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Trabalhadora em situação análoga à escravidão sofria agressões de patroa e tem pesadelos com ela até hoje

Da Redação - José Lucas Salvani

15 Dez 2019 - 08:09

Foto: Sérgio Carvalho

Ilustração

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Bianca*, aos 15 anos, foi trabalhar como empregada doméstica em um sítio próximo a Chapada dos Guimarães (a 60 km de Cuiabá), após a morte da avó e do pai, que cuidaram dela visto que sua relação com a mãe não era muito boa. O tratamento dado a Bianca era “de rainha”, como ela mesmo classifica, até completar 18 anos, quando a patroa mudou completamente. Nada para ela estava bom, o que resultava em agressões contra Bianca. Hoje, aos 22 anos ela está livre, mas ainda sofre pesadelos com a antiga chefe.

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“Eu tenho pesadelos com ela à noite, falando coisas para mim, que era para eu sair daqui, que esse lugar não é para mim. [No sonho], ela puxa minhas pernas. Na hora que eu deito, eu já sinto que ela está em meu ouvido. Até hoje eu sinto. Fico com aquele medo. Vou para lugares e fico assustada”, relata sobre ao Olhar Direto.

Bianca conta que o irmão foi junto dela para a casa, mas foi resgatado primeiro. Os dois viviam se defendendo como podiam, mas não o suficiente para evitar que Bianca apanhasse de cano da patroa. Ela preferiu não detalhar como a agressão se dava, mas conta que o tio, que também morava na casa, nunca tentou evitar que isso acontecesse. Um dia, aliás, ela o questionou sobre sua falta de atitude.

“Eu falei: ‘o senhor não gosta de mim. Quem gosta da gente de verdade defende a sobrinha. Vou pedir para Deus e eu vou conseguir sair daqui. Vai ter uma pessoa que vai conseguir me tirar daqui, igual tirou o meu irmão. Ninguém é cachorro para ficar se desfazendo dos outros’”.

Ao conversar com o Olhar Direto, Bianca não conseguia disfarçar a felicidade que sentia ao segurar o seu certificado do curso de Culinária, promovido pelo Ação Integrada. O projeto é fruto de uma articulação entre a Superintendência Regional do Trabalho (SRTb-MT), o Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT) e a Universidade a Federal de Mato Grosso (UFMT), com apoio de entidades parceiras. 

Não somente pela formação, sua felicidade era clara em seu olhar por também estar livre.. A todo momento em que encontrava alguma brecha, ela lembrava de agradecer alguém, mesmo que não recordasse seu nome. O resgate de Bianca aconteceu neste ano. Tudo é “novo” para ela que passou cerca de sete anos privada de sua liberdade.

Os planos de agora em diante é investir em uma faculdade, trabalhar, seguir com a vida e deixar o passado de lado, ainda que tenha os pesadelos frequentes. “Eu lembro de algumas coisas do passado, mas eu irei esquecer. Não vou ficar só nessa vida, lembrando do passado. Eu tenho que cuidar da minha vida que estou tendo daqui para frente”, pontua.

Confresa, líder em trabalhos análogos à escravidão

Entre 2003 e 2018, o município de Confresa (a 1161 km de Cuiabá) totalizou 1.348 resgates de trabalhadores em situações análogas à escravidão. O município, de acordo com o Observatório Digital de Trabalho Escravo, lidera no ranking de resgates, composto também por Ulianópolis (PA), Brasilândia (MS), Campo dos Goytacazes (RJ) e São Desidério (BA), onde foram registrados 1.288, 1.011, 982 e 967 resgates, respectivamente.

Durante esses 15 anos, 45.028 pessoas foram resgatadas, de acordo com informações do Banco de Dados COETE (Inspeção do trabalho), que também inclui trabalhadores resgatados mas que não receberam o Seguro-Desemprego.

O Observatório Digital de Trabalho Escravo também traz dados sobre a capital mato-grossense que totalizou 47 resgates durante o mesmo período. Em 2013, foi o ano que houve o maior número registrado de resgates, totalizando 32. Já o ano com o menor número registrado foi 2011, com duas pessoas resgatadas de trabalhos análogos à escravidão.

De acordo com o Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPMT), até o dia 28 de novembro, 21 pessoas foram resgatadas no estado em 2019. No panorama nacional, os resgates chegam a 653 pessoas.

*O nome fictício usado para preservar a real identidade da vítima.

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