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Terça-feira, 29 de setembro de 2020

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Advogado contesta tese de confronto: "quem em sã consciência abaixa um vidro blindado e atira no Bope?"

Da Redação - Max Aguiar

11 Ago 2020 - 14:12

Foto: Rogério Florentino Pereira/ Olhar Direto

Advogado Waldir Caldas

Advogado Waldir Caldas

O experiente advogado criminalista Waldir Caldas começou nesta semana a defesa de Geovane Ferreira Sodré e Rogério da Cruz Liberatori. Ambos são sobreviventes da ação em que policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (Bope) que acabou matando seis homens que estavam indo cometer um crime de roubo a uma chácara na região do bairro Jardim Itamaraty, nas proximidades do Belvedere, em Cuiabá. 

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Segundo o advogado, os dois estavam dentro dos carros que foram crivados de balas. Eles atestam que não houve confronto algum com os policiais. Por conta disso, na segunda-feira (11), Caldas encaminhou seus clientes para iniciar uma notícia crime junto ao Ministério Público. Lá foram atendidos pelo promotor do Núcleo de Defesa da Vida, Samuel Frungilo. 

Ao Olhar Direto, Caldas comentou que nesse momento não quer fazer julgamentos da ação, mas que busca apenas que a Polícia Civil faça seu papel de investigação e investigue até onde houve excesso por parte dos policiais militares. 

Conforme o advogado, seus clientes têm perfurações de bala no braço, na perna e estilhaços nas costas e joelho. "Eles estão feridos, mas nenhum com gravidade. Buscamos o Ministério Público para esclarecer a situação. Nós apresentamos provas e vamos em busca das demais. Agora cabe à PM também informar o que de fato houve por lá. Acreditamos no trabalho da Polícia Civil e esperamos que tudo seja investigado com seriedade", disse o advogado.
 
O crime "sem troca de tiros"

Waldir Caldas questiona o motivo de a polícia ter dito aos órgãos de imprensa que houve uma troca de tiros naquela madrugada de 29 de julho deste ano. Para o advogado, não teve tempo de ninguém trocar tiros. 

"Eles iriam fazer uma situação e houve a interceptação. Não seria roubo de condomínio, como a imprensa noticiou. Nesses casos com vários criminosos, apenas um ou dois sabem o que vão fazer. Eles apenas chamam, tramam a situação via mensagem e vão. Esses condomínios são muito bem policiados, não teria como entrar e fazer um roubo lá", explicou o advogado. 

"Eles estavam andando de carro há um certo tempo e quando chegaram lá choveu bala. Não houve tempo de disparo. Eles entraram na rua e o tempo fechou de bala pra cima deles", disse o jurista, rechaçando a tese de troca de tiros. 

Na ação, seis foram mortos. Entre eles estavam um policial militar e o filho de um sargento. Na notícia crime formulada ao Ministério Público, Geovane e Rogério disseram que o ato (sem citar se seria roubo, sequestro, furto, homicídio) aconteceria em uma chácara nas proximidades do bairro Itamaraty. 

Os policiais do Bope já estavam na busca pelos criminosos desde o início daquela madrugada. A informação era de que dois carros com homens armados estariam planejando um roubo em Cuiabá. O grupo passou a ser monitorado até encontrar os policiais numa estrada vicinal próximo ao condomínio Belvedere, no bairro Jardim Imperial. 

Terceiro carro 

O advogado Waldir Caldas ainda relatou ao Olhar Direto que os criminosos estariam em nove pessoas dentro de três veículos. Porém, o que intriga a defesa é que os carros andavam enfileirados e o primeiro passou e os dois últimos foram crivados de bala. 

"Tem um terceiro carro. Poucos sabiam disso. Nesse carro tinha uma pessoa sozinha. Ela passou e os dois carros que estavam atrás foram crivados de bala. Isso mostra que foi uma execução sumária. Esse primeiro carro foi poupado. Ou essa pessoa seria um informante ou seria um policial disfarçado que acabou 'passando a fita'. Tudo isso precisa ser evidenciado", contou. 

O advogado ainda disse que os meandros da informação seguirão a parte da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Porém, ele volta a afirmar que seus clientes contestam a informação de que houve troca de tiros. E ainda cita um exemplo óbvio para quem está em um carro blindado. 

"O Rogério e o Geovane, assim como outros três estavam no Corolla blindado. A parte mais frágil de um carro é o vidro. O carro que eles estavam estava blindado. Quem em sã consciência vai abaixar o vidro, que é a proteção, e atirar nos policiais? Não tem lógica para isso. Os policiais chegaram atirando e matando. Ali eles foram policiais, promotores, juízes e coveiros. Eles prenderam, julgaram e condenaram a morte. Esse não é o papel da polícia", comentou o advogado. 

Papel de advogado

Waldir comentou que o que ele está fazendo nessa ação é apenas o papel de advogado. "Somos advogado. Eu estou fazendo meu papel. Atuando em minha profissão. Fizemos a denúncia, juntamos as provas e encaminhamos para as autoridades competentes. As declarações das vitimas e as indicações de tudo que aconteceu. Não tomamos posicionamento. Nosso papel é ouvir e denunciar", ponderou Caldas. 

Para esclarecer essa situação, o advogado cita que espera que o caso tenha desfecho elucidado, para que a população possa ter conhecimento de todos os fatos. Sendo que o número de mortes causadas em ações das forças especializadas nos últimos meses, na opinião de Caldas, é assustadora. 

"​É assustadora o numero de mortes cometidas pelos policiais das forças especiais nos últimos dias. O que queremos é mostrar que a Polícia Militar é uma instituição respeitada. Se isso não for evidenciado, acaba maculando a imagem da instituição. que é amada pela população. Nós defendemos os bons policiais, o que não queremos é policiais que julgam senão teremos a toga substituída pela arma. Quem é que tem que decidir é o juiz. Quando o cidadão executa ele despreza as autoridades. Ele que decide pela vida ou pela morte. E a maioria dos policiais não tem esse comportamento", comentou.

Por último, Caldas afirma que nunca foi e nunca será contra a PM. Ao defender Geovane e Rogério, que mesmo estando envolvidos no pensamento do cometimento de um crime, ele busca a resposta de esclarecimentos que as vezes a população se faz, mas com medo de retaliações acaba se calando.

"Queremos uma polícia eficiente, dura quando necessária, com tudo dentro da lei, mas não queremos uma polícia que mata quando a população se manifesta, diz o que pensa e acaba sendo massacrado. Não somos contra a PM é uma instituição amada. Então afastar aqueles que praticam ação que são contra a lei é necessário. O que queremos é esclarecimentos dos fatos", concluiu o jurista.

Os fatos do caso estão sendo investigados pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Após apresentar os fatos no Ministério Público, Geovane e Rogério foram levados para a DHPP para contar o que eles sabem à autoridade policial. Porém, por estar se tratando da Covid, a delegada do caso não estava no prédio e transferiu a data para  outra ocasião. Com isso, novos esclarecimentos serão feitos e posteriormente os policiais que atuaram na ação devem também prestar seus depoimentos sobre o que aconteceu naquele dia. 

Com os seis mortos, o Bope apreendeu colete balístico, seis armas, sendo três revólveres e três pistolas. Rádios comunicadores e máscaras.  O local exato do crime não foi dito pelos dois sobreviventes da ação. O caso segue a ser investigado pela Polícia Civil. 

Outro lado

A Polícia Militar informa que a Corregedoria Geral já instaurou Inquérito Polícia Militar (IPM) para apurar a conduta dos policiais e as circunstância do confronto. O procedimento está em tramitação.

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