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Quinta-feira, 05 de agosto de 2021

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'Na estrada', desafio da literatura americana no cinema

O escritor Jack Kerouac gostaria de ter visto Marlon Brando no papel do lendário herói apaixonado Dean Moriarty na adaptação para o cinema de seu livro "Pé na estrada" ("On the road"). Mas a obra demorou mais de 50 anos para chegar às telas, em um dos "desenvolvimentos" mais longos da história do cinema.

Dirigido pelo brasileiro Walter Salles, "Na estrada" estreia em Cannes nesta quarta-feira na disputa pela Palma de Ouro.

"Um livro lendário, gerações inteiras que são projetadas nos seus personagens: o erro era proibido", declarou o produtor Natanael Karmitz (MK2) que abraçou o projeto depois de uma "dúzia de tentativas fracassadas".

Inicialmente, os direitos foram adquiridos em 1978 por Francis Ford Coppola, que posteriormente o ofereceu para, entre outros, Jean-Luc Godard e Gus Van Sant. Seu filho Roman também tentou, sem sucesso, enfrentar o desafio.

Segundo Karmitz, dois grandes obstáculos estavam no caminho de "Na estrada" para o cinema: contar "histórias de sexo, drogas, energia e encontros, sem nenhuma narrativa linear, o que é muito diferente das armas usadas pelos estúdios americanos" e filmar um "road-movie histórico" em uma América modelada em torno de shoppings.

Com "Diários de Motocicleta" em 2004, que narrou a viagem de Che Guevara pela América do Sul, Walter Salles se transformou no "mestre do road-movie e dos filmes complexos", sorri o produtor, apadrinhado por Coppola, que o descobriu no Festival de Sundance.

Salles refez três vezes o caminho de "Na estrada", de leste a oeste de Nova York até São Francisco atravessando o México, para mergulhar em seu universo, conhecer os últimos protagonistas ainda vivos e aumentar seu interesse pela história do jazz. Foram "três anos de procura e pesquisas, que ele filmou como um documentário" antes de escrever o roteiro, conta Charles Gillibert, cúmplice de Natanael Karmitz na produção.

"Ele entrou no mundo do livro, sua imaginação, sua música, não fez mais nada além disso. No início de 2009 já tinha um roteiro sólido".

Uma aventura, não uma reconstituição Ainda sobre a produção do roteiro, Karmitz acrescenta: "Parecia-nos impossível, mas acreditamos muito!".

O projeto, assinado em Los Angeles em janeiro de 2010 e concluído em maio em Cannes com os co-produtores europeus, foi realizado com um orçamento de 25 milhões de euros e filmado durante o verão.

Os atores foram escolhidos logo no início, mas "Garrett Hedlund recusou por dois anos", enfatiza Gillibert. Enquanto isso, a carreira de Kristen Stewart ("Crepúsculo") explodiu.

"Walter Salles trancou os atores em um loft em Montreal, em julho, uma espécie de acampamento para acostumá-los a viver juntos, para que esta energia fluísse naturalmente nas telas", segundo Gillibert.

As filmagens começaram em agosto com suas complicações, "a América dos anos 40 não existe mais, um terço dos lugares foram decididos durante as filmagens. Foi uma aventura, não uma reconstrução".

Arizona, Novo México, Canadá, Califórnia, México. Procuraram a neve dos invernos canadenses na Argentina, em Bariloche, levando o "Hudson" de colecionador, o carro da equipe selvagem.

"A única maneira de dar tudo certo, era ter um chefe (o cineasta francês Eric Gautier) que conseguiu trabalhar com os meios à mão e os atores que, apesar de sua fama, estavam prontos para essa aventura", acrescenta Charles Gillibert. "Este livro mudou a vida de muitas pessoas, o filme fez o mesmo".
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