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Sexta-feira, 18 de outubro de 2019

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Com mais de 50 anos, servidores terceirizados aprendem a ler e escrever

Da Redação - José Lucas Salvani

27 Jul 2019 - 08:14

Foto: Rogério Florentino/Olhar Direto

Com mais de 50 anos, servidores terceirizados aprendem a ler e escrever
Saber ler e escrever é fundamental para poder executar tarefas básicas como pegar um ônibus ou ler a receita de um remédio. Em Mato Grosso, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são mais de 188 mil analfabetos no estado. Entretanto, 15 servidores terceirizados da limpeza da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) estão mudando essa realidade com o curso de extensão “Alfabetização e Iniciação em Matemática” e deixarão de fazer parte desta estatística.

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“Aprender nunca é tarde. Sempre tem a hora. Deus tem a hora certa e marcada. Essa é a hora que Deus escolheu e eu quero estar aqui, quero aprender. Estou gostando muito”, conta Alice Gomes, 61 anos, ao Olhar Direto. A mineira veio para Mato Grosso junto de sua família e não teve a oportunidade de aprender a ler e escrever. Seus pais não eram muito presentes, explica, sendo “criada pelo mundo”.

Sua vinda para a capital mato-grossense aconteceu após o seu casamento. Durante 20 anos, ela também não pôde trabalhar porque o marido não deixava. Somente com sua morte ela pôde buscar um trabalho, decidindo vender salgados na rua como ambulante. As vendas perduraram por cerca de cinco anos, e chegou ao fim quando foi roubada.

A filha duvidou quando ela disse que gostaria continuar trabalhando. Alice trabalhou em uma empresa antes de ingressar na UFMT por três meses. Sua saída somente se deu por conta do fechamento do próprio estabelecimento. Em maio de 2019, a servidora completou três anos trabalhando no campus Cuiabá da Universidade.

Alice ficou sabendo do curso de alfabetização pelo professor Aldi Nestor de Souza, um dos responsáveis pelo projeto. Seus filhos apoiaram totalmente o ingresso de Alice nas aulas. A servidora conta que, mesmo que morando em Mossoró (RN), os filhos “cobram” as palavras, para conferir o aprendizado da mãe.
 

“Eu vou ficar aqui até quando Deus permitir. Eu não pretendo sair daqui tão cedo, eu quero aprender. Até estou com medo de um dia parar este curso e ficar sem estudar”, enfatiza a servidora. O anseio de ter os estudos interrompidos era percebido nas primeiras aulas, explica o professor Vinícius Machado, também um dos nomes envolvidos no projeto. Somente o processo até que as aulas começassem levou cerca de um ano.

“Elas colocaram essa possibilidade, de estudar e não ficar parada, continuar estudando. Colocaram cobrando a gente, ‘até quando a gente vai?’. Agora pararam um pouco de cobrar, ‘não vão largar a gente, né, eles vão continuar’. Isso no começo era muito forte: ‘vocês não vão largar a gente não, né?’”, explica o professor Vinícius.

O interesse em alfabetizar os servidores terceirizados do setor de limpeza surgiu a partir da descoberta de que havia uma parcela de trabalhadores analfabetos na Universidade. Aldi explica que viu a necessidade de reverter esse problema, justamente por trabalharem em uma instituição de ensino.

Para que fosse viável para as próprias servidoras e garantir também sua participação no curso, foi reservado uma hora do expediente, na segunda, quarta e sexta-feira, para o aprendizado. A partir das 15h, os 15 servidores matriculados saem de seus postos de trabalho e vão para a aula, que acontece em um dos blocos próximos ao Restaurante Universitário (RU). As palavras aprendidas em aula partem da sugestão dos alunos, aliás.

Além de Aldi e Vinícius, o curso conta com outros dois professores, Djeison Benitti e Dorival Gonçalves Júnior. Com excessão de Dorival, os outros três são do Departamento de Matemática. Dorival é da engenharia elétrica. 

Diva Alves Pedroso, de 57 anos, é outra aluna do curso de alfabetização. O seu marido duvidou de sua capacidade, por conta da idade, mas ela garantiu que conseguiria. Com a visão prejudicada e uma lousa que reflete muito a luz, dificultando a leitura, ela senta nas primeiras cadeiras e surpreende os professores.

“A gente percebeu que ela, por si, tenta fazer as palavras. Ela pegou bem essa ideia de pegar as letras, juntar com outras e ver o som que sai. A partir disso, sozinha, ela começou a fazer palavras e trazer para a gente ver se está certo. Ela era uma das que inicialmente tinha dificuldades em saber o alfabeto. Ela mesmo tomou a iniciativa. Isso não é uma coisa nossa, é da força de vontade dela. Agora ela escreve várias palavras, quase frases completas”, conta o professor Aldi Nestor.
 
Professor Aldi Nestor.

Já Alice confessa que um dos problemas enfrentados durante o processo de aprendizagem foi o foco. Sem receber há alguns meses, ela não conseguia focar nas aulas porque estava sempre preocupada com as contas atrasadas. “Eu aprendi uma coisa: eu tenho que esquecer muitas coisas da vida, para eu poder aprender outras”, esclarece.

Com pouco mais de um mês de curso, o professor explica que ainda há alguns problemas em meio ao processo de aprendizagem de alguns alunos. Falar o alfabeto na sequência de A-Z ainda é uma dificuldade, por exemplo. Entretanto, ele percebe que há uma ajuda mútua entre as servidoras, com aquelas que têm um pouco mais de domínio com aquelas que têm mais dificuldade no aprendizado.

Além da alfabetização, o curso, que tem duração de um semestre, também oferecerá operações básicas de matemática. Os professores pensam em motivar os alunos para concluir o ensino fundamental, por meio do Exame Nacional Para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), mas para isso é necessário fazer uma extensão do curso e, por enquanto, não há previsão de outro semestre.
 

Taxa maior que a média nacional

A pesquisa do IBGE faz parte do módulo Educação da Pesquisa Anual por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) e é referente ao ano de 2018. Em comparação com 2017, o número cresceu, quando havia sido registrado mais de 167 mil. Consequentemente, a taxa de analfabetismo também aumentou, enquanto em 2017 foi de 6,5, em 2018 foi de 7,1, sendo inclusive maior que a média nacional, registrada em 6,8.

A pesquisa toma como base pessoas acima de 15 anos de idade e aponta que o número de homens e mulheres é semelhante, com 92.555 e 95.550, respectivamente. Já o número de brancos sem habilidade de escrita e leitura é menor que a de pretos e pardos. São 37.211 pessoas brancas analfabetas contra 149.308 pessoas pretas e pardas.

2 comentários

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  • Peruca
    04 Ago 2019 às 02:43

    Parabéns. Que iniciativa linda e louvável. Parabéns a todos envolvidos.

  • Nane
    27 Jul 2019 às 13:53

    Que legal, nunca é tarde para aprender, parabéns pelo trabalho!

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