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Quinta-feira, 23 de maio de 2019

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Família cria pato para o Círio e vive dilema se animal vira pet ou almoço

Ingo Müller Do G1 PA

05 Out 2016 - 20:16

O simpático Patúncio chegou ao lar das Palmquist no primeiro semestre de 2016. Vindo do nordeste do Pará, o animal viveu solto no quintal da casa com o único propósito de ser a atração principal do almoço do Círio da família, quando será servido com tucupi e jambu – como manda a tradição paraense.

O problema é que, conforme passavam os dias, crescia o apego da pequena Carmem à ave. A menina  de 10 anos cuidou do bicho como um animal de estimação, fazendo surgir um dilema: Patúncio seria refeição ou parte da família?

Segundo a jornalista Helena Palmquist, mãe de Carmem, o destino de Patúncio está traçado. “Estou criando um bicho para comer. Não é uma coisa que me é estranha, sendo de Belémé uma tradição arraigada a gente ver as pessoas chegando com pato no paneiro”, disse, sob protesto da filha.

“Sinto muita pena e não vou deixar a mamãe matar, de jeito nenhum. Porque eu não quero que ele morra, ele é muito simpático e eu já considero ele um bichinho de estimação”, explica Carmem, que afirma que não comeria prato mesmo se o prato fosse feito com uma ave desconhecida. “Não comeria mesmo se fosse um pato que eu não conhecesse, porque eles são muito fofos”, afirma.

Costume antigo
De acordo com Helena, ter patos vivos para o Círio é uma tradição de família. “Meu pai todo ano compra aqueles patos vivos, que vem do interior, e aí a freguesa que ele já tem há anos mata e fornece para ele. Pato de supermercado nunca comemos”, disse a jornalista, que revela ter ganhado Patúncio de presente.

“O meu sogro tem um terreno no interior em Santa Rosa, perto de Vigia, e a gente foi para uma festa lá tem um tempo. Ele queria me dar uma galinha, mas eu vi os patos tão bonitos e falei ‘não, vou levar um pato. Aí a gente ceva ele para o Círio e serve para o pessoal’” destaca. “Realmente é tradição: a gente faz a maniçoba de sete dias e o pato vivo, não é pato congelado não. O sabor é melhor, sem dúvida. É outra ave, outra carne. Comprei pato congelado uma vez, para fazer arroz para uma festa, e é muito diferente. Não tem nem comparação”, destaca.

Segundo o antropólogo Romero Ximenes, são poucas as famílias como a da jornalista que ainda mantém esta tradição: o hábito de criar animais em casa para o abate se perdeu com o crescimento da cidade, já que a verticalização torna os quintais um artigo raro na Belém moderna – apenas casas antigas como a de Helena, que é situada no bairro da Cidade Velha, preservam este espaço.

“Criar animais se tornou politicamente incorreto. Não há como fazer chiqueiros em casa sem quintal, os animais atraem mosquitos, os vizinhos ficam incomodados”, explica Romero.

Para o antropólgo, apesar da dificuldade em manter o costume de comer carne de pato no Círio, a indústria não está preparada para suprir o desejo do paraense impossibilitado de criar aves em ambiente doméstico. “O que surpreende é que, apesar da demanda, não se criou uma produção em série do pato como é feito do frango, sobretudo na época do Círio. Pato é caro e o preço é proibitivo, já que existem apenas pequenos criadores em Belém, Santa Bárbara e Santa Izabel”, conclui.

Destino certo
Apesar dos argumentos culturais, Carmem está irredutível no seu projeto de poupar a ave. Mas o protesto, segundo Helena, deve ser em vão. “Somos três. Eu e o pai dela queremos comer o pato, ela é o voto contrário”, explica a jornalista.

O coro em favor do pato aumenta, entretanto, quando os sobrinhos visitam a casa da família. “As crianças quando vem aqui dizem ‘não pode matar o pato!’, tanto que foram eles que deram o nome”, conta a jornalista. “O nome dele é Patúncio Flag Primeiro, porque vão ter outros patos. Eu quero que a mamãe pegue uma pata na fazenda, para fazer companhia para ele. Acho que vai ser a Patúncia”, completa Carmem.

Nesse sentido mãe e filha concordam, embora a finalidade da pata, para Helena, seja diferente. “Eu quero pegar uma pata, e aí a gente mata o Patúncio e fica com a pata e os patinhos para o próximo Círio já”, explica Helena. “Mas a pata vai sofrer muito se ele morrer”, questiona Carmem. “Ela terá a companhia dos patinhos, você não quer ver os patinhos em casa?” suborna a mãe, fazendo Carmem sorrir.

Direto do quintal
De acordo com a jornalista, a família ainda não fez as contas sobre o custo de criar o animal para comer, mas Helena garante que Patúncio não dá grande trabalho ou prejuízo. “Eu nunca botei na ponta do lápis, mas a alimentação dele não é cara. Ele come resto de comida e milho. É bem mais barato que ração de gato e de cachorro. Mas tem uma graça na gente ver o bicho, a gente sabe que ele tá solto, tá feliz, e tenho certeza que isso passa para a carne”.

Apenas nas redes sociais é que a saga de Patúncio se mostra indigesta. “Os vegetarianos estão numa campanha. Cada vez que falo no Patúncio vem umas trinta pessoas falando para não mata-lo, mas ninguém me convenceu ainda”, confidencia Helena.

Segundo Thiago Castanho, reconhecido internacionalmente como chef de um dos melhores restaurantes da América Latina, este tipo de reação ao destino do animal que vai servir de alimento ocorre porque as pessoas perdem a noção da relação entre comida e morte.

“A população está se afastando da origem do alimento. A morte, seja de animal ou vegetal, está sempre ligada a comida. Mas hoje as pessoas de centros urbanos só veem o produto embalado a vácuo. Até quando eu posto fotos de um prato feito de peixe, um filhote, as pessoas criticam nas redes sociais”, comenta o chef.

 

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