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Terça-feira, 29 de setembro de 2020

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Dom Pedro Casaldáliga é enterrado em cemitério indígena com bandeira do MST

Da Redação - Isabela Mercuri

12 Ago 2020 - 16:58

Foto: Reprodução

Dom Pedro Casaldáliga é enterrado em cemitério indígena com bandeira do MST
O bispo emérito Dom Pedro Casaldáliga foi enterrado na manhã desta quarta-feira (12) em um Cemitério Carajá, à beira do rio Araguaia. Em cima de seu túmulo, foi colocada uma bandeira do Movimento Sem Terra (MST). O religioso faleceu no interior de São Paulo na manhã do último sábado (8).

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A vontade de ser enterrado à beira do rio foi registrada por Dom Pedro em seus poemas. Dois deles foram divulgados pelo Coletivo Caiçara Dom Sebastião, no Facebook:

“Escutem com ouvidos atentos. Vou falar algo muito sério. É aqui que eu quero ser enterrado.”

Para descansar / eu quero só esta cruz de pau / como chuva e sol; / estes sete palmos e a Ressurreição! (Poema “Cemitério do Sertão”, de Dom Pedro Casaldaliga):

TESTAMENTO

Enterrem-me no rio,
Perto de uma garça branca.
O resto já será meu.
E aquela correnteza franca
Que eu, passando, pedia,
Será pátria recuperada.
O êxito do fracasso.
A graça da chegada.
A sombra-em-cruz da vida
Sob este sol de verdade
Tem a exata medida
Da paz de um homem morto…
E o tempo é eternidade
E toda a rota é porto!
(Pedro Casaldáliga)

O local do sepultamento de Dom Pedro é uma área onde eram sepultados indígenas e trabalhadores sem terra que foram explorados e assassinados por grileiros da região. Em um vídeo do sepultamento, é possível ver as pessoas cantando o Salmo 23, “Felizes os de coração puro porque verão a deus”.
 

Como ele mesmo pedira, a partir de agora, o corpo de Dom Pedro Casaldáliga ficará para sempre às margens do Rio Araguaia, enterrado em meio a seus irmãos indígenas - muitos deles assassinados - no antigo cemitério de São Félix. Ainda lembro o quanto esse lugar nos faz reviver uma história de violência e atrocidades contra os povos indígenas, que não pode ser esquecida, para que não volte a acontecer. Dom Pedro sempre foi criticado por alguns grupos católicos por defender o direito dos povos indígenas, dos trabalhadores sem-terra e dos pobres em geral, como se isso não fizesse parte da missão de um bispo. O que talvez não saibam seus críticos é que essa sua luta pela justiça sempre foi alimentada por uma profunda espiritualidade, pois ele afirmava que "sem uma mística profunda, sem pessoas novas, as melhores reformas sociais, as melhores revoluções não podem ir adiante". A verdade é que, como pastor, Dom Pedro nunca deixou de falar da necessidade da conversão do coração. mas acrescentava que "uma conversão do coração que não se traduzir simultaneamente em luta pela mudança de estruturas injustas não é completa nem autêntica, mas um engano alienante". Um dado interessante é que, para Pedro, a realidade latino-americana pede de nós uma espiritualidade que nos faça "contemplativos na libertação", trazendo essa realidade marcada pela injustiça e pela opressão para a nossa experiência de Deus. Ora, quem conhece a espiritualidade inaciana sabe que Santo Inácio de Loyola espera também que os Exercícios Espirituais nos tornem verdadeiros "contemplativos na ação", buscando e encontrando a Deus em todas as coisas, para em tudo amar e servir. Peçamos, então, a intercessão dos dois, para que a nossa fé não seja só de aparências, mas se traduza em obras concretas de amor, solidariedade e compromisso pelos pequenos, os preferidos do Reino de Deus.

Posted by Adelson A. Santos Sj on Tuesday, August 11, 2020

 
Dom Pedro internado em um hospital por conta de um problema respiratório que se agravou nos últimos dias. De acordo com informações da Igreja Matriz da cidade, o último exame feito no líder religioso indicava que ele não estava infectado com a Covid-19. 

O velório aconteceu em três locais: Batatais (SP), Ribeirão Cascalheira e São Felix do Araguaia (ambos em Mato Grosso).

Casaldáliga é conhecido mundialmente por conta de suas batalhas e defesas em prol dos menos favorecidos. Na região do Araguaia ele tem um trabalho prestado a favor de indígenas, quilombolas e sem terras. Na Pastoral da Terra, ele tem trabalho prestado e reconhecido até pelo Vaticano. 

Recentemente, ele assinou uma carta contra o presidente Jair Bolsonaro, citando que o Governo Federal se omite pelos mais pobres. Além de Dom Pedro, outros dois bispos também assinaram a carta e enviaram ao chefe da nação. 

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