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Terça-feira, 21 de maio de 2019

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Fenômeno natural deixa rio com ares de lago paradisíaco no Acre

G1

03 Fev 2014 - 06:40

O Rio Croa que corta parte do município de Cruzeiro do Sul (AC) perdeu parte das características naturais de um rio da Amazônia, mas ganhou a semelhança de um lago paradisíaco. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) a mudança ocorreu há cerca de 13 anos, quando a água do Juruá, maior rio da região, mudou o curso em consequência do desbarrancamento por causa da correnteza e deixou de represar água para dentro do Croa no período de cheia.

Sem a inundação de todos os anos, o rio Croa ganhou caraterísticas diferentes. A pouca correnteza deixou a água mais escura devido à decomposição da floresta, provocando um reflexo com a luz do sol que proporciona uma beleza diferenciada ao lugar. Em vários pontos é possível encontrar as vitórias-régias, uma das maiores e mais belas plantas aquáticas do mundo. Também conhecida como estrela das águas, a planta que faz parte do folclore amazônico, pode atingir até dois metros de diâmetro.

Outra planta aquática que os ribeirinhos chamam de pasta é encontrada em vários pontos. Pelo menos em um período do ano, os moradores organizam uma força-tarefa para retirar a vegetação do leito do rio que chega a impedir a navegação.

“Eu adoro esse lugar aqui é muito calmo e a natureza é muito linda. As pessoas que vêm visitar gostam tanto que não demoram e voltam. Não pretendo sair daqui para lugar nenhum”, comenta João Saraiva de Mendonça, um dos moradores mais antigos da comunidade formada por 52 famílias.

Política de preservação
As características de lago e a consciência dos moradores em preservar o local, fazem do Rio Croa uma fonte fácil de alimentos para a subsistência da comunidade. Segundo o secretário da Associação de Moradores do Rio Croa, Davi Nunes de Paula, ainda é bastante comum a presença de espécies de peixes raras como o pirarucu e a aruanã, além de diversos animais selvagens que habitam nos arredores.

Para chegar ao Rio Croa é preciso percorrer 20 quilômetros saindo de Cruzeiro do Sul pela BR-364. Apesar das riquezas naturais não existe um plano de preservação para a área. O analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Pablo Saldo, explica que já foi realizado sem sucesso um estudo para a criação de uma reserva.

“A comunidade queria a criação de uma unidade de conservação federal, depois houve a proposta de criar uma reserva estadual e não prosperou por questões políticas. Hoje funciona como um projeto de desenvolvimento sustentável que visa garantir a preservação dos moradores no local com regularização fundiária, no entanto, não tem tanto essa preocupação com os projetos de conservação”, explica Pablo Saldo.

Cultura da Ayahuasca
A maioria das famílias que residem às margens do Rio Croa é adepta e faz uso do chá de ayahuasca, bebida usada em rituais religiosos como o Santo Daime. Conhecida como chá, a bebida é preparada a partir do cipó de mariri (Banisteriopsis Caapi) e das folhas de chacrona (Psychotria viridis) plantas encontradas às margens do Rio Croa.

Ao longo do rio, grupos diferentes possuem centros para rituais religiosos. O morador Jorge Nunes da Costa, de 59 anos, toda semana recebe adeptos da ayahuasca que segundo ele, vêm da cidade em busca de paz espiritual.

“Eu fui alcoólatra durante muito tempo até que encontrei essa santa bebida e achei o caminho. Hoje eu sou curandeiro da floresta, além de benzer as pessoas conheço muito bem e recomendo os remédios da floresta. Esse rio é um paraíso, tem seus encantos, quando a gente escuta o canto de um pássaro ou de uma cigarra tem que ficar ligado, porque alguma coisa eles estão dizendo. Eu aconselho muito os moradores a preservar, em um lugar desses quando se corta uma árvore tem que plantar duas”, comenta.

O jovem Jackson dos Santos Messias, de 25 anos, casou coma uma indígena peruana adepta da ayahuasca. O casal também montou um centro onde são realizados rituais religiosos com o uso do chá às margens do Rio Croa. Jackson trabalha como uma espécie de guia turístico e acredita que a cultura religiosa da comunidade, aliada às belezas naturais do rio é uma boa combinação para atrair cada vez mais turistas.

“A gente recebe muitos turistas, tanto do Brasil como do exterior. As pessoas vêm em busca de terapia material e espiritual e esse é um lugar perfeito para isso. Além do rio temos as trilhas pela mata onde a gente pode caminhar e desfrutar a exuberância da floresta”, diz.

O jornalista Leandro Altheman sai da cidade com frequência para tomar o chá no Rio Croa. “Pra gente esse é um rio de encantos onde está presente a espiritualidade da natureza e o silêncio, por isso virou um polo para quem toma ayahuasca”, conclui.

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