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Caso Suárez deflagra "complexo de Davi", e Uruguai se fecha a gigantes

Globo Esporte

26 Jun 2014 - 08:47

Vive-se um déjà vu constante no Uruguai. Uma seleção que se orgulha do passado e, mais do que lembrá-lo, o usa como inspiração para novas façanhas. É mais ou menos o que pretende a Celeste diante da polêmica sobre a mordida de Suárez em Chiellini, no 1 a 0 sobre a Itália, na última terça-feira, em Natal. Desta vez, jogadores e comissão técnica reacendem o "complexo de Davi", se dizem mais "fracos" que os Golias da bola e se fecham contra o mundo. Uma tática que já deu muito certo, de Olimpíada a Maracanazo.

A massiva reprovação da mídia internacional, sobretudo a inglesa, para a agressão do camisa 9 gerou uma blindagem geral no Uruguai. Impera a ideia, grosso modo, de que todos estão contra a Celeste e que há uma conotação política e técnica em uma eventual suspensão ao jogador. A Fifa ainda avalia o caso após receber a defesa da federação uruguaia. Esperava-se uma resposta na noite de quarta-feira, o que não ocorreu. Luisito pode até perder a Copa inteira. A decisão deve ser divulgada nesta quinta, em entrevista coletiva no Rio de Janeiro.

As declarações de Diego Lugano na entrevista coletiva de terça, num hotel em Natal, exemplificam a postura da seleção. Na verdade, o capitão não atuou nos últimos dois jogos e foi escalado para falar aos jornalistas exatamente para passar o tom do pensamento do grupo. Funcionou como um escudo aos demais, que não precisaram entrar no assunto. Para o defensor, seria conveniente punir o Uruguai com um gancho a sua maior figura, que poderia se tornar o craque do Mundial e incomodar muita gente, inclusive o Brasil, numa eventual quartas de final.

Suárez é perigoso para os adversários e é carismático. A figura de Suárez vende. Pode ser o craque da Copa. Gera um pouco de medo, entendemos. E sabemos que o Uruguai tem menos peso político. Mas o Luis vai se levantar e levar o nosso time nas costas de novo - avisou o zagueiro, em tom de revanche.

O próprio treinador Óscar Tabárez já havia antecipado, após a vitória sobre a Itália, o sentimento de se considerar inferior a "gigantes" do futebol e se apegar à pátria apaixonada pela seleção, de apenas 3 milhões de almas. Curiosamente, venceu os dois adversários considerados teoricamente superiores (ingleses e italianos) e acabou derrotado na estreia pela surpresa Costa Rica, quando precisou ser Golias e não conseguiu.

- Nós somos um país pequeno, e enfrentamos gigantes de igual para igual. Temos que dar tudo no campo sempre, e é isso o que fazemos. Existe uma hostilidade contra o Luis Suárez. Há pessoas escondidas atrás da árvore esperando um deslize para condená-lo. Ele é sempre atacado, como vocês estão fazendo nesta coletiva. Temos que defendê-lo também, porque este é um campeonato de futebol, e não de moralismo barato - avisou o Maestro.

Olimpíadas e Maracanazo: Davi à solta

Esse "complexo de Davi" tem origens remotas. Notou-se, por exemplo, na Olimpíada de 1924, primeira vez em que uma seleção sul-americana jogava na Europa. Os uruguaios chegaram como desconhecidos, desacreditados, quase zombados. A organização errou o hino ao executar outra marcha no lugar da música tradicional do país. E ainda içou a bandeira da nação ao contrário. Resultado: brios exaltados e goleada de 7 a 0 sobre a Iugoslávia e, mais tarde, título olímpico, como seria em 1928.

O exemplo mais fiel remete à primeira Copa no Brasil, o Maracanazo, é claro. O Uruguai via um país inteiro aclamando os brasileiros como os campeões do mundo, com direito a manchetes nos principais jornais. Até porque a Seleção, de grandes goleadas sobre Espanha e Suécia, só precisava de um empate num Maracanã lotado. O capitão e hoje mito uruguaio Obdulio Varela foi ainda mais revanchista do que Lugano. Espalhou os jornais pelo vestiário e ordenou aos seus colegas que urinassem nas letras ufanistas.

O 2 a 1 dos charruas, ou Davi, foi tão inesperado que a Fifa já tinha preparado a festa para o Brasil, ou Golias. Tanto que o presidente da entidade, Jules Rimet, entregou a taça a Varela sem solenidades, num ritual quase escondido, clandestino, como se ninguém quisesse ver o Uruguai campeão. Para os celestes, alguma semelhança com 2014 não é mera coincidência.
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