral com o mar calmo ao fundo.

Lá do alto se tem a dimensão exata da oferta de praias. São aproximadamente 50 km de extensão, bem ali, aos seus pés. A maioria, exclusiva para você.

Naquele instante, por mais estressado que seja, o turista logo aprende a valorizar o tempo da natureza e a se tornar paciente, ao menos durante a estada em Maraú. Graças a Nosso Senhor do Bonfim, padroeiro do coração dos baianos, e aos orixás, disse o piloto do bimotor à reportagem, a península ainda não entrou na rota de grupos turísticos, que erguem e destroem coisas belas.