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Quarta-feira, 17 de julho de 2019

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Carlos Alberto Parreira, coordenador da seleção brasileira: ‘Para ser campeão, tem que melhorar’

Globo Esporte

15 Jun 2014 - 08:19

Vinte anos após a conquista do tetracampeonato, o técnico daquela campanha, hoje coordenador, sabe dosar o olhar crítico com o ufanismo. Mesmo otimista em relação ao futuro do Brasil na Copa do Mundo, Carlos Alberto Parreira admitiu, em entrevista exclusiva ao Jogo Extra, que a seleção ainda precisa melhorar, se quiser levantar o hexacampeonato. Certo de que o time atingirá o ápice nas oitavas de final, ele é bem mais pessimista em relação à Espanha, que, de favorita, virou dúvida para a próxima fase, após a vergonhosa goleada de 5 a 1 imposta pela Holanda, na estreia de ambas.

— Eles precisam repensar o time deles. A Espanha é uma geração vitoriosa, mas algumas peças envelheceram. E estou falando de peças que eram fundamentais — analisou Parreira, que, para as oitavas, mesmo sem fazer apostas, já não descarta o confronto da seleção brasileira contra os chilenos, com a Espanha voltando mais cedo para casa.

Ficou surpreso com a atuação da Holanda?

Como ficar surpreso com uma das poucas seleções que não perderam nenhum jogo nas Eliminatórias? Sneijder e Robben são fora de série. O Robben está há mais de três anos no Bayern de Munique (desde agosto de 2009). A única surpresa para mim foi o placar. Eu não esperava o resultado de 5 a 1.

A Espanha é uma decepção?

Vamos falar do mérito da Holanda, que aproveitou os erros e falhas individuais. Foi impressionante. Iniesta, Xavi, Casillas, Diego (Costa) e Torres não renderam o esperado. A Holanda deu um passo enorme para ser a primeira do grupo. Vale lembrar que nos últimos 50 jogos a Espanha só perdeu duas vezes: para o Brasil (na final da Copa das Confederações), e agora, para a Holanda.

Ainda acredita na Espanha?

Não se pode descartar essa equipe, dizer que está morta. Mas acredito que eles têm de repensar o time deles. Está chegando o fim da linha para o Xavi, e, sem dúvida, essa é a última Copa do goleiro (Casillas). Seleção é um ciclo. Não tem jeito. A cada oito anos tem de renovar. A Espanha é uma geração vitoriosa, mas algumas peças envelheceram. E estou falando de peças que eram fundamentais. Mas há ainda bons jogadores. Gosto muito do Pedro, que estava fora do time. Foi um golpe duro e não sei como vão reagir. A Espanha perdeu o primeiro jogo da Copa de 2010 e foi campeã do mundo. Mas dessa vez eles foram humilhados. Poderia ter sido de sete, de oito.

Se o Brasil se classificar, qual deverá ser o adversário das oitavas?

Está tudo em aberto. O Chile pode pegar a vaga. A gente tem de acompanhar tudo. A segunda vaga ficará entre Chile e Espanha.

O que achou do México, nosso adversário de terça-feira?

Gostei muito do jogo deles contra Camarões. É um time tecnicamente muito bom, bem distribuído em campo. Eles jogaram quatro amistosos e, quando enfrentarem a gente, estarão no seu sexto jogo. Estão bem armados.

Gostou do time da Croácia?

É um time bom. Segundo a imprensa europeia, a Croácia tem um dos melhores meios de campo do mundo.

Quando a seleção vai emplacar?

A gente nunca fez uma estreia confortável. Mas admito que, para ser campeão do mundo, a gente precisa melhorar. E vai melhorar. Falei com o Felipão uma coisa que vou repetir para você: os croatas jogaram com 110% do que podiam dar. Eles não têm mais nada para melhorar além daquilo que já apresentaram. Nós ainda temos muito a crescer. Não gosto de colocar em números, mas talvez a gente ainda tenha 30% para crescer.

Quando o Brasil estará 100%?

Nas oitavas, o time tem de estar pronto. Esses três jogos da primeira fase vão dar consistência ao time.

O Lovren fez pênalti no Fred?

Para a gente, foi. A gente reviu o lance na televisão e não teve dúvida nenhuma. Conversei com o Fred e ele disse que foi desequilibrado. Para ser pênalti, não precisa haver chutão, pescoção, agarrão. O triste é que ninguém fala do jogo. Tivemos mais posse de bola do que eles, concluímos o dobro de vezes, sofremos mais faltas, trocamos mais passes. É muito fácil para o comentarista rever o lance e opinar. Na hora, todo mundo ficou na dúvida.

Acha que o brasileiro não valoriza o que é seu?

Acho. Falou-se muito dos problemas da Copa. Realmente, muitas coisas não foram feitas, mas todo mundo reclama por exemplo da Arena Corinthians, que está muito boa. O vestiário é um espetáculo, o gramado é bom. Eu até acho que essa Copa tem o lado bom de conscientizar as pessoas. Escancararam nossas mazelas. Mas há cenas lindas, como os holandeses na praia, os ingleses na favela. A Copa está linda.

Ficou constrangido quando a presidente Dilma foi hostilizada durante a abertura?

A gente só ouvia “vai tomar...”. Não deu para entender que era para ela. O povo está descontente com tudo. A inflação aumentou, o desemprego aumentou, o Brasil vai crescer menos, o mensalão... O presidente da República sofre em função disso tudo.

O que achou da estreia do Neymar?

Neymar teve a melhor estreia que poderia. Foi melhor do que Pelé, Cristiano Ronaldo, Messi e Ronaldo. Nenhum desses estreou em Copa do Mundo fazendo dois gols. Ele é iluminado mesmo. Não tem jeito. Além de ser bom para caramba.

A Holanda está melhor do que o Brasil?

A Holanda fez o melhor segundo tempo do momento. Veja bem, não foi bem o tempo todo. Foi um segundo tempo impecável. Mas não quero fazer esse tipo de comparação. Nosso negócio agora é o México. É degrau por degrau.

O que o Brasil precisa melhorar em relação à estreia?

Não vou falar. Isso aí você tem que perguntar ao Felipão.
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